Washington, 09/10/2006 – Quatrocentos especialistas em política externa dos dois grandes partidos políticos dos Estados Unidos sugeriram ao governo uma “grande estratégia” para reformar o sistema multilateral internacional e abortar as múltiplas ameaças que este país enfrenta. Um informe coordenado durante dois anos por Anne-Marie Slaughter e John Ikenberry, ambos da Universidade de Princeton, sugere que a política exterior depois do 11 de setembro de 2001 foi muito simplista, e, inclusive, contraproducente para enfrentar os desafios do século XXI. A linha do governo deveria depender menos do poder militar e mais de mecanismos diplomáticos, segundo o estudo de 90 páginas divulgado nesta quarta-feira e realizado no contexto do Projeto Princeton sobre Segurança Nacional.
Washington também deveria apelar menos para o uso unilateral da força e mais para a cooperação com outros Estados democráticos; menos à democratização imposta com eleições aceleradas e mais ao que o relatório chama de “governos populares, responsáveis e atentos aos direitos humanos”. O estudo também propõe uma “cirurgia radical” nas instituições internacionais criadas depois da Segunda Guerra Mundial, incluindo um aumento dos integrantes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Sugere ainda a fundação de uma “Convenção de Democracias” como fórum alternativo de ação coletiva e que inclua o uso da força
Em matérias mais específicas, os especialistas propuseram a Washington “adotar todas as iniciativas possíveis” para alcançar uma solução para o conflito entre Israel e Palestina que contemple a convivência de dois Estados, e oferecer ao Irã garantias de segurança em lugar de impedir que desenvolva armas nucleares. Além disso, inclinaram-se por não “bloquear ou conter” a China, mas ao contrário, “ajudá-la a concretizar suas ambições legítimas dentro da atual ordem internacional”. Numerosos pesos pesados da elite política norte-americana participaram da elaboração do documento “Forjando um mundo de liberdade sob a lei: Segurança Nacional dos Estados Unidos no século XXI”, coordenado por Ikenberry e Slaughter, diretora da Escola Woodrow Wilson de Assuntos Públicos e Internacionais de Princeton.
Entre os co-presidentes honorários do projeto figuram George Shultz, ex-secretário de Estado no governo do republicano Ronald Reagan, e Anthony Lake, conselheiro de segurança nacional do ex-presidente democrata Bill Clinton. Os 13 membros do comitê permanente do Projeto e seus sete grupos de trabalho também contaram com especialistas dos dois grandes partidos. Entre os patrocinadores institucionais estão importantes centros de estudo que vão do direitista Brookings Institution ao esquerdista Hoover Institution, passando pelo centrista Fundo Carnegie para a Paz Internacional.
O informe parece inclinar para o consenso entre a alas “realista” do Partido Republicano e a “liberal-internacionalista” do Partido Democrata, que dominaram a política externa desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a chegada dos neoconservadores, nacionalistas e “falcões” depois de 11 de setembro de 2001. A divulgação do relatório no Capitólio, sede do Congresso norte-americano, contou com o patrocínio do centro de estudos “centrista radical” News America Foundation, e os dois principais oradores foram senadores representativos das duas escolas: o republicano e realista Chuck Hagel e o democrata e internacionalista Joseph Biden.
Nenhum deles evitou pronunciar duras críticas à condução da “guerra contra o terror” lançada em 2001 pelo governo do presidente George W. Bush. Entre os ausentes figuraram os centros acadêmicos American Enterprise Institute, neoconservador, e a Heritage Foudation, direitista, que consolidaram a base de pensamento da estratégia internacional do atual governo. Alguns poucos neoconservadores e nacionalistas agressivos, como o diretor da revista Weekly Standard, Bill Kristol, e o colunist Charles Krauthammer, do jornal The Washington Post, figuraram entre os especialistas consultados pelo Projeto Princeton.
De todo modo, o informe e suas recomendações não representam um consenso formal de todos os participantes, nem mesmo dos co-presidentes de honra, explicou Slaughter à IPS. Apesar disso, “houve acordo ao longo de todo o espectro político sobre um enfoque completo”, acrescentou. A maioria dos participantes nas consultas concorda com a maioria das análises e recomendações do estudo, afirmou a especialista de Princeton.
Washington deveria estabelecer com objetivos básicos de sua política externa, de acordo com o informe, garantir a segurança do país contra ataques hostis ou epidemias, construir uma economia mundial saudável e promover um “ambiente internacional benigno, baseado na cooperação em segurança entre as nações e na difusão da democracia liberal”. As recomendações feitas para alcançar tais objetivos contêm críticas explícitas ao governo Bush, mais com a “construção de contextos de cooperação concentrados em interesses comuns com outras nações, do que insistindo para que eles aceitem nossas prioridades”. (IPS/Envolverde)

