Bangcoc, 09/10/2006 – Os lideres golpistas da Tailândia parecem decididos a convencer a população de que é possível construir uma democracia com precisão militar. Nesta segunda-feira, muito antes do prazo que haviam estabelecido, retiraram seus tanques e suas tropas das ruas da capital. As forças armadas da Tailândia cumpriram as promessas realizadas depois o incruento golpe de Estão do dia 19 de setembro, pelo qual tiraram do governo o primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, enquanto se encontrava em Nova York.
Depois, passaram a um segundo plano, após imporem uma constituição provisória e instalar o general da reserva Surayud Chulanont como 24º primeiro-ministro tailandês, até as eleições gerais previstas para outubro de 2007. Os militares pretendem elaborar no próximo ano uma constituição de caráter permanente e conduzir o processo até eleições livres e justas, de acordo com o programa apresentado à imprensa estrangeira pela junta, autodenominada Conselho para a Segurança Nacional.
Surayud, ex-comandante do exército, de 63 anos, designado no domingo para o cargo, tem reconhecidos antecedentes profissionais e como democrata. Mas ao aceitar a nomeação gerou dúvidas sobre sua lealdade ao processo político civil. O líder do 18º golpe de Estado em 74 anos, general Sonthi Boonyaratglin, foi subordinado a Surayud quando este era um militar da ativa.
Outro motivo de questionamentos é que a junta se atribuiu na constituição provisória a faculdade de avalizar a atuação do chefe de governo. Nesse sentido, Sonthi, na qualidade de chefe do Conselho de Segurança Nacional, pode tirar Surayud e designar um novo primeiro-ministro. O Conselho também tem o poder de designar os 250 integrantes de uma Assembléia Nacional Legislativa e determinar seu presidente e vice. Esse órgão supervisionará a nomeação dos dois membros da Assembléia Nacional que, com precondição, deverão aderir à junta.
Esta Assembléia Nacional selecionará o comitê de cem integrantes encarregado de redigir a 18ª constituição do país. “A constituição transitória dá muito poder ao Conselho para a Segurança Nacional”, disse um diplomata europeu durante seminário sobre o golpe do último dia 19, na Universidade Chulalongkorn, de Bangcoc. “Isto não é muito tranqüilizador. O governo interino também está sob a junta”. A Tailândia não pode ignorar o impacto da opinião internacional negativa, disse outro diplomata à IPS. “Este país se comprometeu com a economia mundial e a opinião pública internacional é muito importante”, ressaltou.
Dentro do país há diversos matizes na avaliação, mesmo entre os ativistas e acadêmicos mais preocupados com a democratização e os direitos humanos. “Isto é um retrocesso. É um governo ilegítimo”, disse á IPS o cientista político Giles Ungpakorn, da Universidade Chulalongkorn. “Ninguém se deixará enganar sobre sua suposta legitimidade democrática”. O advogado, ex-senador e ativista pelos direitos humanos Thongbai Thongpao advertiu, em uma coluna publicada domingo pelo jornal Bangcoc Post que os artigos da constituição transitória que estabelecem a participação da junta no gabinete de governo “desbaratam o compromisso de não-interferência” das forças armadas no poder civil”.
O primeiro-ministro Surayud, que integrou no passado o conselho assessor do rei Bhumibol Adulyadej, levou em conta este ceticismo quando, no domingo, fez seu primeiro discurso como chefe de governo. “Aceitei o cargo de líder da administração sem ter passado por um processo eleitoral. Cheguei aqui por designação, para resolver problemas políticos. Nosso futuro será melhor e o poder será devolvido ao povo”, assegurou . A junta conta com o apoio das classes média e média alta. Algumas figuras públicas se dedicaram a defender o golpe, entre eles ex-juízes, ex-diplomatas, ativistas de direitos humanos, jornalistas e acadêmicos.
“Este golpe é um caminho para melhor, em benefício da democracia e da democratização na Tailândia”, disse Suchit Bunbongkarn, ex-integrante do Tribunal Constitucional. “Se a democracia fracassar em sua intenção de resolver questões sociais muito importantes, os tailandeses deverão estar de acordo em que ocorram golpes de Estado no caso de serem realizados com boas intenções”, afirmou. Entre outros argumentos a favor da ruptura institucional, é esgrimida a suposta iminência de choques violentos entre grupos simpatizantes e opositores a Thaksin.
Outras personalidades garantem que um golpe era a única esperança de justiça para a Tailândia, porque Thaksin – afirmam – corrompeu a cultura política e econômica do país. No momento, os cidadãos que defendem o golpe parecem acreditar no general Winai Phattiyakul, alto membro da junta. “Não vamos intervir nem nos envolver no governo”, afirmou este oficial à imprensa estrangeira. “Estamos preparados para aceitar ordens do governo civil. As forças armadas tailandesas são completamente profissionais”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

