Buenos Aires, 17/11/2006 – Há três anos surgiu um plano para comunicar entre si as comunidades indígenas de uma província da Argentina, mas rapidamente se formou uma extensa rede que transmite a voz e a visão destes povos originários por mais de uma centena de rádios comunitárias e comerciais do norte do país. “No início, era um projeto para nós, mas, em seguida vimos que era preciso ampliar a audiência para poder influir com nossos problemas na agenda política”, explicou à IPS Germán Díaz, um indígena toba que é chefe de produção e co-apresentador de um dos programas.
Com base na experiência de alguns povos com rádios locais, duas comunidades da província de Chaco criaram a Rede de Comunicação Indígena (RCI) que hoje se expande por Tucumán, Jujuy, Salta, Santiago del Estero, Formosa, Santa Fé, Entre Rios, Misiones e Corrientes. A partir das duas organizações indígenas originais logo passaram a ser quase 60, e, de uma única instituição indígena que os apoiava, agora são 70, muitas ligadas às igrejas e aos meios de comunicação comunitários. As rádios comerciais grandes, que são seu veículo, lhes oferecem os espaços gratuitamente.
A idéia recebeu “menção de honra especial” do concurso “Experiências em Inovação Social”, por ocasião da Feira da Inovação, organizada pela Comissão Economia para a América Latina e o Caribe no México, realizada entre os dias 7 e 10 deste mês. A categoria foi criada pontualmente para destacar este projeto. Os indígenas da Argentina, com quase 39 milhões de habitantes, somam cerca de 450 mil pessoas, distribuídas em 25 etnias, segundo dados provisórios da pesquisa complementar de povos originários feita pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos.
Nos últimos anos, os reclamos por seu direito à terra, saúde e educação tiveram maior impacto em meios jornalísticos nacionais e nas províncias. É que “temos correspondentes cobrindo os conflitos, e assim conseguimos mais impacto”, explicou Díaz. Em 2002, as comunidades tinham oito rádios que continuam funcionando e transmitindo 24 horas por dia, algumas em línguas aborígines. Mas, chegam apenas à zona rural. Por isso, com o estímulo da Equipe Nacional da Pastoral Aborígine, da Igreja Católica, e do Instituto de Cultura Popular, se lançaram a um projeto mais ambicioso.
“Queremos mudar o pré-julgamento da sociedade em relação a nós e divulgar nossos problemas”, disse Díaz. O projeto foi elaborar programas de qualidade sobre acontecimentos das comunidades das 10 províncias envolvidas e divulga-los através de 120 rádios com boa audiência. “Há rádios pequenas, comunitárias, que nos pedem para participar de sua programação, mas, no caso das emissoras maiores e comerciais tivemos de ir com muita diplomacia”, admitiu. Através de convênios, a RCI se comprometeu a entregar um programa semanal para que as emissoras transmitam nos finais de semana. “Muitos de nossos irmãos vivem nos arredores das cidades de província e dessa maneira podem nos ouvir”, acrescentou.
Os programas são “Com a voz de nossa gente”, “Raízes milenares” e um bloco de noticias que se integra a um noticiário geral das regiões noroeste e nordeste da Argentina, transmitido pelo Fórum Argentino de Rádios Comunitárias. Os apresentadores, além de Díaz, são a toba Mônica Charole, da província de Chaco; Carmen Centeno, do povoado de Omaguaca de Jujuy, no extremo noroeste, e Sebastián Reyes, da etnia chane guarani na província de Salta, vizinha a Jujuy. Os temas são os problemas da comunidade. “Trata-se do assunto principal que afeta nossas comunidades”, explicou. Mas, também se divulga sobre direitos à saúde, educação e a um meio ambiente são, acrescentou. (IPS/Envolverde)

