México, 30/11/2006 – Milhões de mexicanos estarão nesta sexta-feira diante de seus televisores e rádios para acompanhar uma novelesca investidura presidencial, precedida por ameaças de golpe. Aos empurrões, legisladores disputam o controle da tribuna do Congresso, onde o presidente eleito, Felipe Calderón, deverá assumir o cargo. Seus seguidores afirmam que pretendem garantir o ato, os opositores asseguram que irão impedir sua realização.
O futuro mandatário afirma que apostará no diálogo em sua administração, de seis anos. Mas, para cumprir esse propósito, escolheu um operador duramente questionado pela esquerda e por organizações defensoras dos direitos humanos. Trata-se de Francisco Ramírez, ex-governador do Estado de Jalisco, que será ministro do Interior. “A política está presa pelos extremos de esquerda e de direita, assim, não há espaço para nenhum acordo ou avanço”, disse à IPS a cientista política Denise Dresser, do Instituto Tecnológico Autônomo do México.
O escritor Germán Dehesa disse que para os meios de comunicação seria um bom negocio transmitir a cerimônia pela modalidade pay per vew. Será “um show” digno da novela em que se transformou a política, acrescentou. As pesquisas indicam que a população acompanha com expectativa os acontecimentos prévios à posse de Calderón, do governante e conservador Partido Ação Nacional (PAN). O ato será o capítulo central de uma agressiva campanha eleitoral iniciada em janeiro, que continuou nas eleições de julho e teve continuidade com as impugnações da esquerda, que considera seu candidato, Andrés Lopes Obrador, vítima de uma fraude que lhe tirou a Presidência.
Obrador, líder do Partido da Revolução Democrática (PRD), a segunda força depois das eleições de julho, foi investido no último dia 20 por seus seguidores como “presidente legitimo”, e reiterou que desconheceria Calderón, a quem chama de “pelele”, e que seus legisladores farão o possível para impedir sua posse. Diante destas ameaças, os legisladores do PAN decidiram na terça-feira ocupar a tribuna do Congresso, enquanto os do PRD responderam tentando desaloja-los. No local houve empurrões e socos, e representantes dos dois lados pernoitaram no local mantendo suas posições.
Sessenta e quatro por cento dos entrevistados se manifestaram contrários à esquerda evitar a transmissão do cargo, segundo pesquisa com 1.010 pessoas feita pelo instituto Ipsos/Bimsa, com margem de erro para mais ou para menos de 3,5%. Está pesquisa mostra que 38% dos consultados “confiam um pouco” e 18% “confiam muito” em que Calderón fará um bom trabalho como Presidente. São proporções muito menores do que as que o presidente que deixa o cargo, Vicente Fox, teve em seu momento, sendo o primeiro a derrotar em sete décadas o histórico Partido Revolucionário Institucional (PRI).
Apesar de Calderón ter ganho as eleições por apenas 0,5%, as preferências entre os dois candidatos tem agora diferença de 10 pontos percentuais, segundo as pesquisas. Depois da impugnação de Obrador, este e seu partido perderam apoio social. “O PRD está esperneando, e é lamentável, pois a sociedade não quer isso, e sim uma esquerda inteligente e institucional, mas, por parte de Calderón tampouco vemos muita inteligência ao nomear como ministro do Interior alguém perigoso e repressor”, disse à IPS patricia Fernández, porta-voz do não-governamental Centro de Direitos Humanos Miguel Agustín Pro-Juárez.
A designação de quem será o ministro da polícia recebeu severas críticas. As organizações de direitos humanos nacionais, bem como as internacionais Anistia Internacional, com sede em Londres, e Human Rights Watch, com sede em Washington, repudiaram a nomeação. Quando foi governador de Jalisco, Ramírez foi criticado e observado por atos de repressão e torturas e por tratar com mão dura os opositores. Como governador, ordenou em maio de 2004 uma dura repressão contra centenas de jovens que se manifestavam na cidade de Guadalajara, por ocasião da Cúpula América Latina e Caribe-União Européia.
A polícia agiu contra os manifestantes, deteve ilegalmente 73 pessoas, torturou pelo menos 19 e submeteu 55 a outros tratamentos degradantes, segundo um exaustivo informe da estatal, mas independente, Comissão Nacional de Direitos Humanos. Ramírez minimizou a importância da acusação e disse que a repressão foi adequada. Alem disso, premiou os policiais acusados de maltratar e torturar os presos. “O novo ministro do Interior não merece nem mesmo o beneficio da dúvida, pois há provas suficientes do tipo de pessoa que é e do total menosprezo que tem pelos direitos humanos e o diálogo político”, afirmou a porta-voz do grupo Agustín Pro-Juárez, ligado à ordem católica dos jesuítas.
Para o senador do PRD Ricardo Monreal, a escolha de Ramírez “é um presságio negro para o país”. O cientista político da Universidade Nacional Autônoma do México, Ulises Corona, afirmou que sua nomeação “é o primeiro grande erro de Calderón, que parece optar mais pela mão dura do que pela negociação”. Mas, Calderón e seu ministro designado reiteraram que seu objetivo central é aproximar-se da oposição e obter acordos. “Uma das primeiras coisas que farei como ministro será procurar Obrador para dialogar com ele”, prometeu Ramírez. (IPS/Envolverde)

