China-Japão: Velhas feridas de guerra ainda incomodam

Pequim, 09/10/2006 – A possibilidade de o Japão lançar um bálsamo sobre as feridas causadas à China na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é uma das incógnitas que se abriu nesta terça-feira, quando Shinzo Abe sucedeu Junichiro Koizumi como primeiro-ministro em Tóquio. A peregrinação anual e Koizumi ao santuário onde os japoneses homenageiam seus mortos em combate, entre eles militares acusados de crimes de guerra nos países vizinhos, causaram grande tensão entre a China e sua velha metrópole colonial. O Ministério das Relações Exteriores da China considera que as “obstinadas” visitas de Koizumi e outros funcionários japoneses a Yasukuni fez despencar as relações bilaterais ao seu pior momento desde que foram restabelecidas totalmente em 1972.

Pequim acredita que Abe vai superar o ponto morto prometendo não peregrinar ao santuário na qualidade de primeiro-ministro. Por esse motivo a China interrompeu, há cinco anos, seus intercâmbios diplomáticos de alto nível. Mas, fica difícil que a aversão entre as duas potências asiáticas desapareça, mesmo se Abe decidir eliminar um motivo de atrito deixando de ir a Yasukuni. A peregrinação anual ao santuário é apenas um sintoma de tensões mais profundas e de rivalidade geopolítica: representa, segundo diversos especialistas, a resposta de um enérgico Japão à econômica e militarmente pujante China. O país mais povoado do mundo conseguiu nos últimos anos um acelerado crescimento econômico e maior influência no contexto mundial.

Tudo isso coincide com os planos japoneses de dar maiores faculdades às suas forças armadas através da reforma de sua constituição pacifica, aprovada em 1947 sob forte influência dos Estados Unidos, a potência ocupante após a derrota na guerra. A Constituição estabelece a existência de Forças de Autodefesa, mas, não de um exercito, bem como a renúncia a intervir em conflitos armados. Políticos conservadores japoneses alegam que essa constituição já não reflete o cenário político da época histórica em que foi aprovada, e mencionam nesse sentido a ocupação do Tibet e a modernização do exército chinês, bem como a corrida armamentista nuclear da Coréia do Norte.

Durante o mandato de Koizumi, o Partido Liberal Democrático (PLD) defendeu a necessidade de elevar o perfil militar do país e sua liderança na região. “A forma com Abe enfrentar a agenda herdada de Koizumi determinará a postura do Japão no contexto internacional e sua política de relações exteriores nos próximos anos”, disse o analista político chinês Zhou Qingan. “Poderá ser um conservador pragmático, mas, também descende de uma influente família de políticos japoneses e é um nacionalista declarado”, acrescentou.

Uma pesquisa publicada no começo do mês mostra o aprofundamento no Japão dos sentimentos contra a China nos últimos quatro anos: 93% dos japoneses entrevistados consideraram que o crescente poderia militar chinês constitui uma ameaça. A pesquisa, feita pelo Pew Global Attitudes Project, um instituto universitário norte-americano, encontrou uma parte significativa de japoneses, indianos, russos e, inclusive, norte-americanos que consideram que a China vai dominar o mundo em 2056. pela primeira vez em mais de um século, o resto da região da Ásia oriental vêem na pujante China um lugar central, deslocando o Japão.

Enquanto a China demonstra maior confiança a respeito de seu papel-chave na região e mais além também, a rivalidade entre Tóquio e Pequim passou o âmbito diplomático e das disputas territoriais. Nos últimos dois anos, ambos manifestaram reticências aos contratos petrolíferos assinados pela China para explorar hidrocarbonetos na Ásia central, África e Mar da China Oriental. Por outro lado, a China deslocou os Estados Unidos como principal sócio comercial do Japão, por isso as relações econômicas não foram afetadas. As políticas sim, caíram ao seu nível mais baixo. “Os que aspiram uma relação melhor com o Japão estão mais do que preocupados”, disso o jornal Diário da China, órgão oficial do governo de Pequim.

A tensão diplomática aumentou claramente a cada visita de Koizumi ao santuário de Yasukuni. Este ano, ele cumpriu uma velha promessa ao seu partido: visitar o santuário no dia 15 de agosto, aniversário da rendição japonesa, que pôs fim à Segunda Guerra Mundial. Essa visita enfureceu os vizinhos do Japão que sofreram suas invasões e crimes em tempos de guerra. China e Coréia do Sul disseram que as honras de Koizumi no templo referendam uma versão reivindicatória da história combativa desse país, com a qual o governante havia se associado ao apoiar a colocação em marcha do santuário e do museu de Yasukuni em 2002.

A exibição no museu apresenta os ataques do Japão na região como ações de autodefesa, enquanto reduz a importância de incidentes como o massacre de Nanjing, em1937, quando a invasão japonesa acabou com a vida de aproximadamente 300 mil chineses. Os laços somente poderão melhorar mediante “um apropriado manejo dos assuntos históricos”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Qin Gang, quando Koizumi fez sua primeira visita ao santuário. Também lembrou que reservará seu otimismo sobre o futuro das relações bilaterais até que Abe exponha suas intenções nesse assunto.

Até agora, o novo primeiro-ministro evitou anunciar se visitará Yasukuni. Em ocasiões anteriores apoiou publicamente as visitas de Koizumi, e, inclusive, ele mesmo foi ao santuário em segredo, em abril. Abe está seguindo a mesma trilha política de seu antecessor e sua popularidade no PLD emana da influente ala direita do partido, embora seja considerado mais pragmático e flexível do que seu antecessor. Em sua campanha pela presidência do partido, no início do ano, Abe prometeu retomar as relações com China e Coréia do Sul, os países mais afetados pelo imperialismo japonês e por suas operações na Segunda Guerra Mundial.

Mais da metade dos entrevistos para pesquisas divulgadas por jornais japoneses se mostraram em desacordo com as visitas de Koizumui a Yasukuni. Mas, vários analistas chineses duvidam que o público japonês possa influir na agenda nacionalista de Abe. “O ânimo no Japão nos últimos anos é tão agressivamente nacionalista que muitos integrantes da elite política e social do país tiveram de agir com extrema discrição” em suas relações com o mundo exterior, disse Huo Jiangang, especialista do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas da China. “Não creio que isto mude no futuro”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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