Tóquio, 09/10/2006 – Os simpatizantes de Shinzo Abe, eleito na semana passada primeiro-ministro do Japão e líder do governante Partido Liberal Democrático, se preparam para aplaudir cada passo que este político conservador der rumo à hegemonia de seu país na Ásia. “Prometo trabalhar com todos vocês para a criação de uma nova e formosa nação”, disse Abe aos seus correligionários depois de eleito, na quarta-feira à noite. Nesta terça-feira se consagrará com o primeiro-ministro mais jovem da história do Japão: na quinta-feira passada completou 52 anos. Em seu livro “Para uma formosa nação”, publicado em julho, Abe considera necessária uma reforma da Constituição aprovada depois da derrota na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e imposta pela potência ocupante, os Estados Unidos.
Paradoxalmente, Abe, como Koizumi, pretende a liberação nacional mediante a reforma, mas, ao mesmo tempo, afiançando a aliança política e de defesa entre Tóquio e Washington. A carta política aprovada em 1947 não desestimula o patriotismo, segundo grupos conservadores. Mas, seus críticos advertem que uma reforma reavivaria o ultranacionalismo que levou à agressão contra países vizinhos na guerra. Analistas atribuem a polarização das posições à atual crise política, iniciada com a vigorosa campanha pela reforma lançada em abril de 2001 pelo ainda hoje popular primeiro-ministro Junichiro Koizumi, que ocupou o cargo por cinco anos e meio.
A reforma constitucional em questão permitiria a atividade militar do Japão no exterior, medida que lhe permitiria obter um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com poder de veto. O país renunciou ao uso da força em conflitos com o artigo 9 da Constituição de 1947. Apesar dessa limitação constitucional. O Japão participa de missões internacionais de paz e enviou tropas ao Iraque. A revisão do artigo 9 causa polêmicas entre os japoneses. A norma proíbe o Japão de ter um exercito, embora isto tenha sido reinterpretado para permitir a formação das Forças de Autodefesa. Para pode enviar tropas ao Iraque, a pedido de Washington, foi necessário aprovar uma lei especial.
Koizumi propiciou um Programa Nacional de Defesa que aponta China e Coréia do Norte como ameaças à sua segurança nacional e propõe organizar tropas com uma “capacidade multifuncional e flexível” para enfrentar novos problemas, como as ameaças terroristas e os ataques com mísseis. Além disso, aumentou o pessoal de suas Forças de Autodefesa de 145 mil para 148 mil homens e incentivou o desenvolvimento de um amplo programa conjunto de mísseis com os Estados Unidos. “Abe assume com um Japão na encruzilhada depois das reformas de Koizumi, que tiveram conseqüências de grande alcance em matéria econômica e social”, disse o professor Koichi Nakano, cientista político da Universidade Sophia, de Tóquio.
Para Nakano, a prova de fogo para Abe será encontrar soluções para desemprego na casa dos 5%, elevada dívida pública, crescente brecha social que exige melhorias no sistema de bem-estar social, e envelhecimento da população, que desacelera o crescimento econômico. Uma suavização da brecha social em um país como o Japão, no qual o crescimento econômico é considerado um meio para a igualdade social, é uma grande prioridade para o público, segundo uma pesquisa divulgada no mês passado pelo jornal Asahi. Quanto à política externa, Abe terá muito trabalho. Uma de suas tarefas mais urgentes será melhorar o vínculo com a China, após despertar dos fantasmas da Segunda Guerra Mundial com as visitas de Koizumi ao santuário de Yasukuni, onde se homenageia heróis japoneses que chineses e sul-coreanos consideram criminosos.
Esses atos deixaram tenso o vínculo entre Tóquio e esses dois países. Mas, Abe, que visitou Yasukuni em abril e é neto do ministro japonês da época da guerra, Nubusuke Kishi, nesse sentido seguirá o caminho traçado por Koisumi, segundo o jornalista Yasushi Kawasaki. “Creio que a vitória de Abe coloca o Japão em um caminho escorregadio e perigoso”, disse à IPS. O discurso nacionalista do novo primeiro-ministro poderia incentivar os preconceitos contra a China, segundo o jornalista, que recordou que Abe manteve silêncio sobre suas futuras políticas.
Abe foi o principal promotor das sanções econômicas impostas terça-feira pelo Japão à Coréia do Norte. O futuro chefe de governo conduziu as negociações com o regime de Kim Jong II sobre a libertação de japoneses seqüestrados nos anos 60 e 70, um protagonismo que aumentou sua popularidade. Quanto às visitas a Yasukuni no futuro, manteve silêncio, estratégia que, segundo seus simpatizantes, indica um pragmatismo que pode levar a uma melhoria das relações com a China ao mesmo tempo em que mantém sua ótica conservadora e nacionalista. “Abe não é um político de linha dura, sendo bastante flexível”, disse o jornalista Takao Toshikawa, diretor da revista política Inside Line e amigo do líder conservador.
Toshikawa prevê que o próximo primeiro-ministro promoverá em breve uma cúpula sino-japonesa e uma reunião de altos funcionários em novembro, na cidade vietnamita de Hanói. A eleição de Abe é modelo do estilo tradicional do Partido Liberal Democrata, que se estrutura no equilíbrio de poderosas facções, segundo o analista político Gerri Curtis, da Universidade de Columbia. A atenção se concentrará, agora, na ação pessoal de Abe, uma figura nova na arena pública japonesa, o que implica no risco de “recorrer ao nacionalismo para manter sua popularidade, quando suas políticas falharem”, afirmou Curtis.
Abe pode aumentar ainda mais a tensão na Ásia oriental caso se negue a admitir a ascensão da China e continuar apostando no fortalecimento da aliança entre Japão e Estados Unidos, disse Rieko Inoue, a porta-voz do não-governamental Centro de Recursos Ásia-Pacífico. Isso impediria o desenvolvimento da cooperação regional necessária para atacar problemas como a chuva ácida, alertou Inoue. “O futuro é tenebroso”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

