Berlim, 09/10/2006 – Imagine as nações mais pobres do mundo superando suas dificuldades econômicas graças às exportações tradicionais. Uma grande visão, mas pode se converter em realidade? “Não dê o peixe, ensine a pescar”, disse Patricia Francis, diretora-executiva do International Trade Centre (ITC), com sede em Genebra, lembrando uma simples formula que vem sendo manejada nas últimas três décadas. Embora bem conhecida, está idéia não é colocada em prática, disse Francis à IPS. Ensinar os pobres a pescar é dar-lhes assistência técnica que os ajude a se converter em parte da economia global, afirmou.
“Muitos países em desenvolvimento dependem da ajuda para o comércio para aproveitar as oportunidades oferecidas pela liberalização, disse a ministra de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, Heidemarie Wieczorek-Zeul. A ministra abriu a conferência “Fórum executivo sobre estratégias nacionais de exportação”, na qual prometeu continuar cooperando com US$ 5,1 milhões nos próximos dois anos para o Programa Fundo Global Fiduciário do ITC. A Alemanha é um dos principais doadores em assistência ao desenvolvimento vinculada com o comércio, sobretudo na cooperação com o ITC, a agência de cooperação técnica da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e da Organizaçao Mundial do Comércio (OMC) para os aspectos de negócios no desenvolvimento global do comércio. Para promover o comércio em benefício dos países pobres, a União Européia aumentará para US$ 2,5 bilhões sua ajuda ao comércio até 2010, informou a ministra.
“Atraindo os pobres para o processo de exportação: vínculos e implicações estratégicas” foi o tema das discussões na conferência, realizada entre 27 e 30 de setembro em Berlim, com 160 delegados de 35 países, agências da ONU e organizações internacionais. Ministros e outros funcionários de governos de países em desenvolvimento como Bolívia, Camboja, Etiópia, Índia e Nepal participaram do encontro, bem como representantes do Banco Mundial, do Banco Asiático para o Desenvolvimento, de organizações não-governamentais como a Oxfam e de nações do Norte industrializado como Alemanha, Noruega e Suécia.
A presença de delegados de câmaras de comércio, especialistas em exportações e pequenos e médios empresários deram uma dimensão pragmática às discussões. “Não vejo as exportações como uma panacéia para acabar com a pobreza da noite para o dia, mas creio que aumentando as exportações para países em desenvolvimento ou estimulando o comércio Sul-Sul podemos reduzi-la”, afirmou Francis, ex-presidente da Corporação de Promoções da Jamaica. Existem muitos exemplos. No Brasil, o turismo se converteu em uma nova via de desenvolvimento para oito comunidades pobres com mais de sete mil membros, que trabalham em hotéis e vendem alimento, roupas e artesanato para os visitantes.
Francis também citou o sucesso da outrora moribunda indústria da seda tradicional no Camboja, que nos últimos quatro anos se converteu em um negócio de US$ 4 milhões ao ano. Dentro de cinco anos, as exportações de seda cambojana chegarão aos US$ 10 milhões. Vários milhares de produtores de seda conseguiram sair da pobreza. As exportações de espécies orgânicas indianas também estão prosperando, disseram participantes do encontro.
Segundo a Unctad, o comércio mundial de bens e serviços cresceu de US$ 2,3 trilhões, em 1980, para mais de US$ 2,3 trilhões no ano passado. Mas os pobres ainda não se beneficiam. Os 50 países menos desenvolvidos, onde mora a quinta parte da população mundial, não receberam os benefícios desse crescimento. Em 2005, sua parte no comércio era de 0,6%, contra 0,7% em 1980. Mesmo nos países mais avançados, a brecha aumente entre os que têm e os que não têm. (IPS/Envolverde)

