Porto Príncipe, 07/10/2006 – A Organização das Nações Unidas proporá prorrogar por mais um ano sua Missão de Estabilização no Haiti (Minustah) para enfrentar a crescente onda de violência, anunciou o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que na sexta-feira concluiu sua visita a esse país. Também pedirá ao Conselho de Segurança, esta semana, um reforço da missão. Rodeado por membros jordanianos da missão e em companhia do presidente haitiano, René Préval, Annan disse o Palácio Nacional de Porto Príncipe que não será admitido que a impunidade prevaleça em meio à insegurança que dominou o país nas últimas semanas. “Conseguimos muito com nossa associação, mas é preciso fazer muito mais”, disse Annan.
O secretário-geral garantiu que o Conselho de Segurança irá examinar a prorrogação por um ano do mandato da Minustah, quando o comum nesses casos e prolongar por seis meses. Também solicitará mais especialistas para capacitar a polícia haitiana, hoje alvo de acusações de corrupção, brutalidade e politização. “Estamos decididos a trabalhar com o governo para por fim” à insegurança, garantiu Annan. Por sua vez, Préval disse que “a situação não é fácil, mas com o apoio da ONU avançaremos. O problema da segurança, que todos sofrem, é primordial”, acrescentou ao se dirigir aos funcionários e jornalistas reunidos no Palácio Nacional em creole, um dos dois idiomas oficiais do Haiti.
A Minustah – integrada, após a partida de tropas jordanianas, por 6,5 mil soldados e 1,5 mil policiais – é criticada por sua paralisia. Uma onda de crimes e morte sacode este país de oito milhões de habitantes, e, em particular, Porto Príncipe, a capital, após um período de relativa calma que se seguiu á eleição em fevereiro de Préval, que já havia sido presidente do Haiti entre 1996 e 2001. A missão da ONU assumiu suas funções de uma Força Multinacional Interina encabeçada pelos Estados Unidos em junho de 2004, após a queda, em fevereiro desse ano, do presidente Jean-Bertrand Aristide, em meio a uma revolta armada e protestos de rua.
Nos últimos dias, centenas de haitianos foram obrigados a abandonar suas casas, incendiadas, e fugir através do bairro de Martissant, na capital do país. A violência de grupos delinqüentes deixou, pelo menos, 30 mortos, e deixou silencioso bairros antes buliçosos. Na segunda-feira, intensos tiroteios entre membros das gangues e soldados da ONU perto do aeroporto de Porto Príncipe forçaram vários motoristas a circular a toda velocidade e na contra-mão pelas ruas principais. Dois supostos ladrões foram mortos a tiros pela polícia, quando roubavam comerciantes no distrito Rues du Centre da capital. E na semana retrasada um policial haitiano foi morto com um tiro no centro comercial da cidade.
O chefe diplomático da missão das Nações Unidas no Haiti disse à IPS que esta força irá procurar a participação de militares especializados em tratar com áreas problemáticas específicas. “Solicitamos reforços adicionais com unidades especializadas contra seqüestro e também unidades como a SWATG (Armas e Táticas Especializadas) para estarmos melhor preparados para apoiar as forças policiais haitianas”, disse à IPS Edmond Mulet, chefe da missão. Provavelmente, cada uma das novas forças incluirá cerca de cem pessoas dedicadas a tarefas anti-sequestros, acrescentou.
“A ordem é que a Minustah estabilize o país, e quem está causando essa desestabilização são os seqüestradores e os líderes de gangues, também apoiados por interesses políticos, por narcotraficantes e por pessoas que prefeririam ter impunidade neste país. Esperamos que a Minustah se concentre, a partir deste mês, mais em cumprir a lei”, acrescentou Mulet. Por sua vez, o primeiro-ministro, Jacques Edouard Aléxis, disse na semana passada à Rádio Metrópole que o governo do Haiti está preparado “para usar qualquer meio necessário para que a lei e ordem sejam respeitadas em todo o país”. Os seqüestros na capital haitiana aumentaram de 39, em junho, para 61, em julho, segundo a força de tarefas anti-sequestros da ONU.
A Minustah é a mais recente de uma série de missões da ONU que funcionaram no país nos últimos 15 anos. Em setembro de 1993, em meio a uma ditadura militar que havia deposto Aristide em seu primeiro mandato presidencial, a ONU formou uma para ajudar na implementação do acordo alcançado pelas duas partes na novaiorquina Ilha de Governadores, em julho desse ano. Em 1996, essa missão foi transformada em Missão de Apoio às Nações Unidas no Haiti (Unsmih), que até 1997 tentou reafirmar as nascentes instituições democráticas do país. Depois, houve mais duas missões da ONU, que duraram até 2000. (IPS/Envolverde)

