Cuba: Espera e finais abertos

Havana, 07/10/2006 – O singular boletim médico do próprio presidente Fidel Castro, no qual declara sua saúde “segredo de Estado”, abre um compasso de espera de finais abertos, todos de importância estratégica para o futuro de Cuba. Em uma mensagem divulgada na noite de terça-feira na televisão e no dia seguinte em toda a imprensa estatal cubana, Castro justificou o segredo pelos “planos do império” contra seu país, o que faz prever que não haverá informes diários sobre sua saúde. O presidente acrescentou que seu estado de ânimo é “perfeitamente bem”, que seu estado de saúde é estável e assim permanecerá por muitos dias.

Um dia antes, Castro surpreendeu o país e o mundo com a informação de que havia sido submetido a uma delicada intervenção cirúrgica que o manteria por “várias semanas” afastado de “suas responsabilidades e cargos”. O próprio governante afetado informar sobre seu estado de saúde não é comum no mundo, mas é mais habitual para a população cubana, à margem de eventuais desacordos políticos ou de outra ordem. “Estamos acostumados ao fato de sempre ser Fidel a explicar assuntos de gravidade para o país. Sempre foi assim”, disse à IPS Manuel Abreu, ao fim de uma reunião realizada em seu bairro em apoio ao presidente “e à revolução”.

De alguma maneira, na segunda-feira Castro fixou o dia 2 de dezembro como data para sua recuperação, ao pedir o adiamento até esse dia da comemoração de seus 80 anos, que completa no próximo dia 13. A lei biológica poderia aprontar uma com o homem que governa o país por quase meio século. Mas nos últimos anos seu eventual afastamento definitivo deixou de ser tabu por suas próprias referências. “Temos medidas tomadas e medidas previstas para que não haja surpresa (…). Que nossos inimigos não se iludam; eu morro amanhã e minha influência pode crescer”, disse em suas conversas com o jornalista Ignácio Ramonet, do jornal francês Le Monde Diplomatique. Sua doença ocupa desde segunda-feira as primeiras páginas de milhares de meios de comunicação com interpretações de todo tipo, incluindo a suspeita de que já morreu e seus colaboradores estão ocultando.

O país segue em calma, imerso em suas tarefas habituais. Após dois dias, a saúde de Castro continua sendo tema de conversas. O que acontecerá nas próximas semanas e meses? “Logo saberemos”, dizem alguns. “Em Miami estão comemorando, mas aqui o homem (Castro) qualquer dia volta e retoma tudo”, disse um cidadão a outro enquanto esperava para pagar umas contas na fila do banco. A equipe formada para substituir Castro provisoriamente, liderada por seu irmão Raúl, de 75 anos, ministro das Forças Armadas e primeiro vice-ministro do Conselho de Estado, assumiu as funções sem cerimônias, pelo menos públicas.

“O importante é que tudo anda e andará perfeitamente bem”, disse Castro em sua mensagem divulgada inicialmente na noite de terça-feira no programa de televisão “Mesa Redonda”, do qual participou em várias ocasiões. Para analistas, essa confiança obedece ao fato de a cúpula se preparar para evitar ou minimizar a catástrofe, de modo semelhante ao que ocorre quando se espera a passagem de um furacão. “Se lhe acontecesse algo há uns 15 anos, a debacle seria, talvez, inevitável”, disse à IPS uma fonte próxima aos meios governamentais.

Em sua opinião, “ninguém sabe” o que poderia ter acontecido em Cuba se a incapacidade física tivesse ocorrido no início dos anos 90, quando se desfez o campo socialista na Europa oriental e a União Soviética se dissolveu. A economia cubana, que dependia quase totalmente do intercâmbio com a então poderosa URSS e demais países socialistas, caiu em queda livre e reduziu dramaticamente as condições de vida da população. O vice-presidente, Carlos Lage, de 54 anos, um dos artífices das reformas adotadas na época para tirar o país da forte recessão, figura na equipe criada por Castro para governar em sua ausência.

Acontece que nos últimos dois anos Castro deu marcha-à-ré na abertura iniciada nos anos 90 com essas mudanças e da livre circulação do dólar passou-se à substituição dessa moeda por pesos conversíveis e à férrea centralização da economia. Em tais decisões esteve acompanhado de Francisco Soberón, de 62 anos, ministro-presidente do Banco Central, outro integrante da equipe interina de governo junto como chanceler Felipe Pérez Roque, de 41 anos, o mais jovem do grupo e ex-chefe de gabinete de Castro. José Ramón Machado Ventura, de 75 anos, e José Ramón Balaguer, de 74, considerados comunistas ortodoxos e da geração histórica no poder, mais Esteban Lazo, de 61 anos, há dois anos encarregado do setor ideológico do governante e único Partido Comunista de Cuba, completam a equipe de transição, ou de sucessão, “à cubana”.

Não falta quem estime que, mesmo em seu leito de enfermo, Castro continuará pendente do que fizerem estes homens. Em todo caso, é a primeira vez que delega o mando em quase cinco décadas de exercício do poder. Em 2001 sofreu um desmaio enquanto discursava, e horas depois apareceu diante das câmeras de televisão. “Estou inteiro”, foram suas primeiras palavras. A queda que sofreu em 2004 o deixou inabilitado por um tempo, mas se recuperou totalmente e reiniciou suas atividades públicas. Agora, a situação é mais grave. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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