Washington, 09/10/2006 – O governo dos Estados Unidos acusa o Irã de se intrometer no Iraque, ameaçando a estabilidade desse país. A ironia é que Teerã poderia muito bem ser a razão principal de não ter ocorrido uma guerra sem quartel entre combatentes xiitas e soldados norte-americanos. A realidade subjacente no Iraque, e que Washington não parece captar totalmente, é que agora os Estados Unidos dependem da tolerância do Irã e dos xiitas iraquianos, seus aliados político-militares, para manter a ocupação. Três anos e meio depois da invasão do Iraque, o exercito norte-americano já não é quem tem o poder nesse país, e não conseguiu debilitar o controle que, segundo o último informe da chefia de inteligência do corpo de fuzileiros navais, têm os insurgentes sunitas sobre a vasta província ocidental de Anbar.
No entanto a principal ameaça à ocupação não é dos combatentes sunitas, mas das forças xiitas iraquianas, alinhadas com o Irã e lideradas pelo Exército Mahdi do clérigo xiita Moqtada al Sadr. As milícias xiitas agora têm o poder suficiente para obrigar o fim da ocupação norte-americana. Ficaram para trás os dias em que o exercito dos Estados Unidos podia ignorar as forças de Sadr, que enfrentaram na Najaf em abril de 2004. Na época, acreditava-se que contavam com 10 mil soldados mal treinados. Desde então, funcionários norte-americanos se negam a proporcionar estimativas da quantidade de efetivos do Exército Mahdi.
Mas o não-governamental Instituto Chatham House, de Londres, publicou no mês passado um informe que, sem dúvida, reflete a visão da inteligência britânica a respeito do Iraque, assinalando que essa força poderia estar integrada por “várias centenas de milhares de combatentes”. Mesmo se essas estimativas exageram o potencial do Exército Mahdi, refletem a sensação de que é a força político-militar mais poderosa do Iraque, devido à lealdade que tem de muitos xiitas. Essa força controla Cidade Sadr, populoso bairro xiita do leste de Bagdá que concentra a metade da população da capital iraquiana.
Mas o que talvez seja mais importante é que controla as províncias do sul, de grande predomínio xiita e, como bem sabe Sadr, isso o coloca numa posição estratégica da qual pode paralisar as forças de ocupação. Patrick Lang, ex-funcionário da Agência De Inteligência em Defesa dos Estados Unidos, explicou as razões disso em uma importante análise publicada pelo periódico Christian Science Monitor no dia 21 de julho. Um comboio de caminhões deve abastecer os soldados norte-americanos atravessando centenas de quilômetros em pleno território xiita, por isso o Exército Mahdi e seus aliados do sul podem praticar “tiro ao alvo” com eles. “Um objetivo extenso e linear, tal como um comboio de caminhões, é muito difícil de defender de grupos irregulares operando dentro e ao redor dos povoados”, explicou.
Funcionários de Washington e do governo do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, se dão conta de que Sadr é muito poderoso para ser derrotado pela força. Quando os efetivos do Iraque atacaram Cidade Sadr no mês passado, acompanhados por conselheiros norte-americanos, Maliki denunciou a operação pela televisão e prometeu: “Isso não acontecerá novamente”. Uma “coalizão de funcionários experientes” admitiu na semana passada ao jornal The Washington Post que “não há uma solução militar” para o Exército Mahdi. Mas tanto o governo quanto o exercito postado no Iraque parecem continuar acreditando que existe alguma forma de conter Sadr. Não aceitam que o clérigo xiita tenha a intenção e a capacidade de acabar com a ocupação.
O Exército Mahdi não oculta seus planos. “Se deixarmos que os norte-americanos tomem a decisão, não partirão. Ficarão. Para que os ocupantes partam, precisam fazer alguns sacrifícios, disse em uma entrevista publicada no dia 11 de agosto pelo The Washington Post o segundo de Sadr, Mustafá Uaqoubi. Os xiitas nunca perdoaram os Estados Unidos por sua “traição” quando chamaram a um levante contra o ex-presidnete iraquiano Saddam Hussein (1979-2003), depois da guerra do Golfo de 1991, e depois se mantiveram à margem quando ele ordenou o assassinato de milhares de xiitas que haviam pego em armas. Muitos deles nunca estiveram a favor da ocupação.
Wayne White, principal especialista sobre o Iraque do Escritório de Inteligência e Investigação do Departamento de Estado norte-americano, recordou que uma pesquisa feita por esse departamento pouco depois de iniciada a ocupação, e nunca revelada, mostra que uma clara maioria de xiitas já era contrária à mesma. A fúria crescente diante das atrocidades cometidas pelos soldados norte-americanos e o cada vez maior sentimento de poder da comunidade xiita alimentaram a intenção de Sadr de enfrentar as forças de ocupação dos Estados Unidos. Na última primavera boreal, essa comunidade fervia de ódio contra Washington e já professava um grande apoio à guerra contra os ocupantes.
O porta-voz do aiatolá Mohammed Taqi Moderessi disse que o título da oração de sexta-feira em Karbala foi “Morte aos Estados Unidos”, conforme citado pelo jornalista Borzou Daraghi do jornal Los Angeles Times em uma nota no dia 6 de maio. O aiatolá informou que a população se preparava para um confronto militar com os Estados Unidos, dizendo: “Os norte-americanos não partirão, a não ser pelo funeral de seus próprios filhos”.
* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005. (IPS/Envolverde)

