Washington, 09/10/2006 – A quantidade de “Estados frágeis” vulneráveis ao caos, conflitos e às epidemias e caldo de cultivo de terroristas, aumentou de 17 para 26 em apenas três anos, e um dos responsáveis é o Banco Mundial segundo o Grupo de Avaliação Independente, pertencente à própria instituição. Seu informe, divulgado na quinta-feira é a constatação de um fracasso desse organismo multilateral, bem como de governos do Norte industrial e de outros doadores de assistência ao desenvolvimento, adverte o documento. Às vésperas das reuniões conjuntas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, esta semana, em Cingapura, o GAI identificou Ásia e África como os continentes mais atrasados.
Entre os Estados frágeis, o Grupo identificou Afeganistão, Angola, Birmânia, República Centro-africana, Haiti, Ilhas Salomão, Libéria, Palestina, Somália, Sudão, Iêmen e Zimbábue. “Deixar de lado os Estados frágeis, onde vivem quase 500 milhões de pessoas, metade delas na pobreza extrema, é nos arriscarmos a piorar sua miséria, o que, por sua vez, alimenta a instabilidade regional e global”, disse o diretor-geral do GAI, Vinod Thomas. “A comunidade de doadores e o Banco Mundial devem usar melhor seus recursos para trabalhar com eles na difícil e prolongada transição da volatilidade e dos conflitos para a estabilidade e a paz”, afirmou.
O presidente norte-americano, George W. Bush, líder do país mais poderosos do mundo e com grande domínio sobre a maioria das instituições financeiras internacionais, comprometeu seu governo com a propagação da liberdade e da democracia ao iniciar, no ano passado, seu segundo mandato. O presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, segundo em comando no Pentágono no primeiro mandato de Bush, compartilha da pretensão de exportar a democracia e promove dentro da instituição medidas contra a corrupção e em favor de boas práticas de governança desde que assumiu o cargo em 2005.
O termo “Estado frágil” descreve nações com conflitos internos crônicos ou que se debatem em transições para a paz. Com freqüência, sua instabilidade fornece abrigo seguro a organizações terroristas e traficantes de drogas e armas, segundo especialistas em desenvolvimento. Estas nações sofrem uma generalizada falta de segurança, corrupção, rupturas do estado de direito e limitados recursos oficiais para o desenvolvimento. O informe indica, por exemplo, que o Afeganistão, um dos países que mais ajuda recebe dos Estados Unidos e da comunidade internacional desde a invasão de 2001 que provocou a queda do regime islâmico do movimento Talibã, embarcou em várias reformas simultâneas sem priorizá-las, o que originou um caos de leis e normas comumente contraditórias.
“A visão dos afegãos mais de três anos depois de iniciado o programa de reconstrução é a de que a melhoria em suas vidas é apenas mínima”, diz o documento intitulado “Compromisso com os Estados frágeis: Uma revisão do GAI ao apoio do Banco Mundial a países de baixa renda sob tensão”. Em Cabul “muitos se queixam da persistente falta de energia elétrica, das más condições das estradas e do desemprego”, diz o estudo. O Grupo também acende a luz vermelha para o modo como os doadores no Afeganistão desembolsam os fundos prometidos. Muitos não cumpriram com muitos de seus anunciados compromissos com a ajuda e grande parte do que foi entregue incluem altas comissões e salários para consultores e empregados de organizações não-governamentais, afirmou.
Agora, o Talibã parece estar ressurgindo, com uma escalada de ataques contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e informes sobre grupos conservadores que aumentam seu controle e influência em algumas áreas do país. O documento, de 259 páginas, que informa diretamente à junta executiva do Banco Mundial, indica que a instituição não controlou o destino de empréstimos no valor de US$ 4,1 milhões aos Estados frágeis. Os bons resultados de investimentos na República Centro-africana e no Haiti agora estão em perigo devido à inadequada atenção à crise orçamentária do governo, no caso africano, e à crescente insegurança, no segundo caso.
O estudo pede urgência ao Banco Mundial e a outros doadores internacionais par que não se retirem desses antes de garantirem que suas necessidades básicas estejam cobertas e que seja consolidada a capacidade de suas instituições. “Em nosso mundo globalizado nenhum país pode se isolar. Como vimos, a instabilidade em uma nação pode afetar facilmente uma região inteira”, disse o diretor do GAI, Ajay Chibber. “Uma ação multilateral coordenada e sustentada, com uma visão unificada para reduzir as ameaças iminentes dos países frágeis, é hoje mais importante do que nunca. A construção de nações, se é barata, não funciona”, concluiu Chibber. (IPS/Envolverde)

