Arbil, Iraque, 07/10/2006 – A comunidade xiita, majoritária no Iraque, exerce pressão para consagrar a autonomia da região meridional do país, após o fracasso do governo em chegar a um acordo de reconciliação nacional com rebeldes desse ramo do Islã. Trata-se de um assunto muito delicado, devido às posições políticas cada vez mais radicais do Irã, uma república islâmica xiita, e do partido libanês pró-sírio e pró-iraniano Hezbollah, hoje no centro do violento conflito com Israel no sul do Líbano. “O projeto de reconciliação do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, fracassou, pois nenhum dos principais grupos rebeldes demonstra disposição em aceitá-lo”, disse à IPS o deputado curdo Abdullah Aliawayi.
O próprio chefe de governo admitiu sua derrota em uma reunião com representantes dos grandes partidos políticos iraquianos, afirmou Aliawayi. O plano de 24 pontos apresentado por Maliki, em junho, incluía uma anistia aos rebeldes que não tivessem cometido atentados contra a população civil e um processo de desarmamento para as milícias das diversas comunidades religiosas e étnicas. Nenhuma dessas ofertas prosperou, e a insurgência ainda se faz notar com o barulho de tiros e bombas que ensurdece a população de Bagdá e outras cidades. Segundo fontes oficiais, no primeiro semestre deste ano morreram 14 mil pessoas devido ao recrudescimento da violência política e religiosa.
O embaixador britânico William Patey, que acaba de deixar a representação no Iraque, alertou sobre a crescente possibilidade de uma guerra civil aberta neste país do Golfo, bem como da secessão de seu território de acordo com as maiorias étnicas e religiosas predominantes em cada região. Também o general John Abizaid, principal chefe militar norte-americano para o Oriente Médio, advertiu que a eclosão de uma guerra civil é inevitável se não se deter a violência religiosa. Porém, a avaliação de ambos é bem conservadora. Muitos dirigentes políticos e especialistas iraquianos afirmam que este país já está submerso em uma guerra civil.
“Está em curso uma guerra civil não declarada”, afirmou Aliawayi, que participou no Cairo de uma reunião de representantes de diversas comunidades iraquianas convocada pelo governo egípcio com vistas a um acordo de paz. “As visões dos xiitas e sunitas sobre o futuro do Iraque estalo muito distantes entre si para que ambos possam acertar um programa conjunto”, lamentou. Sessenta e dois por cento dos 26 milhões de iraquianos são xiitas, a população hegemônica no sul, enquanto no centro predominam os sunitas (35%), o grupo islâmico majoritário no mundo árabe e também no regime de Saddam Hussein, deposto pela invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003.
Quanto à composição étnica da população iraquiana, os árabes constituem três quartos, enquanto os curdos, a maioria dos quais segue o Islã sunita, somam 20%. A comunidade curda é majoritária no norte, apesar da campanha de limpeza étnica implementada na área pelo governo de Saddam, e que goza de uma ampla autonomia desde que conseguiu a proteção da força aérea britânica depois da Guerra do Golfo (1991). Na medida em que surgem novas evidências do fracasso do plano de reconciliação governamental, as organizações e os dirigentes políticos xiitas começam a pressionar para que se reconheça ao sul do Iraque uma autonomia semelhante à que ostentam os curdos no norte.
O vice-presidente iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, disse em uma cerimônia na cidade santa xiita de Najaf, no começo deste mês, que os legisladores de sua comunidade se dedicarão plenamente a apresentar o assunto no parlamento. “Queremos continuar com a criação de regiões” autônomas prevista na Constituição, disse Abdul Mahdi. “Submeteremos o projeto ao parlamento nos próximos dois meses”, afirmou. O governo, por sua vez, não conseguiu garantir a continuidade dos serviços básicos para a população do sul do Iraque, acrescentou. Dirigentes xiitas lembram que a Constituição, rechaçada pelos sunitas, habilita a criação de regiões federadas. Os políticos sunitas vêem na instauração dessas estruturas o prelúdio da secessão.
Por outro lado, se consolida entre os observadores a percepção de que a deterioração da segurança está ligada à reclamação xiita de autonomia no sul. “As complicações políticas, de segurança e econômicas são fatores-chave para agravar as demandas de autonomia no sul”, disse à IPS o especialista em segurança nacional Najdat Akreyi, do Colégio de Ciências Políticas de Arbil. Se os iraquianos pretendem abortar uma guerra civil, o país “não pode continuar assim”, alertou Akreyi. Para livrar o país da violência é necessário um sistema que reconheça uma autonomia mais ampla para os diversos grupos étnicos e religiosos, segundo o especialista.
“O mapa político do Iraque deve ser revisado e redesenhado mediante a criação de um sistema de confederações que confira grande poder a entidades xiitas, sunitas e curdas separadas, que se autogovernariam”, afirmou Akreyi. Os sunitas, que controlariam desde o centro do país até a nascente dos rios que irrigam o sul, poderiam alcançar com os xiitas um acordo prevendo a troca de água por petróleo, acrescentou. “Se desejamos impedir um banho de sangue, não devemos ter medo de admitir que o Iraque não é uma entidade sagrada e que pode ser alvo de revisões a fim de lhe dar estabilidade. Isso se consegue através de uma confederação”, afirmou. A desintegração da antiga Iugoslávia e da União Soviética é um bom exemplo que o Iraque deveria considerar com atenção, concluiu. (IPS/Envolverde)

