Washington, 09/10/2006 – O embargo que Estados Unidos e Israel impuseram à Palestina depois da vitória eleitoral do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) provocou a suspensão de pagamentos e aumento os níveis de pobreza, alerta a organização norte-americana Global Policy Network. Está entidade indica que um quarto dos trabalhadores palestinos não recebe salário há seis meses devido ao embargo financeiro imposto como castigo pela eleição do Hamas.
O Centro para os Direitos Democráticos dos Trabalhadores, instituição palestina que fez a pesquisa para a Global Policy Network, diz que o embargo causou no último trimestre uma redução do produto interno bruto de 1,7% em relação aos três meses anteriores. Mais de 154 mil funcionários da Autoridade Nacional Palestina estão sem receber salários. Sessenta e seis por cento das famílias – cerca de 2,4 milhões de pessoas – vivem na pobreza, das quais 88% moram em Gaza. O estudo mostra que a proporção de trabalhadores com salários abaixo da linha de pobreza aumentou de 50,4% do total no primeiro trimestre do ano para 51,1% no segundo, o que indica uma queda do salário real médio.
A análise de outros indicadores trabalhistas também apresenta resultados desanimadores. A renda média mensal das famílias caiu de US$ 644 para US$ 343. Portanto, a renda mensal por habitante não passa dos US$ 55. Essa quantia equivale a menos de dois dólares por dia, índice que marca o umbral da pobreza, segundo as instituições internacionais. O informe diz que a pobreza extrema cresce nos territórios palestinos, onde a renda per capita chega é menos de 8% da registrada em Israel. Os recursos econômicos das famílias palestinas se dividem de maneira desigual. Os 20% mais ricos recebem 48,5% do total da renda, enquanto os 20% mais pobres ficam com apenas 4,6%. Estados Unidos e Israel encabeçam o boicote.
Na semana passada, a União Européia anunciou que estudaria levantar as sanções, diante da possibilidade de um governo palestino de unidade com a presença de personalidades favoráveis às posições dos governos norte-americano e israelense. Mas Washington recomendou aos europeus não serem precipitados. A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, se reúne está semana em Nova York com seus colegas do Quarteto (EUA, Rússia, UE e ONU) para analisar uma resposta à instauração de um novo governo palestino.
Enquanto isso, os sofrimentos dos palestinos não têm precedentes. O primeiro-ministro da Palestina, Ismail Haniyeh, teve de cancelar um discurso previsto para segunda-feira no parlamento porque funcionários que não recebem há meses cercaram sua comitiva. Os guarda-costas de Haniyeh abriram fogo para dispersar os manifestantes. Os palestinos acusam Estados Unidos e Israel por seu sofrimento. Muitos observadores garantem que a Casa Branca apoiou economicamente a campanha do partido laico Fatah, liderado pelo presidente Mahmoud Abbas e considerado mais inclinado a realizar concessões do que o Hamas. Israel, a força ocupante, também permitiu as eleições com a esperança de que fosse eleito um governo mais amigável.
“Apesar da retórica em prol da democracia, a resposta do Ocidente às eleições legislativas de janeiro último, que tiveram a aprovação internacional, desataram uma crise política e paralisaram a economia palestina”, afirmou a revista do Centro de Estudos sobre Refugiados, da Universidade de Oxford em sua edição deste mês. “A população palestina sofre porque os doadores congelaram os fundos necessários para manter a ajuda humanitária e os programas de desenvolvimento”, acrescenta a publicação. A situação econômica da Palestina não havia atraído a atenção internacional até esta semana, quando o Círculo de Escritores Norte-americanos Árabes (RAWI) condenou o embargo e o “silêncio” da imprensa de seu país.
“As conseqüências deste bloqueio se agravaram na última invasão de Gaza, deixada de lado pela imprensa norte-americana, na qual Israel destruiu toda a infra-estrutura que restava, além de matar, pelo menos, 146 civis, muito deles crianças”, advertiu RAWI em uma nota. “Condenamos a insensatez estratégica deste bloqueio econômico, bem com sua imoralidade. Enquanto reação à eleição dos palestinos de uma maioria de parlamentares do Hamas, em eleições livres e justas, o bloqueio parece um castigo coletivo contra pessoas inocentes que não fizeram nada além de exercer seu direito democrático”, afirmou a organização. Seus integrantes também disseram que “o governo dos Estados Unidos é mais perigoso para os palestinos do que o governo da Palestina jamais chegará a ser para os norte-americanos”. (IPS/Envolverde)

