Rio de Janeiro, 09/10/2006 – O consumo de energia no Brasil sempre cresceu a um ritmo mais acelerado do que o produto interno bruto, mas essa tendência deve e pode ser invertida em favor de um desenvolvimento sustentável, com grandes benefícios, inclusive econômicos, asseguram especialistas. Essa possibilidade foi projetada na Agenda Elétrica Sustentável 2020, um informe patrocinado pela WWF-Brasil (sigla em inglês do Fundo Mundial para a Natureza) e elaborado por cientistas da Iniciativa Internacional de Energia (IEI) e da Universidade Estadual de Campinas.
O Brasil poderia gerar oito milhões de novos empregos, evitar inundações de florestas, economizar o equivalente a US$ 15 bilhões e ganhar US$ 2,5 bilhões em créditos de carbono até 2020 caso o governo adote uma política agressiva de eficiência energética e fontes renováveis, sem sacrificar o crescimento econômico, afirma o documento. Os especialistas estimaram tais resultados comparando o “cenário Tendencial”, baseado nas orientações atuais do governo do presidente Luiz Inácio Lula da silva nas áreas de economia e energia, com o “cenário Elétrico Sustentável”, combinando redução do desperdício e ampliação de fontes alternativas aos combustíveis fósseis, tudo no período 2004-2020. Nos dois casos considera-se o crescimento econômico esperado, de 4,02% ao ano.
Se for mantida a tendência atual, a capacidade instalada de geração de eletricidade teria de crescer 5% ao ano, passando de 92 mil megawatts para 204 mil ao final dos 16 anos. Por outro lado, o cenário sustentável exigiria uma expansão anual de apenas 2%, alcançando, assim, 126 mil megawatts em 2020. Desse modo, pode-se evitar a construção de grandes centrais hidrelétricas, especialmente na Amazônia, com represas que destruiriam a biodiversidade com inundação de florestas, e de centrais termoelétricas, que queimam combustível fóssil emitindo gases causadores do efeito estufa, afirma a pesquisa.
Parte da economia, segundo o plano dos especialistas, deveria ser aplicada em fontes renováveis, com a geração de energia eólica, solar, de biomassa e de pequenas hidrelétricas, o que aumentaria sua participação em 20% da matriz energética em 2020 e permitiria a criação de oito milhões de novos empregos. Evitar a emissão de gases que causam o efeito estufa pode render R$ 5,6 bilhões no mercado criado pelo Protocolo de Kyoto sobre mudanças climáticas, que obriga os países industrializados a reduzirem suas emissões, permitindo que cumpram parte de suas metas comprando os chamados “créditos de carbono” de países em desenvolvimento.
Mas o Estado discorda. É “uma utopia antidesenvolvimento” essa idéia de que pode haver crescimento econômico “sem expansão da oferta de energia elétrica”, sem novas usinas geradoras, afirmou Mauricio Tolmasquin, presidente da estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE) que orienta os planos do Ministério de Minas e Energia. Mais contundentes ainda são alguns líderes empresariais e técnicos do setor, que prevêem crise energética dentro de três ou quatro anos se não foram construídas rapidamente as centrais hidrelétricas que estão atrasadas por exigências ambientais, especialmente na Amazônia.
Para os ambientalistas, é um falso dilema a questão entre desenvolvimento e meio ambiente, pois se trata de tornar mais sustentável a própria economia. Nisso coincidem especialistas como Jayme Buarque de Hollanda, diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE), uma das organizações não-governamentais associadas ao estudo da WWF-Brasil. O informe sobre o Brasil faz parte de uma iniciativa da rede internacional de organizações WWF, que elabora propostas semelhantes em 16 países, em sua maioria industrializados, para reduzir as fontes energéticas mais contaminadoras.
O cenário sustentável para o Brasil pode ter “alguns exageros”, mas, em termos gerais “é viável a longo prazo”, disse Buarque de Hollanda à IPS. A experiência da crise energética de 2001 comprovou o desperdício e a possibilidade de reduzir muito o consumo, recordou. Em maio de 2001, o déficit de geração elétrica levou o governo a promover uma espécie de racionamento durante nove meses, pro meio de medidas combinadas de estimulo e punição para quem não cumprisse a meta de reduzir o consumo em 20%. A economia na área residencial superou esse objetivo.
A campanha foi improvisada e seu sucesso se baseou em simples mudanças de hábitos, medidas óbvias de sensatez, com renovar alguns equipamentos de refrigeração. Um programa planejado, mais profundo, pode ter resultados melhores, disse o especialista. A respeito das alternativas, somente o melhor aproveitamento do bagaço da cana-de-açúcar poderia aumentar entre 10% e 15% a geração elétrica atual; trata-se de “uma energia abandonada” devido aos erros da política governamental sobre fontes renováveis, afirmou Buarque de Hollanda.
Outro equívoco brasileiro, e também da vizinha Argentina, é o uso de gás natural com combustível para automóveis, que tem baixíssima eficiência porque só aproveita 13% de sua energia total, criticou o especialista. Seu uso industrial em co-geração elétrica pode atingir 80% de energia útil, ressaltou. O informe realizado por especialistas em eficiência energética, como os que se juntaram na IEI, é importante em seu aspecto “provocador” para promover a discussão e uma reflexão sobre esse tema crucial para o desenvolvimento e o clima mundial, afirmou Buarque de Hollanda. A iniciativa busca evitar que o Brasil, “uma referencia nas negociações internacionais” sobre mudança climática e no uso de muita “energia limpa”, acentue a tendência de priorizar combustíveis fósseis na diversificação de sua matriz energética, explicou Denise Hamu, secretária-geral da WWF-Brasil. (IPS/Envolverde)

