Faluja, Iraque, 09/10/2006 – Após ter sofrido duas grandes incursões nos últimos dois anos, a cidade de Faluja, no centro do Iraque, está outra vez sob a ameaça das forças de ocupação dos Estados Unidos, afirmam moradores. Os norte-americanos “já destruíram nossa cidade em duas ocasiões e agora nos cercam pela terceira vez”, disse à IPS Ahmed Dhahy, de 52 anos, morador dessa cidade de maioria sunita localizada 50 quilômetros a oeste de Bagdá. “Querem que façamos seu trabalho, e que delatemos os que nos atacam”, acrescentou.
Dhahy, que perdeu 32 pessoas de sua família quando a casa de seu pai foi bombardeada por aviões norte-americanos durante o ataque contra Faluja em abril de 2004, afirmou que as forças de ocupação ameaçaram destruir a cidade completamente se seus habitantes não entregarem os combatentes da resistência. “Na semana passada, os norte-americanos colocaram alto-falantes na parte traseira de seus tanques e Humees (veículos blindados) para nos ameaçar”, acrescentou. Moradores afirmam que as forças dos Estados Unidos advertiram que lançarão uma “grande operação militar” se os combatentes da resistência não forem entregues.
Entretanto, um porta-voz militar norte-americano em Bagdá disse que não havia informações de nenhum plano semelhante. Faluja sofreu um intenso bombardeio em abril de 2004 e outro semelhante em novembro desse mesmo ano. Os ataques destruíram 75% da infra-estrutura e deixaram mais de cinco mil mortos, segundo organizações não-governamentais locais. Depois desses ataques, a resistência à ocupação do Iraque continuou atacando as forças dos Estados Unidos na cidade. Faluja continua sob fortes medidas de segurança. Os soldados norte-americanos utilizam sistemas de identificação biométrica, realizam completa revista corporal e exigem documentos com códigos de barras para quem deseja sair ou entrar da cidade.
“A resistência iraquiana não parou um só dia, apesar das fortes atividades militares norte-americanas”, disse à IPS um capital de policia que pediu para não ser identificado. “Os sábios da cidade explicaram às autoridades norte-americanas que é impossível deter a resistência com operações militares, mas, parece que estas preferem a opção difícil”, acrescentou. O policial disse que a resistência aumentou suas atividades diante do aumento da violência sectária, com esquadrões da morte xiitas matando milhares de sunitas em Bagdá. Muitos moradores de Faluja têm familiares na capital. “A falta de projetos de reconstrução da cidade e de uma compensação para as famílias das vítimas das últimas incursões agravaram o mal-estar entre a população”, disse o capitão.
“Já havia antes ataques da resistência contra as forças dos Estados Unidos e do Iraque todos os dias em Faluja. Mas, agora aumentaram. Muitos soldados morreram e seus veículos foram destruídos. Está claro que as medidas de segurança adotadas na cidade fracassaram”, acrescentou. Vários residentes disseram à IPS que todo tipo de assassinato foi cometido nos últimos oito meses. Líderes religiosos são vítimas freqüentes, e nenhum grupo assume os atentados. No domingo. Ahmed Diraa, ex-chefe da Polícia de Trânsito, foi assassinado, com um disparo contra seu carro. Moradores de Faluja disseram à IPS que Diraa havia deixado seu cargo há um mês.
Frente a estes assassinatos, e agora das ameaças de um novo ataque norte-americano, os moradores adotaram uma atitude desafiadora diante das forças de ocupação. As dificuldades que atravessam parece que os fortaleceram. “Há muitas prisões, assassinatos e castiços coletivos, como tiroteios indiscriminados, blitze violentas, toques de recolher e cortes deliberados de água e eletricidade”, disse á IPS o diretor do não-governamental Centro Iraquiano para a Observação dos Direitos Humanos, Mohammed Al Darraji. É necessária “a intervenção internacional para proteger os civis e punir os que prejudicaram seriamente a sociedade de Faluja e cometeram graves crimes contra a humanidade’, acrescentou Darraji. Sua organização acompanha de perto as violações cometidas na cidade contrariando as Convenções de Genebra, que regem o direito internacional humanitário, desde o ataque de abril de 2004. “Existe uma longa lista de castigos coletivos que transformaram a cidade em um aterrador campo de detenção”, ressaltou.
Outro defensor dos direitos humanos em Faluja que pediu para ser identificado pelo nome de Khalid, disse que os ativistas no Iraque se sentem traídos pela Organização das Nações Unidas. A ONU mostrou ignorância “ao deixar que as tropas norte-americanas agissem sozinhas na cidade”, disse à IPS este ativista, que trabalha para o grupo Raya Human Rights. “Isto ocorreu inclusive depois que os meios de comunicação expuseram a grande violência e as violações dos direitos humanos dos últimos três anos”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

