Mulheres: Ativistas são perseguidos no Paquistão

Peshwar, Paquistão, 07/10/2006 – Como conseqüência de acusações e ataques de grupos islâmicos, organizações não-governamentais que trabalhavam com mulheres no norte do Paquistão foram obrigadas a fechar e deslocar seu pessoal para fora da província Fronteira Noroeste. Uma das primeiras a sair foi Khwendo Kor (Lar de Irmãs, no idioma local pashto), uma organização que busca melhorar a posição das mulheres instalando escolas dentro da comunidade. “Depois do ataque ao nosso veículo, em junho de 2004, na vizinha Bannu, em que a professora Busrha ficou ferida, deixamos de atuar” nessa província fronteiriça com o Afeganistão, disse Maryam Bibi, diretora da entidade.

Também em junho passado duas professoras do projeto de orientação profissional financiado pelo Banco de Desenvolvimento da Ásia foram mortas a tiros perto da sede da área das tribos Oraksai. Nesse atentado também ficaram feridos dois filhos de uma das professoras. “Acredita-se que o ataque foi cometido por simpatizantes do movimento (islâmico) Talibã (no governo afegão entre 1996 e 2001), que rejeita a presença de ONGs nas zonas tribais”, disse à IPS um funcionário da Administração Federal de Áreas Tribais do Paquistão (AFAT).

As mulheres assassinadas eram instrutoras de professoras contratadas pelo Projeto para o Desenvolvimento da Área de Barani, destinado a comunidades rurais pobres, especialmente às mulheres, que vivem nas zonas chuvosas da província da Fronteira Noroeste. Investigações preliminares sobre os assassinatos indicam que os atacantes entraram sigilosamente no edifício durante a noite e abriram fogo contra Salma Bibi, Syeda Bibi, sua filha de 10 anos e o filho de dois anos e meio, enquanto dormiam. Várias mulheres de grupos da sociedade civil do bairro de Mansehra, cidade da mesma província, renunciaram após convocação das mesquitas para que antes do final de julho as empregadas mulheres fossem demitidas ou enviadas para fora da área.

“Nada aconteceu desde a data-limite, mas ninguém sabe quando atacarão”, disse um ativista que não quis se identificar. O último motivo que provocou a ira dos clérigos foi uma apresentação musical em Mansehra, organizada por uma entidade em seu próprio escritório, perto de uma mesquita. As ONGs são freqüentemente acusadas de serem “agentes do Ocidente” e de “difundir vulgaridade e destruir a religião”, disse um ativista que faz trabalho de reabilitação nas zonas sísmicas da província. As autoridades locais e os meios de comunicação atiçaram ainda mais as chamas.

O ministro-chefe da província, Akram Khan Durrani, garantiu que será dada proteção às ONGs que trabalham com “sinceridade”, enquanto as que “promovem a cultural ocidental” não podem ser toleradas. “Damos as boas-vindas às ONGs, mas somente às que se dedicam a ajudar a sociedade”, afirmou. Estima-se que existem três mil organizações não-governamentais nessa jurisdição territorial. Os comitês de coordenação e a política solicitaram a elas que respeitem a cultura local e seus valores. Um jornalista local e um pesquisador da Universidade de Peshawar disseram à IPS que as ONGs “fazem impensadas intervenções que as colocam em apuros”.

Foram registradas outras vítimas. Zubaida Begum era uma professora aposentada que servia como administradora do centro de documentação da Fundação Aurat, na localidade de Upper Dir. Além disso, havia sido eleita membro do conselho sindical e de segurança pública de Darora, na Fronteira Noroeste, sendo também uma trabalhadora incansável pelos direitos das mulheres. Talvez, tenha sido sua decisão de chegar a ser governante local que enfureceu seus familiares e levou ao seu brutal assassinato em julho de 2005, junto com sua filha de 19 anos, Shumaila Shah. Os assassinos foram liderados pelo sobrinho de seu falecido marido.

O irmão da conselheira assassinada, o advogado Mian Pervez Yousuf, jurou lutar até que se faça justiça. “É uma prática os parentes e amigos doarem dinheiro para isso (matar para salvar a honra da família)”, afirmou a respeito da morte de sua irmã e sobrinha. Agora, a vida de Yousuf está em perigo. “Não há segurança. Morrerei, mas terei feito o melhor para que a justiça seja feita”, afirmou. A falta de segurança também obrigou agências da Organização das Nações Unidas a suspenderem atividades nas localidades de Bannu, Tank, Dera Ismail Khan e Lakky Marwat. A impossibilidade de contar com proteção também levou à sua saída das áreas tribais do norte e sul de Waziristão.

Taimur Ahma Shah, chefe de imprensa da Comissão Nacional de Desenvolvimento Humano do Paquistão, disse que seu escritório foi fechado na área tribal de Bajaur e na localidade de Bannu, depois de ter sido incendiada. “A lista das tragédias com mulheres é muito longa e dolorosa”, disse Uzma Gilani da Fundação Aurat, dedicada a dar ajuda humanitária às mulheres em todo o Paquistão. “As pessoas estão impactadas pela declaração do presidente Pervez Musharraf, feita em Nova York no dia 14 de setembro de 2004, segundo a qual a violação de mulheres se convertera em um negócio em seu país e que estas se deixam violar para ficarem ricas e, assim, conseguirem vistos para o Canadá, afirmou, sarcasticamente, Yasmin Begum, da ONG Shirkat Gah.

O comentário de Musharraf causou uma confusão desagradável no Paquistão e fora do país, quanto à decisão do governo em não permitir que ativistas pelos direitos das mulheres, que foram violadas por ordem de um conselho local na província da Fronteira Noroeste, viajassem aos Estados Unidos e ao Canadá no ano passado. Em março, Lakshan Bibi, que dirige o projeto Sobrevivência Indígena de Kalahs, no vale de Chitral, na mesma zona, foi seqüestrada sob ameaça de arma de fogo, sendo libertada depois da intervenção de um membro da assembléia nacional da província. Mesmo assim, tiveram de pagar cerca de US$ 20 mil. “Peço proteção ao governo da província. Minha família está muito assustada depois do seqüestro”, disse Bibi à IPS. (IPS/Envolverde)

Ashfaq Yusufzai

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