Comunicações: Fluxo informativo alheio a novo mapa econômico

Rio de Janeiro, 23/11/2006 – A forte expansão do intercâmbio entre países em desenvolvimento estabeleceu “uma nova geografia do comércio” mundial, mas as comunicações não acompanharam este e outros processos que aumentaram a importância do sul, afirmaram participantes de um seminário realizado na última terça-feira no Rio de Janeiro. “Nunca antes a relevância das comunicações Sul-Sul foi tão evidente como é hoje”, afirmou o subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas e alto representante para os Países Menos Desenvolvidos, Anwarul Chowdhury, neste encontro patrocinado pela agência de notícias Inter Press Service (IPS).

Muitos países do mundo em desenvolvimento se converteram em “centros de excelência nos campos da saúde, educação, agricultura, artes e tecnologias modernas”, mesmo assim, e apesar dos avanços da infra-estrutura de comunicação, para eles continua sendo mais fácil se comunicar com o Norte do que com seus vizinhos, acrescentou Chowdhury. O mundo mudou, criando um novo cenário das relações econômicas e políticas, mas os fluxos informativos não acompanharam esse processo, destacou o diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin, recordando o debate ocorrido há 30 anos sobre a Nova Ordem Informativa Internacional, que agora deveria ser reiniciado com um espírito “menos ideológico, mais pragmático”, buscando reduzir o desequilíbrio entre o Norte e o Sul.

Os debates sobre “a nova dimensão das comunicações Sul-Sul e Sul-Norte”, que reuniram cerca de 80 pessoas entre dirigentes da IPS, jornalistas e representantes do governo, de organismos internacionais e organizações não-governamentais, constituíram a Reunião Anual do Grupo de Apoio da IPS. Entre os processos de transformação mundial se destacou a IBSA, a aliança em construção entre Brasil, Índia e África do Sul. Nas queixas contra a grande imprensa uniram-se vários participantes. Os governantes adotam decisões que afetam outros países sem conhecerem suas realidades, baseados em informações que lhes chegam pelos meios de comunicação com “olhos do Norte”, lamentou Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores.

Em sua opinião, há um movimento pela “consolidação da concentração do poder no centro do sistema político internacional”, quer dizer, os países mais ricos, buscando “perpetuar privilégios” em detrimento “da periferia”, afirmou Guimarães. “As tentativas de desconcentração”, como o IBSA e a política externa do atual governo brasileiro, enfrentam grandes desafios, acrescentou. O dinamismo do Sul não parece suficiente para conter essa tendência, já que continua crescendo a diferença de renda entre os países do centro e da periferia, bem como em tecnologia, disse o diplomata brasileiro.

As razões que levaram a Europa a colonizar países do Sul persistem e isso se reflete nos meios de comunicação, segundo Thabo Masebe, diretor do Sistema de Comunicação e Informação do Governo da África do Sul. Para contrapor-se a esse quadro, Dumisani Kumalo, presidente do Grupo dos 77, o maior bloco dentro da ONU, com 132 membros em desenvolvimento mais a China, destacou a necessidade de maior capacitação e intercâmbio para fortalecer a comunicação e propôs a formação de uma rede de difusão de noticias do Sul, sob coordenação da IPS.

No passado, a agência IPS apoiou diversas iniciativas jornalísticas de agências nacionais e outros órgãos de informação do mundo em desenvolvimento, e continua apoiando algumas. Mas, a concentração dos meios cresce em todas as partes, com homogeneização do jornalismo por razões econômicas que sacrificam valores, afirmou Roberto Savio, presidente emérito da IPS. Os jornais perdem 4,5% de leitores por ano em um mundo cuja população cresce 1,8% anualmente, e os leitores estão envelhecendo, acrescentou. Os Estados se mostram “incapazes de formular políticas de informação e comunicação”, disse Savio, destacando a importância de estrutura a sociedade civil para buscar soluções.

O embaixador da Índia, Hardeep Puri, expressou outra visão, destacando que o fluxo informativo no Sul está mudando de forma ainda pouco visível, mas acompanha as mudanças comerciais. Isso se nota no IBSA, com o grande aumento do intercâmbio entre os três países, especialmente entre Brasil e Índia, inclusive com correspondentes brasileiros em seu país, acrescentou. Com o comércio se intensifica o intercâmbio de visitas de governantes entre os dois países, começam os vôos para transportar passageiros de forma mais direta e o diálogo entre organizações da sociedade civil dos dois países, que já existia, tende a aumentar, afirmou.

O brasileiro Francisco Whitaker, ganhador este ano do Right Livehood Award, conhecido como prêmio Nobel Alternativo, comentou a historia e os sucessos do Fórum Social Mundial enquanto da sociedade civil que, impulsionando a ação “em rede horizontal”, promove ações com o lema de que “outro mundo é possível”. O jornalista brasileiro Arnaldo César Ricci Jacob, ex-correspondente da IPS e atual diretor de jornalismo no Rio de Janeiro da Janeiro da Rede Bandeirantes, destacou a importância que tem este meio no Brasil, como fonte de informação de quase toda a população. As sete redes de televisão alcançam 99,6% da população brasileira. Mas, este país é “introspectivo”, seu jornalismo pouco se interessa pelas relações internacionais, afirmou.

O encontro concluiu com Carlos Tibúrcio, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, destacando o surgimento de pelo menos três observatórios da imprensa no Brasil, em um movimento que procura avaliar a responsabilidade do jornalismo. Sua importância cresceu depois do papel que a imprensa teve nas eleições de outubro, que reelegeram Lula, “exagerando” as notícias sobre escândalos de corrupção no governo e tratando como culpados membros do Poder Executivo e do Partido dos Trabalhadores ainda sob investigação parlamentar e judicial, disse Tibúrcio. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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