México: Governo federal tem de intervir em estado rebelde

México, 30/10/2006 – O governo do México anunciou no sábado o envio de forças federais para a capital do Estado de Oaxaca, em resposta à violência que na sexta-feira deixou quatro mortos e 23 feridos. Foi o pior dia desde que em maio começou o violento conflito social e político nesse distrito. O presidente Vicente Fox tomou a decisão após uma reunião de emergência com sua equipe da área de segurança, que terminou na madrugada do sábado. Em um breve comunicado informou que o objetivo é restabelecer a ordem. Emissoras de rádio informaram desde a cidade de Oaxaca que nas primeiras horas de sábado chegara, por via aérea, centenas de agentes da Polícia Federal Preventiva. A Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) – que exige a renúncia do governador do Estado, Ulises Ruiz, acusado de corrupção e autoritarismo – se declarou em alerta máximo e chamou seus membros a resistirem diante de qualquer ação repressiva.

Homens vestidos de civil e que foram identificados como policiais e autoridades municipais atacaram com tiros, na tarde de sexta-feira, membros da APPO, que, com paus e bombas incendiárias, se manifestavam na via pública e reforçavam o bloqueio de ruas que mantêm em Oaxaca. Como conseqüência dos tiroteios morreu um professor, um morador da periferia da capital e mais uma pessoa que ainda não havia sido identificada. Além disso, morreu com dois tiros no abdômen o câmera norte-americano Bradley Roland Will, colaborador do grupo jornalístico independente Indymedia, e foi ferido Osvaldo Ramírez, fotógrafo do jornal mexicano Milênio. A embaixada dos Estados Unidos no México lamentou a morte de Roland, de 36 anos, e chamou o governo a realizar esforços para que “o império da lei” volte a Oaxaca.

O conflito nesse Estado, iniciado dia 22 de maio com protestos de professores exigindo melhores salários, se agravou sem que os governos local ou federal e nem os legisladores pudessem contê-lo. Com as quatro mortes de sexta-feira, o número de vítimas fatais por ataques de grupos armados irregulares, que segundo a APPO estão integrados por policiais e sicários contratados pelo governador Ruiz, aumentou para 14. Todas elas, com exceção de Roland, eram parte do movimento social opositor. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) exortou na sexta-feira o governo Fox a “envolver-se mais decididamente” no conflito de Oaxaca. Por sua vez, a Federação Internacional de Direitos Humanos manifestou sua preocupação pelo crescente desrespeito aos direitos humanos nesse Estado. A APPO assegurou que na sexta-feira foram detidos vários de seus membros, que permanecem na qualidade de desaparecidos.

Nessa violenta jornada, viu-se a atuação de chefes policiais do Estado que respondem ao governador Ruiz, membro do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México entre 1929 e 2000. Apesar das exortações do governo Fox, do Partido Ação nacional (PAN), e de alguns dirigentes do PRI, para que renuncie ou se licencie, Ruiz insiste em ficar no cargo. O conflito em Oaxada, um dos Estados mais pobres do México e governado pelo PRI desde o início do século XX sem interrupções, começou em maio quando o sindicato local de professores paralisou suas atividades. Diversas assembléias desses profissionais decidiram esta semana voltar ao trabalho. Mas, com os três fatos violentos de sexta-feira a iminente chegada de policiais federais a Oaxaca, essa decisão pode ser revista, segundo a APPO. Em junho, Ruiz tentou, sem sucesso, dissolver o protesto dos professores com uma ação policial. Depois desse ato, em que foram usadas armas de alto poder de fogo, o descontentamento aumentou.

De forma espontânea surgiu a APPO, que além do sindicato dos professores agora reúne outras 350 organizações sociais. Desde então, a crise foi crescendo. A APPO ocupou as repartições públicas e emissoras de radio comerciais e ocupou as ruas e praças da cidade para exigir a saída de Ruiz, que há meses governa desde um luxuoso hotel da capital mexicana. Diversas organizações humanitárias informam que as forças do Estado agem em Oaxaca de forma ilegal contra os movimentos sociais, sejam mediante repressão, subornos ou ameaças. O governador, que pela crise em seu Estado responsabiliza a APPO – a qual qualifica de grupo violento – é um dos militantes da ala mais conservadora do PRI. Embora na maioria dos Estados e em nível nacional este histórico partido tenha perdido sua hegemonia, em Oaxaca se mantém como o mais poderoso. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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