Washington, 09/10/2006 – Os casos de discriminação, assédio e violência contra muçulmanos aumentaram 30% nos Estados Unidos nos ano passado, em relação a 2004, segundo os registros da principal organização da comunidade islâmica deste país. O Conselho sobre Relações Islâmico-Norte-Americano (Cair) constatou 1.972 incidentes em 2005. Não havia um número tão alto desde 1995, quando um atentado terrorista de ultra-direita em Oklahoma, inicialmente atribuído a radicais árabes, desatou uma onda de agressões anti-islâmicas. O Cair também contabilizou no ano passado 153 casos de “crimes de ódio” contra muçulmanos, 10% a mais do que em 2004 e mais de 50% acima dos 93 registrados em 2003.
“Está claro que persiste nos Estados Unidos uma crescente atmosfera de temor e hostilidade em relação aos muçulmanos, árabes e asiáticos do sul”, diz o informe deste ano. O estudo também destaca o aumento dos prejuízos antiislâmicos dos quais dão conta as pesquisas. Por outro lado, a quantidade de muçulmanos que manifestaram queixas por agressão contra seus direitos civis (discriminação, hostilidade e violência que não chegam ao nível de crime) triplicou nos dois anos depois do atentado em Oklahoma, em abril de 1995, passando de 80 para 240. Este número aumentou gradualmente até 366, e sofreu um novo aumento agudo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Em 2002, foram 602 incidentes; 1.019, em 2003, e 1.522 em 2004.
O autor do informe do Cair, Arsalan Iftikhar, atribui a principal causa da onda de incidentes racistas à ação dos meios de comunicação, incluída a Internet. “Acreditamos que o principal fator do sentimento antiislâmico é o crescimento da retórica islamofóbica que inunda a Internet e os programas de radio da era pós 11 de setembro. É impossível ligar o rádio sem ouvir comentários negativos e tendenciosos sobre o Islã”, acrescentou Iftikhar. A maioria das queixas de muçulmanos em matéria de direitos civis se refere à vigilância policial com base na raça e religião e a prisões ou detenções sem razão.
Menos comum foram os casos de discriminação no acesso à moradia ou ao emprego, mais de 300 denuncias das 2.300 recebidas pelo Cair em 2005 foram infundadas. Entre os piores crimes de ódio do ano passado figuraram um atentado com explosivos contra uma mesquita em Cincinati, a surra em um idoso por um grupo de adolescentes do lado de fora de um templo no Arizona, o ataque contra uma grávida em Virginia por três homens que gritavam palavras contra o islamismo, e disparos contra dois veículos estacionados perto de uma mesquita na Filadélfia.
O Cair observou que as autoridades centrais, especialmente o Escritório Federal de Investigações (FBI), mostraram mais responsabilidade na investigação desses delitos do que as autoridades estaduais. Também indicou que 10 dos 51 Estados concentravam quase quatro em cada cinco queixas: Califórnia (19%), Illinois (14%), Nova York (9%), Texas (8%), Virginia (7%), Flórida (6%), a cidade de Washington (5%) e Maryland, Ohio e Nova Jersey (4% cada). Duas pesquisas divulgadas nos últimos anos mencionadas no relatório do Cair indicam que a metade dos norte-americanos tem uma percepção negativa sobre o Islã e que um em cada quatro entrevistados tem idéias “extremas” a respeito.
Outro estudo, contratado especialmente pelo Cair, mostra que um quarto dos entrevistados consideraram verdadeiros certos estereótipos como “os muçulmanos valorizam menos a vida do que outras pessoas” e “o Islã ensina a violência e o ódio”. Quase 60% dos norte-americanos afirmam que nunca conheceram um muçulmano. Outra pesquisa, feita este ano pelo Projeto de Atitudes Globais Pew, concluiu que as atitudes dos Estados Unidos em relação ao Islã eram menos negativas do que em outras nações ocidentais, como Espanha e Alemanha.
O Cair, com filiais em quase todos os Estados norte-americanos, iniciou gestões para um diálogo inter-religioso nos últimos anos. Também distribuiu cópias gratuitas do Corao e um documentário da televisão pública dos Estados Unidos sobre a vida do profeta Maomé e em formato DVD. Em uma reunião com dirigentes nacionais no começo deste mês, o ex-presidente do Irã, Mohammed Khatami, exortou o Cair a informar aos não-muçulmanos que o Islã é “uma religião de amor, tolerância e coexistência” e a “lutar contra a islamofobia com todos os meios legítimos disponíveis”. (IPS/Envolverde)

