Nairóbi, 27/11/2006 – O próximo Fórum Social Mundial será realizado dentro de apenas dois meses na capital do Quênia. Pela primeira vez uma cidade africana será anfitriã única. Este país da África oriental também abriga Kibera, o maior assentamento irregular de casas do continente, por isso se poderia argumentar que não há lugar mais apropriado para realizar o FSM. Que outro país seria melhor para estar perto de uma das comunidades mais afetadas pelas doenças sociais que o Fórum pretende combater? Em Kibera, na região sudoeste de Nairóbi, alguns ainda vêem os preparativos para o FSM do ano que vem com ambivalência.
Em uma reunião com membros do secretariado do fórum em Nairóbi, cerca de cem moradores de Kibera acusaram organizações não-governamentais de ajudarem o assentamento apenas para ganhar credibilidade e arrecadar fundos. Estas entidades não proporcionaram nenhuma melhoria significativa para as vidas das pessoas que moral no lugar, afirmaram. Alguns alegam que, às vezes, inclusive ONGs estabelecidas causam mais prejuízo do que beneficio, impedindo efetivamente que membros da comunidade tenham uma voz em reuniões como o FSM.
“As comunidades são afetadas pela pobreza, pelo vírus HIV/Aids e pelo desemprego”. Mas, raramente ouvimos as vozes dessas pessoas. Por outro lado, são as organizações não-governamentais estabelecidas que falam por elas”, disse à IPS Salim Mohammed, coordenador de programas para Carolina por Kibera, uma organização juvenil dos Estados Unidos. “As comunidades não são tão inocentes que não possam falar sobre seus problemas. Elas sabem onde lhes dói e como querem que sua situação seja abordada. As ONGs podem deixar de usar os problemas dos pobres para enriquecerem? Podemos ver que as comunidades não perdem uma chance de se expressarem a si mesmas em reuniões como o FSM”, acrescentou.
Liderados pelo ativista Cosmas Musyoka, dos moradores pressionaram na reunião do secretariado para que se realize uma reunião em Kibera simultaneamente ao FSM, denominada Fórum Social de Kibera. Uma preocupação-chave é o da propriedade da terra em assentamentos informais, que alimentou as tensões entre os habitantes de favelas, proprietários de terras e autoridades. O governo alega que os assentamentos em terras públicas foram construídos ilegalmente e devem ser desalojados. Mas, moradores dessas comunidades, alguns dos quais não conhecem outro lar, sentem que merecem ser donos da terra e resistem à tentativa para desaloja-los.
As moradias das favelas construídas em terra privada demonstraram ser igualmente polêmicas. A violência estourou entre os proprietários dessas casas e os donos da terra. “Nos assentamentos irregulares ninguém tem garantida a terra onde vive. Por está razão é difícil fazer as pessoas se preocuparem pelo meio ambiente”, disse Mohammed. “Como algu,em pode se preocupar se não tem um espaço para cuidar? Se a questão da propriedade da terra for abordada, então tudo o mais chegará suavemente”, acrescentou. Para Helen Moraa, viúva com quatro filhos, o HIV/Aids constitui um assunto igualmente grave.
“O FSM precisa vir aqui e ver por si mesmo o sofrimento das pessoas soropositivas. Espera-se que a gente coma bem para prolongarmos nossas vidas e cuidar de nossos filhos. Mas, isso é difícil porque não há dinheiro para comprar comida. Inclusive, conseguir uma refeição por dia é um grande problema’, disse à IPS Moraa, ela própria portadora do vírus HIV. “Não conseguimos apoio do governo. Se o FSM puder ajudar, talvez vejamos alguma diferença”, acrescentou Moraa, que pertence ao Grupo de Potenciação de Mulheres de Kibera.
Essa entidade reúne 25 mulheres que vivem com o vírus da Aids e que fazem colares para vender por até US$ 14 cada um. Mas, isto raramente acontece, segundo Moraa. Grace, Akinyi, outra integrante da organização – e também mão de quatro filhos – ainda não sabia o que era o FSM quando a IPS a consultou. “O que é o FSM? É alguma coisa que me trará remédios?”, perguntou. “Meu marido também está doente, como minha filha mais velha de 18 anos, junto com seus dois filhos. Nenhum de nós trabalha. O dono da terra não quer saber se estamos doentes. Ele espera seu dinheiro no final do mês. Não podemos pagar a mensalidade da escola e nossos filhos, que andam pelas ruas”, disse Akinyi.
“Além disso, nem mesmo podemos pagar uma simples comida e somos pessoas doentes e medicadas. Às vezes, os anti-retrovirais não são suficientes, porque não estão disponíveis em todos os centros de saúde”. Acrescentou Akinyu. Os números oficiais colocam a prevalência do HIV entre adultos do Quênia em 6%. Calcula-se que existam cerca de 200 mil pessoas no país precisando de anti-retrovirais para prolongar suas vidas. Deles, apenas cerca de 110 mil recebem os medicamentos.
Kadara Yusuf, oura moradora de Kibera, de 16 anos, tampouco conhece o FSM. “Não sei nada sobre o fórum. Os que participam das reuniões internacionais falam muito, mas, fazem pouco”, disse à IPS. “Se falou muito de Kibera, mas as condições de vida de seus habitantes foram às mesas durante anos. Isto mostra que o mundo não se importa com os pobres. O FSM pode ser uma reunião onde haja menos palavras e muita ação?”, perguntou.
Em geral, informa-se que cerca de 700 mil pessoas vivem em Kibera, uma vasta área de choças com paredes de barro e cloacas abertas onde as famosas “privadas voadoras” do Quênia aterrissam regularmente. Trata-se de sacos plásticos onde as pessoas que não têm instalações sanitárias defecam e depois jogam o mais longe possível. Onyango Oloo, coordenador do Fórum Social do Quênia – capitulo nacional do FSM – disse que este organismo trabalha junto com os habitantes de Kibera para que suas preocupações sejam postas sobre a mesa no FSM 2007.
Fundado como alternativa ao Fórum Econômico Mundial, reunião anual na localidade suíça de Davos que atrai a elite empresarial e política, o FSM foi realizado pela primeira vez em Porto Alegre, em 2001. Reúne uma série de grupos e indivíduos, principalmente da sociedade civil, que se opõem à globalização em suas atuais modalidades. O FSM continuou sendo realizado no Brasil até 2004, quando aconteceu na cidade indiana de Mumbai, retornando à capital gaúcha no ano seguinte. Neste ano, o fórum aconteceu em três cidades: Bamako (10 a 23 de janeiro); Caracas (24 a 29 de janeiro) e Carachi (24 a 29 de março), centro financeiro do Paquistão. Espera-se que cerca de 150 mil pessoas de todo o mundo participem do FSM 20097 em Nairóbi, segundo o comitê organizador. (IPS/Envolverde)

