Iraque: Guerra por controle remoto

Ramadi, Iraque, 09/10/2006 – As novas milícias sunitas que operam no Iraque com apoio dos Estados Unidos constituem um fator de incerteza em um país afundado no caos. Dirigentes sunitas da província de Al-Anbar, oeste de Bagdá, se afastaram de suas tribos para formar estas milícias, receberam elogios do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e de funcionários dos Estados Unidos, segundo versões da imprensa local. Washington pedirá o desarmamento de todas as milícias pelo bem da paz social e da reconciliação, mas é evidente agora que mudou de política. Agora, as forças da ocupação apóiam combatentes xiitas e sunitas em diferentes regiões do país.

Outros chefes tribais sunitas condenam duramente os novos grupos. “São um bando de ladrões que armam ladrões, e isso é perigoso e desagradável”, disse á IPS o xeque Sa’adoon, chefe de uma importante tribo sunita perto da cidade de Khaldiyah em Al-Anbar. “Isso somente indica que teremos mais distúrbios aqui e uma possível guerra civil local”, afirmou. “Fazem isto apenas para matar tantos sunitas quanto for possível, e está cada vez nas mãos de sunitas”, disse à IPS outro líder tribal que não quis se revelar sua identidade. Os verdadeiros líderes tribais deveriam estar no comando de qualquer milícia que se forme, não dando ordens desde a “zona verde”, “zona internacional” ou também conhecida como “a bolha”, a área mais protegida do centro de Bagdá.

Ali estão os principais palácios do ex-presidente Saddam Hussein (1979-2003), onde agora vivem e trabalham as autoridades norte-americanas e britânicas das forças de ocupação, bem como os escritórios do governo e das principais empresas de consultoria ou contratadas para a reconstrução do país. “Os líderes devem guiar seus soldados no campo de batalha, mas esses chamados xeques estão bem protegidos por paredes de concreto dentro da zona suja. Com vão ganhar uma guerra por controle remoto?”, afirmou.

A polêmica iniciativa foi amplamente criticada por acadêmicos, altos chefes militares iraquianos e até por políticos xiitas. “É uma nova forma de fazer milhões de dólares”, disse à IPS um professor da Universidade de Al-Anbar em Ramadi. “Não posso imaginar mais 30 mil armas em território iraquiano. Espero que esqueçam a idéia. O Iraque precisa de mais engenheiros e também de políticos corretos para resolver o dilema com os combatentes já existentes, em lugar de recrutar outros para matar mais iraquianos”, afirmou o general Jassim Rashid al-Dulaimi sobre o novo exército de Al-Anbar. “A idéia me parece a de que o país vai se transformar em um centro de recrutamento de mercenários”, acrescentou.

O líder xiita Jaafar al-Assadi também considerou que essa medida aumentará a violência. “Al-Anbar terá ainda mais enfrentamentos com as armas que esses tontos estão lhe dando”, disse à IPS. “Certamente, irão vendê-las aos terroristas ou, cedo ou tarde, sucumbir a elas”, acrescentou. Vários líderes tribais se afastaram dos novos grupos combatentes. O xeque Hamid Muhanna, chefe da tribo Al-Bu Alwan, apareceu na rede de televisão Al Jazeera para desacreditar as versões sobre a criação dessas milícias. Nesse sentido, disse que ele e outros xeques controlavam suas tribos e que os que se reuniram com Al Maliki falavam por si próprios.

A principal organização religiosa do Iraque, A Associação de Eruditos Muçulmanos, continua se opondo firmemente à permanência da ocupação. “Tudo está nas mãos dos norte-americanos, estamos tentando tapar o sol com as mãos”, disse à IPS em Bagdá o xeque Ahmed, representante da Associação. “As forças da ocupação são muito poderosas para que qualquer jogador exerça uma mudança significativa, por isso devemos confiar em nossa própria capacidade sem sonhar com soluções proveitosas de nosso inimigo”. A Associação se nega sistematicamente a participar da política do país sob a ocupação norte-americana. As novas milícias se aproveitam do controvertido federalismo, pelo qual cada grupo parece agir segundo sua vontade.

Thafir al-Ani, porta-voz de Al-Tawafuq – o maior partido sunita no parlamento – renunciou na semana passada ao cargo de presidente do comitê constituinte. “Teria de me inclinar por dividir o Iraque sob a bandeira do federalismo, o que me marcaria historicamente como um dos que determinou a divisão de meu país”, afirmou. As soluções propostas obedecem a interesses pessoais e sectários e consideram que é o melhor para o país, disse à IPS o analista político Maki al-Nazzal, desde Faluja. “A mudança que pode haver é uma Revolução Laranja de todos os iraquianos, sem importar sua identidade”, acrescentou. Mas “seria muito perigoso sem a proteção internacional, pois os governantes e o exercito dos Estados Unidos podem massacrá-los”, ressaltou.

Deu-se o nome de Revolução Laranja às manifestações populares de novembro de 2004 na Ucrânia contra um governo e eleições considerados ilegítimos. Há um amplo convencimento de que os protestos contaram com apoio norte-americano. Um integrante da não-governamental organização iraquiana Direitos Humanos afirmou que a Organização das Nações Unidas tem de assumir uma posição mais forte no Iraque. “A comunidade internacional deve ter um papel real no país”, disse à IPS. “A Unami (Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque) está de mãos amarradas e só observa a desastrosa situação, sem fazer nada para ajudar a deter a hemorragia no Iraque”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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