Roma, 09/10/2006 – “Se existe uma única imagem para recordar a destruição do World Trade Center é o salto desde os andares mais altos daqueles que escolheram uma morte diferente da sufocação pela fumaça ou consumação pelas chamas”, escreveu John Bussey, do jornal The Wall Street Journal. O jornalista foi um dos sobreviventes dos devastadores atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em nu e Washington. Bussey ficou esquecido na Torre Gêmea Número Um depois que o edifício foi evacuado. “Quando as janelas explodiram e o escombro começou a chover dentro do escritório, me escondi debaixo de uma mesa. Tentava salvar minha vida”, lembrou uma entrevista concedida dias depois.
Os jornalistas que presenciaram o massacre entenderam de imediato que a partir desse momento nada voltaria a ser o mesmo. Entretanto, nunca imaginaram o que ocorreriam nos cinco anos seguintes: a campanha militar no Afeganistão, invasão e ocupação do Iraque, jornalistas instalados em unidades militares e a “guerra contra o terrorismo”. Um total de 103 jornalistas e trabalhadores da imprensa morreram no Iraque desde o inicio da guerra, em março de 203, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras. Dois ainda permanecem desaparecidos. Esta agência de notícias perdeu seu colaborador Alaa Hassan em um tiroteio nas ruas de Bagdá em julho passado.
O 11 de setembro de 2001, imediatamente depois do primeiro impacto, enquanto uma torrente de pessoas fugia do epicentro, bombeiros, policiais e jornalistas seguiam na direção oposta. A coragem dos policiais e bombeiros foi elogiada em vários filmes e documentários. Mas, o que os jornalistas experimentaram ainda não veio à luz. William Biggart foi, provavelmente, o primeiro jornalista gráfico no lugar dos atentados. Seu cadáver foi encontrado entre as ruínas do World Trade Center quatro dias depois.
David Handschuh, do New York Daily News, teve melhor sorte. Foi empurado pela onda expansiva e ficou debaixo de um automovel estacionado proximo do local. Conseguiu escapar com fraturas em uma perna. Seth Cohen, outro repórter fotográfico, foi acordado naquela manhã pelo telefone. Vivia a seis quarteirões das Torres Gêmeas. Pegou a bicicleta e a câmera e se dirigiu rapidamente para o lugar dos atentados. Não podia acreditar no que estava vivendo, contou mais tarde. As pessoas estavam todas cobertas de pó. Aquilo parecia uma alucinação.
Ele tentou concentrar-se e começou a fotografar. Em suas tomadas, em preto e branco, se vê uma névoa fantasmagórica cobrindo as árvores que em pé e uma placa de orientação do trânsito indicando o caminho perdido para Wall Street. Xavier Araújo, do jornal porto-riquenho El Nuevo Dia, fez imagens que revelam o inferno vivido dentro das Torres Gêmeas. “Fizemos fotos de pessoas saltando dos edifícios”, disse, pouco depois dos ataques. “Estava dormindo quando meu editor ligou”, disse Greg Kelly, ex-jornalista do canal de televisão local Nova York-1. Seu primeiro impulso foi ir para o St. Vincent’s Hospital, na rua 11. Esperava-se a chegada de centenas de feridos.
Mas, “em seguida ficou claro que não seria o melhor lugar. Não chegava ninguém”, lembrou em uma entrevista. Kelly decidiu se aproximar do que restava das Torres Gêmeas. Foi parado por um membro da Guarda Nacional que confundiu sua credencial jornalística com uma autorização policial. Ele não corrigiu o guarda e foi um dos primeiros jornalistas de televisão a entrar nos lugar dos fatos. “Estava tão cheio de fumaça que todos pareciam desorientados. Nada estava em seu lugar. Alguém aponto para algo no andar que parecia ser escombro. ‘são partes humanas’, disse em seguida. Não se parecia com nenhuma parte de corpo humano que eu conheço. Não sentia raiva. Estava preocupado com a possibilidade de ser descoberto, posto para fora e ter minhas coisas confiscadas”, contou.
“Logo ouvimos um grande estrondo. Não podíamos dizer de onde vinha. Estávamos em uma montanha de escombros. O Edifício Número Sete do complexo do World Trade Center veio abaixo. Enquanto isso acontecia eu falava ao telefone: ‘Holocausto nuclear’ foi a única descrição que me veio à mente”, afirmou. Nessa tarde, esta jornalista fez fila com outras dezenas de pessoas no St. Vincent’s Hospital, não longo de onde vivia, no coração da cidade. Como Kelly, descobri que não havia muitos feridos. Com meu tipo de sangue é O negativo, que pensava fosse ficar escasso para atender as vítimas, anotaram meu nome e telefone, mas, nunca ligaram.
