Jornalismo: Obstáculos à imprensa da Chechênia

Moscou, 09/10/2006 – Dois anos depois de realizar eleições, a república autônoma russa da Chechênia vislumbra poucas possibilidades de desenvolver meios de comunicação livres e independentes. Sob o governo do presidente pró-russo Alu Alkhanov, eleito em agosto de 2004 em controvertidas eleições com 73% dos votos, está república continua eliminando os poucos meios opositores que restam e impedem o surgimento de outros novos. “A imprensa sofre severos obstáculos, não apenas por falta de recursos, mas pelo clima de temor que reina na república, entre outros fatores”, disse à IPS por e-mail Tatyana Lokshina, da não-governamental Federação Internacional para os Direitos Humanos.

“A situação na Chechênia reflete as restrições cada vez mais evidentes à mídia russa, em geral. Na Rússia, a maioria dos meios eletrônicos e impressos são firmemente controlados pelas autoridades e os jornalistas independentes são assediados, ameaçados e assassinados”, acrescentou. “O Estado dita a política de informação, como na época de (falecido líder separatista) Aslan Masjadov”, disse, por sua vez, uma jornalista de uma agência estatal de noticias. Masjadov, um coronel da antiga União Soviética, apoiou a declaração de independência da Chechênia, território de maioria muçulmana sufi, proclamada por Dzhójar Dudáyev em 1991 pouco depois de ser eleito presidente nas urnas.

A secessão foi combatida com sangue e fogo por Moscou. Dudáyev morreu em um ataque de mísseis russos em 1996, e no ano seguinte Masjadov foi eleito presidente, em eleições supervisionadas pela Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE). A transição democrática não impediu a repressão russa e a resistência chechena. Encurralado, Masjadov ordenou aos seus guarda-costas que o matassem, em 2005. Seu corpo está enterrado em local desconhecido. “Agora, permitem que informemos criticamente sobre vários assuntos sociais, mas, devemos evitar o que chamam de temas feios”, afirmou a jornalista, que falou com a IPS pedindo reserva de sua identidade. A profissional se referia a violações de direitos humanos, impunidade de quem a comete e casos de corrupção.

Representantes de meios de comunicação privado disseram que os sonhos dessas empresas também seguem está linha. A imprensa não questiona diretamente as autoridades russas. Pessoal de três dos quatros meios privados da Chechênia indicaram que seus proprietários têm uma influência decisiva na linha editorial. Representantes do pessoal desses meios afirmam que vigora a autocensura com conseqüência da pressão interna – exercida por diretores e proprietários – e externa, por parte de autoridades e forças de segurança. Nesse sentido, mencionaram uma reticência generalizada a informar sobre participação de funcionários do Estado em delitos, por medo das repercussões contra os meios envolvidos e os próprios jornalistas.

“O problema é que os tribunais e os escritórios dos promotores não responderão a nenhuma de nossas denúncias públicas”, assegurou o editor de um periódico. Vários jornalistas disseram que tentam informar nas entrelinhas sobre estes assuntos considerados proibidos ou muito religiosos. Em sua maioria, admitem que nem mesmo abordam os “temas feios”. Uma editora da televisão estatal disse que seus jornalistas foram ameaçados por homens armados usando uniformes camuflados, aparentemente membros de serviços de segurança, quando tentavam informar sobre a apropriação ilícita de materiais de construção de casas afetadas pelo bombardeio de Grozny, em 1999 e 2000. “Hoje não restam mais tijolos para roubar”, disse, ao ser consultada se essas ameaças continuavam.

O semanário independente Chechenskoe Obchestvo (Sociedade Chechena) continua enfrentando problemas. No ano passado recebeu uma advertência oficial por informar sobre o assassinato do ex-presidente checheno Zelimkhan Yandarbieyev. Unidades policiais encarregadas da luta contra o crime organizado reiteradamente chamaram a atenção do diretor do semanário, Timur Alieve, sobre seus informes. Os policiais advertiram Aliev que viam em sua publicação como um veículo “antigovernamental”, e pediram que suspendesse sua impressão, hoje disponível apenas na Internet.

“Uma pessoa pode ver na Chechênia a censura mais extrema”, disse á IPS Grigory Shvedov, diretor do diário eletrônico Caucasian Knot. “Na região do Cáucaso não existe liberdade de imprensa. Por isso é tão importante o papel de Chechenskoe Obchestvo e Aliev”, acrescentou. Operadores da mídia legam que a falta de uma efetividade rede de distribuição impediu o desenvolvimento de um mercado de veículos de imprensa na república chechena. Inclusive, os jornais privados locais mais lidos têm uma circulação inferior a cinco mil exemplares, e dependem da publicidade ou de subvenções para sobreviver. A pobreza e a emigração causadas por uma década de guerra também influem na escassa circulação.

Pesquisadores da Anistia Internacional dizem que dentro da Chechênia existem empresas jornalísticas capazes de dar sua própria perspectiva sobre os fatos, por isso não é verdade que haja um total bloqueio informativo. “Mas, os que procuram informar sobre o que ocorre na região enfrentam múltiplas dificuldades”, disse à IPS Victoria Webb, pesquisadora do programa da Anistia para Europa e Ásia Central. Entre essas dificuldades, mencionou o “perigo de ficar refém da violência no momento e no lugar errados, até dificuldades de acesso a algumas áreas remotas e, também, persuadir pessoas comuns de que vale a pena contar suas experiências ou o que viram”, afirmou.

Stanislav Dmitrievskiy y Oksana Chelysheva, da Agência Russo-Chechena de Informação, e membros da Sociedade de Amizade Russo-Chechena, receberam ameaças de morte. Este ano, Stanislav foi condenado por “atividades extremistas”. Na verdade, foi proibido de trabalhar na imprensa durante dois anos por divulgar a opinião de líderes chechenos em favor de uma solução pacífica para o conflito. A agência também esteve sujeita a inspeções aparentemente intimidatórias das autoridades impositivas e do Ministério da Justiça, um mecanismo repressivo comum na Rússia e em países da ex-União Soviética.

A jornalista Anna Politkovskaia, do jornal Novaya Gazeta, também foi ameaçada por informar sobre a Chechênia. Por outro lado, no mês passado, a Anistia divulgou um comunicado urgente após o desaparecimento da jornalista Elina Ersenoyeve, ao que parece detida por forças de segurança. Em moscou, alguns vêem liberdade na imprensa chechena. Mas, uma liberdade diferente. “Hoje é possível afirmar que a liberdade deimprensa na Chechênia existe, embora muito diferente do padrão russo e de muitos países europeus”, disse à IPS Yelena Zelinskaya, vice-presidente de Média Soyuz.

A imprensa na Chechênia, afirmou, se esforça para conseguir a objetividade e também aspira uma verdade básica, que pretende mudar positivamente a sociedade depois da devastação. “E é necessário reconhecer o surgimento de publicações críticas e de tentativas de divulgar na comunidade da Chechênia e do lado da autoridades, para que muitos problemas sejam resolvidos”, concluiu Zelinskaya. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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