Kuala Lumpur, 09/10/2006 – O golpe de Estado registrado esta semana na Tailândia parece ter jogado por terra os esforços da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) para promover a democracia e o respeito aos direitos humanos na região. A Malásia reagiu com surpresa diante dos últimos acontecimentos na Tailândia, país que a sociedade civil malaia tinha como exemplo por ter conseguido superar uma era de sucessivos regimes autoritários. Nos últimos 74 anos, a Tailândia sofreu 17 golpes de Estado, o último em 1992, e foi governada por ditadores militares durante 46 desses anos.
Entretanto, apesar dos temores de que os generais golpistas não cumpram a promessa de devolver o poder no curto prazo aos civis democraticamente eleitos, poucos malaios, na verdade, estranham a queda do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, de quem recordam, em particular, suas políticas de mão-dura contra os malaios muçulmanos no sul da Tailândia. No fundo, ficou destroçada a idéia de que a intervenção militar na política havia terminado para bem da Tailândia desde o último golpe de 1992 e de que a democracia já era suficientemente madura para servir de exemplo para outros países da Asean, como Camboja, Birmânia, Laos e Vietnã.
Os outros membros deste grupo de 10 nações – Brunei, Filipinas, Indonésia e Cingapura – também tiveram no passado regimes autoritários ou apoiados por militares. “O golpe militar me preocupoa. Temo que represente um perigoso precedente em um país que deveria ter visto seu último golpe há anos”, afirmou o editor do site de notícias independente Malaysiakini, Steven Gan. “Os generais entregarão o poder aos civis, como estão prometendo? Este golpe significa que os militares vão intervir novamente quando não estiverem satisfeitos com o governo civil?”, perguntou Gan em conversa com a IPS. “Deve haver uma forma mais madura e democrática de resolver as diferenças, e um dos caminhos é através de eleições”, acrescentou.
Ao contrário dos militares tailandeses, que sempre tiveram uma participação na vida política de seu país, as forças armadas da Malásia estiveram confinadas aos quartéis e firmemente sob controle civil. Mesmo nos momentos de maior auge da insurgência comunista nos anos 60, era a polícia, e não os militares, que desempenharam o principal papel. Por isso, é muito preocupante para a maioria dos malaios o fato de militares tailandeses terem derrubado com tamanha impunidade um governo democraticamente eleito. As autoridades malaias agora tentam digerir o significado e o impacto regional do colapso da democracia na Tailândia, e estão especialmente atentas a qualquer mudança na política em relação aos malaios muçulmanos no sul desse país.
“Estou, realmente, surpreso. Não espertava que pudesse haver um golpe na Tailândia”, disse na quarta-feira a jornalistas o primeiro-ministro Abdulá Badawi. “Está forma de mudar um governo não pode ser aceita. Eleições são a melhor proposta”, acrescentou, refletindo a preocupação dos líderes da Asean quanto ao futuro da região. O grupo está imerso em uma campanha para promover os direitos humanos, a democracia e a ação da sociedade civil no sudeste da Ásia, e a Tailândia tinha um importante papel nesse processo. Impulsionada particularmente por Malásia e Tailândia, a Asean havia adotado uma postura firme contra a junta militar que governo a Birmânia. Mas, diante do golpe desta semana, essa campanha certamente sofrerá uma paralisação.
“Sejam quais forem os motivos dos líderes golpistas, esse ato deve ser condenado, com fizeram muitos amigos comerciais e diplomáticos da Tailândia na região”, afirmou o jornal malaio New Straits Times em seu editorial. “É lamentável que os militares tenham restaurado este velho, e mau, habito, que desacredita a própria Tailândia”, acrescentou. “Ainda está por ver-se se os golpistas cumprirão o prometido. Mas, em uma região onde regime autoritários em muitos países cederam o poder às eleições, à democracia e ao império da lei, o que acontece na Tailândia é um retrocesso”, afirmou o jornal. “O golpe é ruim para a Tailândia e para a Asean”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

