Madri, 17/10/2006 – Milhões de pessoas morrem de fome a cada ano no mundo, não por falta de alimentos, mas por sofrerem injustiça social e exclusão política e econômica, alertaram organizações não-governamentais nesta segunda-feira no lançamento da campanha “Direito à alimentação. Urgente”. A campanha teve seu ponto de partida no contexto da celebração do Dia Mundial da Alimentação, criado em 1979 pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) em homenagem à criação dessa agência, em 16 de outubro de 1945.
A FAO lançou este ano o lema “Investir na agricultura para conseguir a segurança alimentar”, mas as organizações não-governamentais discordam, pois entendem que o problema não está em um déficit de produção de alimentos, mas na injustiça que existe no acesso e consumo. Theo Oberhuber, coordenadora-geral da organização não-governamental Ecologistas em Ação (EEA), disse à IPS que a quantidade de alimentos produzida no mundo permite que ninguém passe fome. Mas acrescentou, há duas questões que impedem que isso aconteça. A primeira é que grande parte dos alimentos, tanto agrícolas quanto procedentes de mares e rios, são destinados a alimentar o gado, “cuja carne e subprodutos são consumidos principalmente nos países do Norte”. A segunda é a injustiça social que faz com que a população de muitos países careçam de meios para comprar alimentos, “mesmo os de menor qualidade”.
Olivier Longué, diretor-geral do grupo Ação Contra a Fome, deu exemplos à IPS dessa alimentação de menor qualidade. A maioria dos habitantes de Malawi e da Guatemala alimentam-se basicamente com milho, já nas Filipinas, além do milho incluem batata e banana, afirmou. Por essa razão, acrescentou o ativista, as mulheres de Malawi têm uma expectativa de vida de apenas 41 anos, “quase a metade da registrada na Noruega, um país de alimentação mais equilibrada, abundante e saudável onde essa expectativa é de 77 anos”.
A Ação Contra a Fome divulgou um documento informando que a cada quatro segundos morre no mundo uma pessoa por uma doença relacionada com a fome, que quase um bilhão de pessoas passam fome e que desse total sete em cada dez são mulheres e crianças. O documento destaca, ainda, que anualmente seis milhões de crianças morrem de fome, que este flagelo é responsável pela metade das mortes de menores de cinco anos e que muitos que se salvam sofrem deficiências pelo resto de suas vidas.
As organizações não-governamentais Engenharia Sem Fronteiras, Prosalus, Cáritas e Veterinários Sem Fronteiras, promotoras da Campanha “Direito à Alimentação. Urgente”, apresentaram nesta segunda-feira um DVD no qual afirmam que não se pode conseguir a segurança alimentar sem apoiar o desenvolvimento agrícola. Isso porque – acrescentam – estimativas da FAO indicam que mais de 70% das pessoas que sofrem fome vivem em zonas rurais, onde a agricultura deveria proporcionar seu sustento, e três quartos dos subnutridos vivem e trabalham no meio rural, recebendo pagamentos baixíssimos.
A campanha pretende fazer com que os governos a garantam o reconhecimento da alimentação como um direito humano fundamental e que sejam revistas as políticas e os acordos internacionais a respeito, além de impulsionar o desenvolvimento agrícola em um contexto de sustentabilidade ambiental. Mas a organização EEA questiona a programação da FAO, que pede “investimento na agricultura para conseguir a segurança alimentar”, porque nos últimos anos se assiste a um processo de desenvolvimento e concentração da agroindústria. A EEA ressalta que “mais de 70% do mercado mundial de pesticidas estão em mãos de seis gigantes consórcios agroquímicos e prevê-se que dentro de alguns anos restarão somente três”.
A organização acrescenta que essas companhias dominam grande parte das vendas mundiais de sementes, em um lucrativo mercado cativo, com a venda de variedades geneticamente modificadas resistentes aos seus próprios herbicidas. Segundo este grupo ecologista, mais de 80% dos cultivos transgênicos do mundo são variedades resistentes a um herbicida e o objetivo das grandes multinacionais é desenvolver uma segunda geração de sementes manipuladas, de modo que o produto que venderem necessitaria da propriedade de produzir sementes. Este tipo de produto, que já existe, obriga os agricultores a comprar sementes todos os anos.
Por outro lado – prossegue a EEA – as 10 maiores empresas do setor de alimentação controlam um quarto do negocio da bebida e dos alimentos elaborados no mundo, e 10 grandes redes de distribuição manejam um quarto das vendas de alimentos. Como exemplo do que essa política produz, a organização conclui destacando que “na Espanha o agricultor, em muitos casos, só recebe 25% do preço de venda ao público de um produto. Se isso acontece um desenvolvido país europeu, não é difícil pensar o que ocorre nas nações do Sul, onde a população rural vive em condições sub-humanas. (IPS/Envolverde)

