Cingapura, 09/10/2006 – A destinação de recursos insuficientes e as condições econômicas impostas pelo Banco Mundial a devedores de uma dívida insustentável impedem numerosos países de alcançarem as metas de desenvolvimento estabelecidas pela comunidade internacional. Está é uma das conclusões do Informe 2006 da rede Sustainability Watch, apresentado em Cingapura durante a conferência anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. O estudo adverte que, além disso, os projetos de mineração e energia financiados pelo Banco não atendem aos critérios necessários para proteger o meio ambiente e melhorar as condições de vida dos mais pobres.
O informe divulgado por está rede de organizações não-governamentais de 15 países do Sul, enfatiza que o desenvolvimento sustentável é crucial para três bilhões de pessoas – quase a metade da população mundial – que subsistem com uma renda inferior a dois dólares por dia. Os especialistas prevêem que esse número aumentará em cem milhões até 2015, a menos que sejam implementados e melhorados os compromissos contra a pobreza acertados pela comunidade internacional. O fator mais crítico é o contexto de desenvolvimento predominante, voltado para o mercado, que promove a liberalização comercial e as privatizações, afirmou Roy Cabonegro, representante na Ásia da Sustainability Watch. Este contexto não dá a suficiente atenção aos problemas ambientais, especialmente o manejo do território e o uso de recursos naturais, segundo a organização.
Os governos débeis não conseguem produzir suficiente desenvolvimento econômico e serviços sociais para acompanhar o crescimento da população, o qual reduz a certa reticência desafiar os regimes de liberalização comercial injusta, acrescenta o documento. As restrições institucionais derivaram em falhas estratégicas quanto à supervisão das interações entre pobreza, meio ambiente, governabilidade e participação da sociedade civil, diz o informe. Por outro lado, muitos governos destinaram recursos inadequados para melhorar o desenvolvimento sustentável, enquanto os condicionamentos de uma divida insustentável restringiram sua capacidade para atingir as metas. “Todos nossos índices ambientais caem, enquanto o crescimento econômico aumenta”, disse Cabonegro à IPS.
O chefe científico do Banco Mundial, Robert Watson, disse concordar, em boa parte, com o informe da Sustainability Watch, mas considerou muito difícil implementar suas recomendações. Para isso, deve-se convencer ministros de finanças e outras áreas, o que, segundo Watson, é mais trabalhoso do que convencer o setor privado. “Realmente devemos destacar a importância do vínculo entre pobreza, economia e meio ambiente”, acrescentou. Os fatores que determinam perda de biodiversidade devem ser reduzidos, acrescentou. “Não estou convencido de que possamos cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da Organização das Nações Unidas, mesmo se reunirmos vontade política”, disse Watson.
Os Objetivos do Milênio foram estabelecidos em setembro de 2000 durante sessão especial, e por unanimidade, da Assembléia Geral da ONU, na presença de numerosos chefes de Estado e de governo. As oito metas estabelecem objetivos claros para reduzir a pobreza, a fome, as doenças, o analfabetismo, a contaminação ambiental e a discriminação das mulheres. Entre os objetivos com prazo estabelecido para 2015 figuram garantir educação universal para meninos e meninas e reduzir pela metade, em relação a 1990, a população de pobres, famintos e sem acesso à água potável nem meios para custeá-la.
Outros objetivos estabelecidos em 2000 pelos 189 países que na época integravam a ONU são promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o HIV/aids, a malária e outras doenças e garantir a sustentabilidade ambiental. O Comitê de Desenvolvimento do Banco se congratulou por seus avanços em desenvolver o Contexto de Pesquisas para Energia Limpa, em resposta ao pedido da cúpula do Grupo dos Oito em Gleneagles, Escócia. Este informe recomenda destinar US$ dez bilhões para o desenvolvimento de fontes convencionais de energia.
O comitê assegurou ter encontrado amplo apoio para promover o acesso dos pobres à energia, a transição para uma energia “de baixo carbono” e na ajuda aos países em desenvolvimento com vistas à adaptação à mudança climática. Mas em lugar de combater a mudança no clima, o Contexto promove a construção de usinas à carvão, centrais nucleares e grandes projetos independentes. “Ao continuar emprestando dinheiro para projetos de combustíveis fósseis e represas, o Banco perdeu o duplo dividendo, social e ambiental, da energia renovável”, disse Peter Bosshard, da Rede Integral de Rios, ao apresentar o informe “Como o contexto energético do Banco Mundial vende o clima”. (IPS/Envolverde).

