Beirute, 07/10/2006 – O Partido de Deus (Hezbollah) do Líbano parece se fortalecer dentro das fronteiras e no restante do mundo árabe no contexto da guerra com Israel, cujo bombardeio indiscriminado já devastou parte deste país árabe. Os ataques israelenses à infra-estrutura libanesa a fim de criar ressentimento contra o Hezbollah, um partido xiita e pró-sírio, parecem ter surtido efeito contrário e fortalecido o grupo. O Hezbollah, apontado pelos Estados Unidos e pela União Européia como organização terrorista, é visto no Líbano como uma força política social e legítima. A razão disso, segundo um representante do grupo e membro do parlamento libanês, é que nunca propôs transformar o país em um Estado islâmico.
”O Hezbollah é um partido democrático cujos princípios se baseiam na Constituição libanesa”, disse á IPS o legislador e também ministro do Trabalho do Líbano, Tarad Hamade. “Isto significa que temos de respeitar a diversidade religiosa e cultural do país. Nunca pretendemos estabelecer um Estado islâmico”, acrescentou. Segundo Hamade, “Israel quer aterrorizar o país e causar tantos danos quantos forem possíveis. Nos chamam de terroristas enquanto praticam terrorismo de Estado. Por acaso, eles também não são terroristas?”, perguntou.
Cada vez mais libaneses adotam essa visão da situação. A população deste país observa à sua volta a destruição causada pelos israelenses e tem claro que a reconstrução da danificada infra-estrutura civil custará milhares de milhões de dólares. Os três aeroportos e os quatro portos do país foram bombardeados. Estima-se que as perdas em moradias e empresas cheguem a mais de US$ 1 bilhão. Pelo menos 22 postos de combustíveis foram atacados e cerca de 20 fábricas estão parcial ou totalmente destruídas.
Ambulâncias de Cruz Vermeha, centros de emergência do governo, observadores e forças de paz da Organização das Nações Unidas, meios de imprensa e torres de telefonia celular foram arrasados, em flagrante violação da lei internacional. Igrejas e mesquitas foram destruídas e armas ilegais, como bombas de fragmentação e fósforo branco, também são utilizadas por Israel, afirmam observadores. Mais de 90% dos mortos libaneses nesta guerra – que chegam a mil, segundo dados oficiais – era civis.
Com a destruição do país, Israel não conseguiu pressionar o Hezbollah, mas catapultou seu apoio popular e fez aproximar a maioria dos libaneses dos objetivos políticos do grupo. O Hezbollah assumiu, pelo menos, 60% das tarefas humanitárias no Líbano, o que o fez concentrar poder e, agora, sua popularidade só faz crescer. Israel também pode ter caído na estratégia militar do Hezbollah. Nada melhor para este partido do que arrastar o exército israelense a uma guerra de guerrilha no sul do Líbano. E isso já começou, pois efetivos do país vizinhos agora estão entre suas vítimas no sul.
Hamade disse que as reclamações do grupo de um cessar-fogo são simples e os mesmos desde o início do conflito, há quase três semanas. “Só pode haver um cessar-fogo se Israel deixar de disparar o quanto antes, aceitar uma troca de prisioneiros e se retirar do Líbano”. Mas a realidade é que mais de 10 mil soldados israelenses ocupam áreas do sul do país, prosseguem os ataques aéreos generalizados e o governo do primeiro-ministro Ehud Olmert rechaça uma troca de prisioneiros.
A IPS ouviu um combatente do Hezbollah, que pediu para ser chamado de Ahmed, que contou que a agressão israelense só o transformou em um lutador mais determinado. “Me preocupo com meu povo, meu país e os defendo da agressão. Agora, meu lar em Dahaya (sul de Beirute) está em ruínas. Toda minha vida ficou destruída, por isso vou combatê-los”, afirmou. Como a maioria dos seguidores do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, Ahmed disse: “Estamos todos com ele. Nos deu confiança e esperança de podermos nos livrar dos sionistas para sempre. Meu deu um objetivo. “Somos como a resistência francesa contra os nazistas”, acrescentou.
Mohamed Slaibi, estudante de administração na Universidade Norte-Americana de Beirute (UEB), de 21 anos, disse que nunca apoiara o Hezbollah, mas que agora sente que estão em seu direito de defender o país. “Me sinto traído pelos Estados Unidos”, acrescentou. Esse país “apóia 100% todo o que Israel faz. Embora meu sonho fosse ir para os Estados Unidos e apesar de estudar na UEB, agora os odeio pelo apoio aos israelenses”, acrescentou. Este é justamente o tipo de sentimentos que Israel não quer gerar e que é produto do alcance de sua agressão. Antes, os ataques israelenses visavam principalmente todo o Hezbollah, mas agora toda a população do país sofre.
É sabido que o Hezbollah goza de um sólido apoio político do Irã e da Síria e que, provavelmente, lhe fornecem armas, mas agora, mais do que nunca, concentra o apoio da população libanesa. Naturalmente o grupo parece ter recurso. “Parte deles procedem de doações da população local”, disse Hamade. “O restante vem com a renda de companhias de propriedade do grupo. Além disso, os muçulmanos pagam o zaqaat (doação voluntária para a religião). Podemos comprar armas no mercado, uma fonte inesgotável”. Por certo o armamento do Hezbollah não iguala ao de seu inimigo. “Podemos não ser tão poderosos como o exército israelense, mas lutaremos até morrer”, ressaltou Hamade. (IPS/Envolverde)

