Líbano: As mortes em uma guerra que não existe

Nova York, 20/10/2006 – A guerra entre Israel e o movimento xiita libanês Hezbollah (Partido de Deus) terminou em agosto graças a um cessar-fogo patrocinado pela Organização das Nações Unidas. Mas, milhares de libaneses continuam morrendo vítimas de explosivos abandonados no sul. Entre três e quatro pessoas morrem ou ficam mutiladas por dia devido às bombas de fragmentação usadas pela Força Aérea israelense durante a guerra, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira na sede da ONU. Esse tipo de bomba tem um dispositivo que, ao se abrir, libera um grande número de miniexplosivos.

O documento, intitulado “Dano previsível: o uso e o impacto das munições de fragmentação no Líbano”, diz que entre os mortos e feridos há muitas crianças menores de 16 anos. Nas 72 horas antes da entrada em vigor do cessar-fogo, no dia 14 de agosto, as forças israelenses dispararam 1.800 bombas de fragmentação no sul do Líbano, contendo 1,2 milhões de pequenas munições, muitas ainda sem explodir. “Três dias de uso indiscriminado dessas munições deixaram um legado mortal no sul do Líbano. Que levará anos para ser erradicado”, disse Thomas Nash, co-autor do estudo de 52 páginas e coordenador da Coalizão contra as Munições de Fragmentação.

“Por não funcionarem como se esperava, estas bombas falham na grande maioria dos casos, e ficam, pelo menos, um milhão de pequenas munições sem explodir nas estradas, escolas, poços de água, casas, jardins e no campo”, disse Nash. Ele e outros ativistas da organização não-governamental Landmine Action, que elaborou o estudo, alertaram que as bombas de fragmentação afetam seriamente a vida dos libaneses, bloqueando o fornecimento de água, prejudicando o trabalho de restauração das linhas de energia elétrica e impedindo a remoção dos escombros. A investigação destaca que, devido à presença dessas munições, a maioria dos agricultores não pode realizar suas colheitas no verão boreal e terão dificuldades para trabalhar a terra no inverno.

“Este estudo reflete a realidade no terreno”, disse à IPS Justin Brady, do Departamento de Operações de Manutenção de Paz da ONU, que acompanha de perto a situação no sul do Líbano. Brady disse que as Nações Unidas, em colaboração com várias organizações não-governamentais realiza operações de remoção de minas terrestres no sul do território libanês desde setembro, e já removeu mais de 45 mil explosivos de fragmentação. “Poderemos encontrar um milhão” desses artefatos, acrescentou. Alarmados pela devastação causada na população e no meio ambiente do sul do Líbano, Landmine Action e outros grupos da sociedade civil lançaram uma campanha para proibir esse tipo de armas.

A pressão da sociedade civil já conseguiu a proibição das bombas de fragmentação por parte da Bélgica em fevereiro de 2006, e agora realiza campanha semelhante na Alemanha, Áustria, França, Holanda e Noruega. Vários grupos também exortaram a Grã-Bretanha a suspender imediatamente o uso dessas bombas, destruir as que tem armazenadas e apoiar a iniciativa para uma proibição mundial. Está prevista uma reunião internacional em Genebra no próximo mês para discutir o uso das bombas de fragmentação. Ativistas acreditam que vários países se defenderão argumentando que essas armas podem ser usadas de forma mais precisa. Enquanto um grande número de nações admite os problemas humanitários causados por estes explosivos, somente Bélgica e Noruega deixaram de usá-los.

Países-chave como Estados Unidos, Grã-Bretanha, Israel e Rússia afirmam que o uso de bombas de fragmentação é legal. Ativistas respondem que, se assim for, diante do dano freqüente que causam na população civil, do qual o Líbano é apenas o exemplo mais recente, então a lei internacional é defeituosa. “A afirmação de que estas armas podem ser usadas de uma forma mais precisa é uma mentira. A evidência são as casas e as plantações de oliveiras destruídas no sul do Líbano”, afirmou o diretor da Landmine Action, Simon Conway. “Mulheres, meninas e meninos morrem diariamente ou ficam feridos quanto tentam remover os escombros de suas casas destruídas por bombas de fragmentação que não explodiram quando deveriam. Se estes explosivos fossem outro tipo de produto, já teriam sido retirados do mercado. Devem ser proibidos”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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