Religião: Primeira nomeação de rabinos na Alemanha desde a guerra

Berlim, 09/10/2006 – A nomeação de três rabinos na Alemanha, a primeira desde o Holocausto, foi avaliada por dirigentes políticos e organizações judias como um novo passo na luta que este país trava para acabar com a traumática história. Mas também destaca as diferenças internas nesta comunidade. Daniel Alter, Tomas Kucera e Malcolm Mattiatini foram recebidos em uma sinagoga da cidade alemã de Dresde, mais de seis décadas depois de o regime nazista assassinar seis milhões de judeus europeus. A histórica cerimônia significou um progresso para o interminável processo para sanar a sociedade alemã.

“Muita gente nunca poderia imaginar que depois do Holocausto a vida dos judeus da Alemanha voltaria a florescer”, disse o presidente alemão, Horst Koehler, na quinta-feira passada, momentos antes da celebração. “Por isso a primeira nomeação de rabinos no país é um acontecimento tão especial”, acrescentou. A ordenação foi um passo importante para a comunidade judia deste país, que, segundo dados oficiais, reúne cerca de cem mil pessoas, 500 mil a menos do que havia antes da Segunda Guerra Mundial (2939-2945). Nenhum rabino havia sido nomeado até agora desde que os nazistas fecharam o último seminário judeu na Alemanha em 1942.

“Está pode ser considerada uma vitória tardia contra os nazistas”, afirmou Mattitiani, recé-ordenado da progressista Escola Abraham Geiger, de Potsdam, perto de Berlim. Mattitiani voltará à África do Sul para liderar a sinagoga da Cidade do Cabo. Seus companheiros, o alemão Daniel Alter e Topmas Kucera, este de origem tcheca, dirigirão, respectivamente, as congregações Alemanha noroeste e de Munique, capital do Estado da Baviera. Muitos judeus esperam que esta ordenação seja o início de uma nova tendência. A comunidade judia alemã é a de maior crescimento na Europa devido ao fluxo maciço de imigrantes da extinta União Soviética depois do colapso do campo socialista no começo dos anos 90.

Agora, passa por um déficit de rabinos, já que com apenas 25 para 100 congregações. “Necessitamos de muitos rabinos mais na Alemanha. Estamos sedentos de rabinos”, disse em entrevista coletiva o vice-presidente do Conselho Central de Judeus, Dieter Graumann. O reitor da Escola Abraham Geiger, Walter Homolka, destacou que os novos rabinos devem ser mais do que “máquinas de rituais importadas”, se mostrando autoridades morais e políticas. A comunidade judia alemã, como as de outras partes do mundo, engloba vários tipos de correntes, desde progressistas, com uma mentalidade reformista, até ortodoxos, que se atêm com mais rigor à tradição religiosa.

A escola rabínica de Potsdam, fundada em 1999, homenageia Abraham Geiger, um rabino alemão do século XIX e fundador-chave do judaísmo reformista. Devido à tendência mais moderna dos novos rabinos, as comunidades judias mais tradicionais não demonstraram muito entusiasmo pelo acontecimento. Mario Offenberg, diretor da congregação Adass Jisroel, de Berlim, comemorou o acontecimento, mas destacou a existência de diferentes ramos dentro da comunidade judia alemã. “Somos uma congregação ortodoxa e, embora respeitemos está escola, devemos lembrar que pertence à outra tendencia dentro do amplo espectro do judaísmo”, disse à IPS.

Várias versões da imprensa estimam que os judeus que chegaram da Europa oriental e dos países que integravam a União Soviética representam 4% dos integrantes da comunidade alemã. Estes imigrantes foram bem-vindos após a queda do comunismo, sobretudo por causa da grande carga de culpa que tem o país, e receberam benefícios especiais como apartamentos, aulas de alemão e, inclusive, a cidadania. Offenberg enfatizou que a tarefa-chave de sua congregação e das sinagogas de todo o país é o reensino do judaísmo aos imigrantes do antigo campo socialista europeu. “Estas pessoas ficaram isoladas da tradição judia e por isso é necessário reforçar as raízes, para que ‘reaprendam’ a ser judeus”, afirmou.

Estes imigrantes modificaram o judaísmo alemão. Nos anos posteriores ao Holocausto e até a década de 70, os judeus da então República Federal da Alemanha (ocidental) eram conservadores, enquanto a comunidade judia da República Democrática Alemã (oriental e comunista) tinha poucos membros ativos. Mas a imigração em massa de judeus disparou o renascimento do judaísmo alemão ao promover a diversificação e a modernidade. Muitos dos judeus que chegaram nas últimas ondas não se sentem à vontade com a tradição ortodoxa das sinagogas alemãs.

A crescente importância das correntes liberais se viu reforçada pelo fato de os rabinos graduados pertencerem a um seminário reformista. “Com jovens clérigos como tom Kucera, o judaísmo alemão ganha novo rosto”, disse o semanário Die Seit. Antes da cerimônia, tanto Homolka quanto Graumann advertiram que a histórica ordenação de rabinos não implicava que a vida dos judeus havia voltado à normalidade no país responsável pelo Holocausto. O fato de os rabinos terem sido nomeados em Dresde, capital do estado da Saxônia, onde os grupos neonazistas têm mais poder, é uma recordação das divisões dentro da sociedade alemã. “Seria prematura falar de uma normalização”, disse Graumann. “Estamos longe da normalidade aqui, mas, temos uma nova perspectiva”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Jess Smee

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