Bálcãs: União internacional contra o crime organizado

Belgrado, 20/10/2006 – Representantes de sete países da Europa Oriental chegaram a um acordo para levar adiante uma luta conjunta contra o terrorismo e o crime organizado. Os líderes da região também acreditam que o convênio os aproximará da União Européia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), embora especialistas alertem que a luta contra o crime organizado bem arraigado não será fácil de ganhar. Os líderes da Albânia, Bósnia-Herzegovina, Croácia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Romênia decidiram esta semana, no centro turístico sérvio de Karadjordjevo, sincronizar reformas jurídicas, mecanismos de controle, serviços de segurança e de aduana. O acordo também inclui reuniões anuais dos ministros da Justiça e do Interior para rever as medidas implementadas e fomentar uma cooperação maior.

Enquanto a Romênia se incorporará à UE em janeiro, a Croácia espera ser admitida na próxima fase de ampliação do bloco. Os outros países estão em negociações para seu ingresso. “O objetivo que se propuseram os sete líderes é nobre", disse à IPS o especialista em assuntos criminais Milos Vasic. “Mas demorarão anos para conseguir seu objetivo, considerando que os criminosos da região há cinco anos criaram sua própria UE”, acrescentou. Vasic e outros especialistas indicam que desde o início da década de 90 houve condições favoráveis para o florescimento do crime organizado nesta região.

Nesses anos aconteceram “a queda do sistema comunista na Romênia e na Bulgária e a anarquia pela guerra depois da qual se desintegrou a antiga Iugoslávia”, lembrou à IPS o especialista em delitos de fronteira Marko Nicovic. Então, a Iugoslávia estava integrada pela Bósnia-Herzegovina, Croácia e Sérvia. O tráfico humano e o de drogas formam as principais atividades do crime organizado. Considera-se que as fronteiras porosas e a corrupção maciça nos organismos de controle são responsáveis pela situação. Além disso, as máfias trabalham em conjunto apesar das animosidades étnicas, graças aos enormes benefícios que obtêm com suas atividades.

“As fronteiras são maior obstáculo para a polícia do que para os criminosos”, disse Nicovica. Embora a crescente cooperação entre as forças policiais da região tenha obtido resultados, afirmou. Estima-se que há cinco anos o tráfico de pessoas afetou cerca de 200 mil nos Bálcãs, mas esse número caiu significativamente desde então. O tráfico de drogas é agora considerado a maior atividade do crime organizado. As máfias sérvia e búlgara teriam estabelecido estreitos laços de colaboração, segundo várias versões de imprensa, do mesmo modo que a primeira com a de origem albanesa na província de Kosovo, zona administrada pela Organização das Nações Unidas.

Segundo a Interpol, os ganhos que o tráfico de drogas deixa por ano, somente em Kosovo, chega a mais de US$ 100 milhões. As melhores investigações feitas pela polícia permitem apreender cocaína diariamente na Sérvia. Por exemplo, foi informado que um cidadão peruana que ingeriu 72 papelotes de cocaína e teve de ser operado em um hospital de Belgrado após se sentir mal no aeroporto. Posteriormente, foi levado para a Itália. Um jornalista sérvio foi detido com pouco mais de três quilos de cocaína que traficava da Alemanha para sua distribuição no sul do país.

“A Sérvia enfrenta uma dura tarefa porque o crime organizado já lhe acertou um duro golpe”, disse Vasic. “O primeiro-ministro, Zoran Djindjic, foi assassinado pela máfia, mostrando, assim, seu poder de mando neste país há quase uma década”. Djindjic, que implementou políticas reformistas, foi assassinado em março de 2003 por causa de seu programa para combater o crime organizado. Os círculos mafiosos são o legado da guerra dos anos 90, quando o regime do ex-presidente Slobodan Milosevic (1989-2000) converteu criminosos em “heróis de guerra” em defesa dos sérvios na antiga Iugoslávia. Mas a região tem outro motivo de preocupação, que é o terrorismo.

Bósnia-Herzegovina continua tentando lidar com combatentes islâmicos que apareceram para defender os muçulmanos locais na guerra entre 1992 e 1995. Naquele momento chegaram de Argel, Afeganistão, Irã ou Turquia. Muitos se casaram com jovens bósnias e obtiveram a cidadania. A Bósnia, pressionada pela comunidade internacional, começou no inicio do ano a rever os casos de aproximadamente 1,5 mil pessoas de origem estrangeiras que tinham cidadania, e expulsou várias. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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