Líbano: As duas faces de Beirute

Beirute, 07/10/2006 – Um famoso cartaz perto da Universidade Norte-Americana de Beirute mostra uma mulher vestida com a tradicional túnica islâmica negra ao lado de outra usando biquíni. Juntas, representam o rosto da capital do Líbano. Uma vez mais, os aviões de combate israelenses bombardeiam as zonas muçulmanas ao sul de Beirute por considerá-las reduto do Hezbollah (Partido de Deus), de tendência islâmica, xiita e pró-Síria. Antes haviam bombardeado uma ponte na zona cristã da cidade, o que não é habitual. A capital não é bombardeada por igual.

Beirute é uma cidade de duas faces, uma cristã e outra muçulmana. O mais encantador desta capital é a combinação das duas tradições. Nem sempre a diferença entre ambas foi tão evidente. A dualidade esteve na raiz dos problemas e, também, na origem das soluções. O conflito entre cristãos e muçulmanos desatou uma guerra civil, na década de 70, que destruiu Beirute. A fagulha que acendeu a chama foi o massacre de 27 passageiros palestinos em um ônibus pelas milícias da direita cristã, no dia 13 de abril de 1975. Imediatamente houve represálias que aumentaram a espiral de violência durante 17 anos.

Antes disso, na capital libanesa confluíam dois mundos. As nações ocidentais a batizaram de “Paris do oriente”. Nas grandes casas brancas com telhados vermelhos viviam os ricos que lotavam os elegantes comércios do centro. Vivia-se um ambiente festivo. Beirute atraía os ocidentais, que durante o dia esquivavam no monte Líbano, de onde se avista toda a cidade, e à noite degustavam pratos de marisco em restaurantes à beira das praias banhadas pelo cristalino e azul mar Mediterrâneo. É estranha a forma como este país com menos de quatro milhões de habitantes abrigou tantos contrastes.

A influência ocidental era forte na classe média. Muitos pais costumavam enviar seus filhos para estudos universitários no Ocidente. Muitos jovens libaneses casaram-se no estrangeiro e adquiriram dupla nacionalidade. Seus filhos, conseqüentemente, foram criados em duas culturas. Com o tempo, esse costume predominou mais entre cristãos do que entre muçulmanos. Entre os islâmicos, a comunidade xiita, que é majoritária no Irã e no Iraque e constitui a minoria no mundo árabe frente aos sunitas, cresceu até constituir 60% da atual população libanesa. Ao mesmo tempo, surgia o Hezbollah, com o objetivo de contrapor-se à ameaça israelense no sul.

No início dos anos 70, as comunidades religiosas do país começaram a distanciar-se. Muçulmanos xiitas e sunitas, refugiados palestinos, maronitas cristãos, drusos, todos seguiram seu próprio caminho. Freqüentemente atravessavam uns os caminhos dos outros. O massacre do ônibus simplesmente acendeu a chama dessa explosiva mistura. A intervenção síria, seguida da invasão israelense em março de 1978, somente causou mais mortes. O conflito chegou a ponto de vários países, incluídos Estados Unidos e França, enviarem tropas para impor a paz. Mas elas também passaram e ser alvos de ataques.

Em 1983, 220 fuzileiros navais e outros 21 soldados norte-americanos foram mortos em atentados terroristas em seus quartéis de Beirute, depois dos quais se retiraram. A guerra civil que então se desatou provocou, somente na capital libanesa, 18 mil mortes. O Acordo de Taif, de 22 de outubro de 1989, patrocinado pela Arábia Saudita, deu por encerrada a guerra civil no Líbano em 1990 e reduziu o enorme poder que detinham os maronitas, ao estabelecer a formação de um gabinete integrado igualmente por cristãos e muçulmanos. Porém, o acordo não contemplou o crescente poder dos xiitas. Ao mesmo tempo, o governo não pôde se contrapor à ameaça israelense.

O Hezbollah, que surgiu na década de 80, se converteu em uma força de combate com mais poder do que o exército libanês. O partido xiita se formou para enfrentar Israel. Ainda assim, nos primeiros anos de vigência do Acordo de Thaif, houve certa estabilidade. O comércio ressurgiu e o turismo retomou a dinâmica que teve no período entre o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e o começo da guerra civil da década de 70. Israel continuou ocupando algumas regiões do sul do Líbano, mas a população de Beirute começou a limpar os destroços e a renascer. Essa foi a história até o último dia 12 de julho, quando começou o conflito atual. Desde então, um terço da população libanesa foi obrigada a abandonar suas casas por causa da violência.

O acampamento de Shatila voltou a abrigar refugiados. Foi ali, e no vizinho acampamento de Sabra, que, em 1982, milicianos cristãos apoiados por Israel assassinaram mil palestinos. O país afunda novamente, justamente quando estava se levantando. Antes de começarem, há mais de três semanas, o atual bombardeio sobre Beirute, junto a um edifício com rastros de explosivos da época da guerra civil em suas paredes se erguia um luxuoso centro comercial, cujos empregados limpavam os vidros até que estes reluzissem. O novo bombardeio agrava o contraste. Ainda são vistas mansões de telhados vermelhos e os luxuosos restaurantes, não muito longe de Shatila.

Por uma das ruas pelas quais ainda se pode transitar, um táxi Mercedes Benz de mais de 30 anos expele fumaça negra enquanto é ultrapassado por um moderno carro da mesma marca alemã, guiado por um jovem libanês. Beirute sempre viveu com esse contraste. Mas, será muito difícil apagar a nova brecha que separa o destruído sul da elegante e a reconstruída área central, habitada por cristãos. A cidade ainda se orgulha de seus finos restaurantes na costa do Mediterrâneo e de exportar pratos tradicionais para todo o mundo. No entanto, muitos esquecem que 20% da força de trabalho não tem emprego.

A guerra civil afastou os investidores da capital. O novo conflito, provavelmente, desestimule muitos dos que retornaram a Beirute depois do Acordo de Taif. A população xiita é a mais atingida. Nestes dias, os moradores da zona cristã de Hamra, a 10 minutos dos destruídos distritos do sul onde predominam os xiitas, procuram seguir suas rotinas com se não fossem bombardeados. Muitos fazem exercícios na praia. O comércio permanece aberto. As ruas continuam congestionadas. Israel escolhe cuidadosamente a face do Líbano que vai bombardear.

Hamra continua sendo agradável, embora sobre as cabeças de seus moradores paire uma negra nuvem de guerra. A onda de turistas foi substituída por uma onda de jornalistas. O fornecimento de energia elétrica é esporádico e aumentam as filas em busca de combustível. Beirute, e também Hamra, estão à beira do precipício. Desta vez, a visita aos pontos turísticos pode não terminar em um prato de mariscos na costa mediterrânea. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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