Cuba: Os 80 anos de Fidel, sem Fidel

Havana, 30/11/2006 – A adiada comemoração pelos 80 anos do líder cubano, Fidel Castro, começou com a presença de aproximadamente 1.500 personalidades de cerca de 80 países e outros tantos representantes de diversos setores deste país, mas com a ausência do homenageado. “Estava diante de um dilema: não podia reuní-los em um pequeno local. Somente no teatro Karl Marx cabiam todos os visitantes, e eu ainda não estava em condições, segundo os médicos, de enfrentar encontro tão colossal”, afirmou Castro em uma mensagem lida na noite de terça-feira, antes do concerto organizado pelo governo para os presentes. A sala, com cerca de cinco mil lugares, se encheu de ansiosos por verem o reaparecimento de Fidel Castro, no poder desde 1959 e há quatro meses ausente da cena pública devido a uma doença.

Agora, a expectativa fica para cada uma das atividades previstas para os próximos dias, mas, a maioria das apostas se concentra no desfile militar do próximo sábado. “A data fixada pelo próprio Fidel para seu aniversario foi 2 de dezembro. Esse é o dia”, disse Rey del García, engenheiro de 42 anos. O desfile militar na Praça da Revolução estará cheio de simbolismo: será no local onde Castro fez a maioria de seus discursos, palco de grandes acontecimentos da Revolução Cubana e da celebração do 50º aniversario do desembarque do iate Granma, no qual Fidel e um grupo de homens viajaram do México a Cuba para iniciar a insurgência que culminou no triunfo de 1º de janeiro de 1959.

Quase todos os rumores nas ruas de Havana apontam nessa direção e asseguram que Castro reaparecerá na Praça da Revolução em traje verde-oliva e que, talvez, abra o desfile sentado em um veículo militar. “Se não aparecer agora, será muito duro”, acrescentou García. Ninguém perde de vista o desfile em uma cidade alterada há mais de uma semana pelos ensaios da primeira demonstração militar em 10 anos. Salvas de artilharia ao amanhecer, ruas bloqueadas ao tráfego e um anúncio de que a Biblioteca Nacional (em um canto da praça) estará fechada por sete dias por causa de detização, são marcas do cotidiano.

As autoridades se mostram cautelosas diante do que qualificam de lenta recuperação do mandatário. A expectativa cresce com o passar do tempo entre os seguidores entusiastas de Fidel, mas, também entre os mais diversos setores da sociedade civil cubana, os grupos da oposição política e, inclusive, entre os que preferem fazer sua própria vida e vivê-la da melhor forma possível, sem se comprometer com ninguém. A IPS soube de fontes próximas ao governo que autoridades do Partido Comunista informaram em uma reunião preparatória com os convidados cubanos para os festejos que Fidel Castro estará presente no desfile militar, que deverá durar cerca de uma hora.

Enquanto o ministro da Cultura, Abel Prieto, dizia que “não podia afirmar nada”, a primeira mulher do pintor Oswaldo Guayasamín, Maruja Monteverde, foi mais otimista sobre a presença de Fidel no encerramento dos festejos: “iremos vê-lo no último dia”, afirmou. Entretanto, na despedida da mensagem de terça-feira Castro deixa uma dúvida no ar. “Me despeço com grande dor por não poder agradecer-lhes pessoalmente e abraçar cada um de vocês”, escreveu o homenageado. A iniciativa da equatoriana Fundação Guayasamín estava prevista para a semana de 13 de agosto, mas foi adiada por Castro no dia 31 de julho em uma mensagem na qual anunciava que havia sofrido uma cirurgia e que sua lenta recuperação o afastaria de suas funções à frente do país.

Agora, passados mais de cem dias, o presidente cubano assegurou sentir-se “sufocado” por tanta homenagem e enviou uma mensagem a todos os participantes das atividades organizadas pela fundação encarregada de preservar o legado do que foi para ele um íntimo amigo, o pintor Oswaldo Guayasamín (1919-1999). Castro não participou do ato de entrega de uma doação de 60 peças gráficas do artista para Cuba, nem da inauguração de uma obra restaurada no centro histórico de Havana, nem ao concerto oferecido por artistas cubanos, mas, tampouco seu irmão Raúl, presidente interino e ministro das Forças Armadas.

Como em tantos outros momentos da história recente, Castro consegue manter sua posição de protagonista apesar de sua ausência. Alem do agradecimento e da inevitável recordação de sua amizade com Guayasamín, Fidel não perdeu a oportunidade de dar mais uma mostra de seu apoio ao presidente da venezuela, Hugo Chávez, e de colocar mais um tijolo no muro de enfrentamentos com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. “Nos encontramos diante de um adversário que levou os Estados Unidos a um desastre de tal magnitude que quase certamente o próprio povo norte-americano não lhe permitirá concluir seu mandato presidencial”, afirmou Fidel, opositor ferrenho da “guerra preventiva” contra o terrorismo promovida por Bush.

Para Chávez, Fidel disse que ao adotar um programa integral de economia de energia poderá se converter “no mais prestigioso defensor mundial do meio ambiente”. O fato de “a Venezuela ser o país com maiores reservas de petróleo é de enorme importância e se converterá em um exemplo que arrastará todos os demais consumidores de energia a fazerem o mesmo, economizando somas incalculáveis de investimento”, assegurou o presidente cubano.

“Se os países industrializados e ricos conseguirem o milagre de reproduzir no planeta, dentro de várias dezenas de anos, a fusão solar, antes destroçando o meio ambiente com emanações de hidrocarbonetos, como os povos pobres, que são a imensa maioria da humanidade, poderão viver nesse mundo?”, disse na mensagem lida. “Temos o dever de salvar nossa espécie”, afirmou Fidel Castro.

A homenagem da Fundação Guayasamín vai até sexta-feira e inclui o encontro “Memória e futuro: Cuba e Fidel”, a exposição “Um abraço de Guayasamín a Fidel” e o concerto “Todas as vozes”, com participação do cubano Silvio Rodríguez e de artistas de vários países. (IPS/Envolverde)

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *