EUA: Uma hegemonia que se desfaz no Oriente Médio

Washington, 30/10/2006 – O 50º aniversário da crise de Suez, último estertor do colonialismo europeu no Oriente Médio, parece coincidir com o fim de meio século de hegemonia dos Estados Unidos na região. No domingo foi completado mais um aniversário da invasão de Israel em Gaza e no Sinai e do posterior avanço para o canal de Suez, operação que contou com cumplicidade européia e que foi desativada depois pelo presidente norte-americano Dwight Eisenhower. Este acontecimento histórico representou para os Estados Unidos uma demonstração de boa vontade em relação aos países árabes e inaugurou o prolongado período de seu domínio na região. Mas, agora a situação é muito diferente.

A invasão e ocupação do Iraque em 2003 infligiram sérios danos à posição de Washington no Oriente Médio. Nesse país há mais de 140 mil soldados norte-americanos. Apesar dessa presença, parecem cada vez mais inúteis os esforços para sufocar a insurgência sunita e impedir uma guerra civil de enormes dimensões entre comunidades étnicas e religiosas iraquianas. Por outro lado, o governo do presidente George W. Bush não conseguiu, por sua passividade ou por sua teimosia, reanimar o processo de paz árabe-israelense. A guerra de julho entre Israel e o partido islâmico xiita libanês Hezbollah e a deterioração da Autoridade Nacional Palestina deterioraram nessa região a imagem de influência de Washington, que se encontra em seu ponto mais baixo histórico.

“A política externa norte-americana no Oriente Médio se aproxima de uma crise muito seria”, advertiu Zbigniew Brzezinski, conselheiro de Segurança Nacional do governo de Jimmy Carter (1977-1981), em um jantar realizado na semana passada quando destacou que a crise de 1956 marcou “o início do domínio” norte-americano no Oriente Médio. “Enfrentamos a possibilidade de sermos literalmente expulsos da região”, advertiu. Somente uma grande mudança na política norte-americana, particularmente com relação ao processo de paz entre Israel e Palestina, pode reverter a tendência atual, ressaltou. Outros analistas insistem em dizer que o caráter de superpotência mundial dos Estados Unidos e sua forte dependência do petróleo do Oriente Médio asseguram sua influência na região.

Porém, a maioria dos especialistas em Washington concorda que sua capacidade para afetar acontecimentos na região caiu substancialmente. “O domínio norte-americano no Oriente Médio acabou, e uma nova era começou na história moderna da região”, escreveu Richard Haass, presidente do influente Conselho de Relações Exteriores e assessor do governo de George W. Bush, em uma análise publicada na última edição da revista Foreign Affairs. “Os Estados Unidos continuarão tendo mais influência do que qualquer outra potência, mas, reduzida, em comparação com a que tinha antes”, acrescentou. Nesta “nova era, os atores externos à região têm um impacto relativamente modesto e as forças locais levam vantagem. Mas, os atores locais que ganham poder são radicais comprometidos com a mudança do statu quo”, ressaltou.

A coincidência do surgimento deste “Novo Oriente Médio”, como Haass intitulou seu artigo, com o 50º aniversário da crise de Suez não é um dado menor. Estes destacam que, mais do que qualquer outro fato, foi o papel de Washington na crise que impulsionou sua imagem com força para a libertação e posicionou os Estados Unidos como um mediador honesto entre árabes e Israel. No dia 29 de outubro de 1965, Israel ocupou dois territórios do Egito, Gaza (hoje controlada pela ANP) e a península do Sinai. Alguns dias depois ocupou a zona do canal de Suez, recém-nacionalizado pelo governo do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (1956-1970).

De acordo com o plano secreto estabelecido antes com os governos da Grã-Bretanha e França, Israel convidou esses dois países a enviarem para a área forças de manutenção da paz. Mas, quando Nasser rejeitou essa “oferta”, de todo modo Londres e Paris invadiram. O presidente Eisenhower (1953-1961), que ignorava os planos de Israel, França e Grã-Bretanha, respondeu ameaçando “tirar do suporte” da libra britânica e, inclusive, eliminar a proteção nuclear norte-americana aos três países se não pusessem fim à operação e se comprometessem a se retirar rapidamente, o que ocorreu no começo de 1957. Para a maioria dos historiadores, a crise e a humilhação infligida às potências invasoras significou o fim do colonialismo da Europa ocidental no Oriente Médio.

Também supôs o advento da hegemonia dos Estados Unidos, que se fortaleceu com acontecimentos posteriores, especialmente depois da guerra árabe-israelense de 1973 (do Iom Kippur), dos acordos de Camp David de 1978 (que selaram a paz entre Israel e Egito) e o fim da Guerra Fria, uma década depois. “Certamente, em termos de prestígio e imagem no Oriente Médio nem é preciso dizer que Suez foi o ponto alto para os Estados Unidos”, segundo Chris Toensing, editor do Middle East Report (MER), uma publicação de Washington. “Os Estados Unidos foram vistos não apenas como um país que saiu do jugo do colonialismo, mas disposto a ajudar outros países a fazerem o mesmo”, acrescentou.

Se isso ajudou a estabelecer o “poder brando” de Washington na região, também demonstrou aos árabes que os Estados Unidos não tinham influência somente sobre Israel, mas que estavam disposto a usá-la acima das objeções desse país e do cada vez mais influente grupo interno de pressão pró-israelense. “É o fato de termos feito com que Israel se retirasse do Sinai, o que nos estabeleceu como um mediador honesto” entre Israel e os árabes, assegurou Richard Parker, ex-embaixador na Argélia, no Marrocos e no Líbano nos anos 70. “Desde o Sinai, essa sempre foi uma carta triunfal na região. “Mas, 50 anos mais tarde, tanto o poder brando dos Estados Unidos quanto seu status de mediador honesto estão em seu ponto mais baixo e, nas palavras de Toensing, “afundando ainda mais”. Desde 2002, quando os Estados Unidos consentiram na campanha militar de Israel contra a intifada (revolta popular palestina contra a ocupação), a desaprovação em relação aos Estados Unidos disparou no mundo árabe, de acordo com pesquisas da época.

Estas mostravam uma deterioração ainda maior depois da invasão do Iraque em 2003 e do escândalo de violações de direitos humanos na prisão de Abu Ghraib no ano seguinte. “Os Estados Unidos chegaram a ser vistos como a potência colonial por excelência (…) pior do que as velhas (potências européias), porque sobre elas se considerou que tinham uma agenda econômica – a extração de recursos – enquanto que os Estados Unidos também apresentava, além disso, uma agenda ideológica, segundo Toensing. Além disso, Bush não fez nenhuma pressão sobre Israel para comprometer esse país em um processo de paz com os palestinos e apoiou o Estado judeu em sua ofensiva militar e seus bombardeios no Líbano, o que destruiu a imagem de mediador honesto de Washington. “Nosso ponto forte sempre foi o fato de que éramos a única potência que podia fazer algo com os israelenses. Ainda temos essa influência, mas a chave é se estamos dispostos a usá-la”, disse Parker. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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