Yuri Kirilchenko, jornalista de radio que trabalhava para agência de noticias russa Itar-Tass, estava estacionando seu carro perto do lugar quando houve o impacto contra a primeira torre. Um tsunami de escombros começou a perseguir a multidão que estava diante do prédio. Kirilchenko, um gigante de dois metros de altura, carregou alguém em suas costas e fugiu do lugar. Desta maneira levou outras pessoas para locais seguros. Depois se sentiu mal. Sua mulher e seu editor o encontraram inconsciente perto de um hidrante. Seis horas mais tarde, acordou em uma cama de hospital após ter passado por uma operação de urgência do coração.
Minutos depois do segundo impacto. A torre Número Um foi evacuado. Ali ficavam os escritórios do The Wall Street Journal. Todos se perguntavam como faria o maior diário do país para circular no dia seguinte. O jornal tinha uma segunda redação em Nova Jersey e um plano de emergência. Mas, onde estavam os jornalistas? Imediatamente se soube quantas das 900 pessoas que trabalhavam no jornal haviam saído ilesas da tragédia e puderam cruzar o rio, já que a ilha de Manhattan estava praticamente fechada e só se podia deixá-la por ferry-boat.
Bussey, editor de internacional do jornal, contou ao vivo por telefone a destruição da qual foi testemunha para o canal de televisão CNBC. O prédio começou a desmoronar. Bussey saiu debaixo de sua mesa onde se refugiara e começou a tatear a parede, buscando uma saída. Desorientado, passou duas vezes ao lado de uma porte, até que conseguiu fugir. Enquanto isso, em Nova Jersey, alguns trabalhadores começavam a chegar, um por um. Assim, às 16 horas haviam chegado apenas 30 jornalistas, de um total de 400 em dias normais.
“Não havia editores, por isso Jim Pensiero, cujo trabalho era a administração do orçamento da redação, mas que tinha alguma experiência editorial, se converteu no editor nesse dia. Tão logo chegaram alguns jornalistas, cobertos de pó, foi distribuída a pauta, mesmo para quem não estava acostumado com essa tarefa. Quando cheguei, não restava nada por fazer, assim, comecei a escrever sobre o que havia visto”, contou Bussey. “alguns caíam (dos andares mais altos das Torres Gêmeas) movendo braços e pernas, olhando para baixo quando se aproximavam do chão. Outros caíram de costas, tentando ver as chamas e o céu”, escreveu.
“A cena parecia tirada da (antiga cidade romana de ) Pompéia depois da erupção do vulcão Vesúvio. Centímetros de cinzas no solo. Fumaça e pó turvavam o ar”, acrescentou em sua crônica, que apareceu na primeira página do jornal no dia seguinte. Em outra sala de redação do centro de Manhattan, do jornal The New York Times, as coisas transcorreram de forma mais ordenada. “Os ataques foram cometidos bem cedo, assim, pudemos nos organizar. O jornal imediatamente entendeu que enfrentava um desafio: o mundo nos olhava. Era um acontecimento de dimensão histórica”, disse Serge Schmemann, um dos principais editores do jornal.
”A cobertura deveria ser apropriada, sóbria, completa e não-especulativa. É por isso que não falamos de milhares de mortos nem mencionamos Osama bin Laden (líder da rede terrorista al Qaeda) como o culpado automático. Não queríamos causar pânico nem contribuir para a repressão. Devíamos passar ao exame da história”, acrescentou. Quando viu pela televisão a queda das Torres Gêmeas, Schmenamm começou a escrever um artigo, que foi primeira página no dia seguinte. “Enquanto médicos e enfermeiras nos hospitais da cidade atendiam centenas de feridos, crescia a sensação de que durante o dia haveria cada vez menos trabalho: os necrotérios estariam mais ocupados”, escreveu. O resto é história. (IPS/Envolverde)
* Miren Gutiérrez é editora-chefe da IPS. No dia dos atentados era a única jornalista presente do jornal espanhol El País. Este artigo está baseado em entrevistas realizadas nessa oportunidade.

