China-Índia: O comércio tudo pode

Nova Délhi, 21/11/2006 – A visita de quatro dias à Índia que o presidente da China, Hu Jintao, iniciou na segunda-feira, reavivou um velho debate se os dois países mais povoados poderiam colaborar entre si para por fim a décadas de desconfiança e inimizade. Os gigantes da Ásia não são apenas o lar de quase 40% da população mundial, mas também se perfilam para se consolidarem como as maiores economias do planeta, junto com os Estados Unidos, em um futuro próximo. Os dois países travaram uma breve e sangrenta luta de fronteira em 1962, mas os vínculos bilaterais começaram um lento descongelamento a partir do final dos anos 80.

Não faltam pessoas nos dois países que suspeitam das intenções do outro para “dominar” o continente e ganhar território. O embaixador da China na Índia, Sun Yuxi, desatou uma controvérsia no último dia 13 quando disse em uma entrevista na televisão que a província indiana de Arunachal Pradesh é, na realidade, território chinês. Suas declarações motivaram duras respostas por parte de vários funcionários de Nova Délhi, encabeçados pelo chanceler Pranab Mukherjee. No passado, Pequim havia expressado seu mal-estar pela ajuda indiana aos que fazem campanha pela independência do Tibet.

Nos últimos anos, os mercados de cidades indianas foram inundados por produtos chineses mais baratos, como, por exemplo, brinquedos, roupas e até imagens de divindades hindus. Muitos comerciantes se sentem ameaçados por estas importações e afirmam que muitos produtos são contrabandeados da China através do Nepal. Funcionários e especialistas em defesa de Nova Délhi não esquecem os estreitos vínculos econômicos e militares entre China e Paquistão, este um histórico rival da Índia na Ásia meridional.

No último ano, apresentando razões de segurança nacional, autoridades governamentais indianas conseguiram bloquear pelo menos dois grandes investimentos de empresas da China em telecomunicações e no desenvolvimento de um porto marítimo. A causa das companhias chinesas foi defendida na Índia por membros dos partidos comunistas, que dão vital apoio à coalizão do governo centro-esquerdista Aliança Progressista Unida, liderada pelo Partido do Congresso. Representantes de Pequim, por outro lado, denunciaram que foram discriminados, apesar de terem apresentado as melhores ofertas para os projetos. Estas acusações foram negadas pelas autoridades indianas.

Os dois países acusam-se mutuamente de dificultar a concessão de vistos a empresários de cada lado. Apesar disso, o comércio entre ambos aumentou de maneira assombrosa, no geral excedendo as expectativas dos governos. O intercâmbio comercial bilateral passou de US$ 260 milhões em 1980 para quase US$ 8 bilhões em 2003, e espera-se que chegue a US$ 20 bilhões durante o atual ano financeiro, que termina em março de 2007, e a US$ 30 bilhões em 2009, segundo um informe da Federação de Câmaras de Comércio e Indústrias Indianas (FICCI). Se estas projeções se materializarem, a China irá superar os Estados Unidos como maior sócio comercial da Índia.

“Com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio abriram-se imensas oportunidades para realizar empreendimentos de risco compartilhado e colaborações em negócios”, diz o informe da FICCI. Um funcionário do Ministério do Comércio e Indústria da Índia, que falou com a IPS com a condição de não ter seu nome revelado, assegurou que, apesar das denúncias de discriminação, foi permitido a dezenas de importantes companhias industriais chinesas se estabelecerem na Índia nos últimos anos. Muitas empresas indianas também se estabeleceram na China a partir dos anos 90, em setores de tecnologias da informação, farmacêutica, indústria automotriz, metais e químicos.

“O crescimento econômico anual de 8% da Índia está se aproximando dos 10% obtidos pela China, e creio que se o competidor de hoje se converter no colaborador de amanhã, será melhor para toda a humanidade”, disse Rajesh Shukla, do Conselho Nacional para Pesquisa Econômica Aplicada, órgão de pesquisa autônomo com sede em Nova Délhi. Gilbert Etienne, professor emérito do Instituto de Estudos Internacionais, com sede em Genebra, que viajou reiteradamente à China e Índia na década de 50, disse à IPS que esses dois países têm muito a aprender um com o outro em matéria de desenvolvimento.

Etienne destacou que, “no início da década de 50, graças à “pax britânica”, as estradas, ferrovias e redes de energia indianas eram superiores e mais caras do que as chinesas, mas graças aos grandes investimentos públicos, a situação se reverteu completamente no final dos anos 70”. O especialista disse que na China rural as práticas agrícolas são muito superiores às aplicadas na Índia. Ao mesmo tempo, destacou que a “China está entre os países que mais desperdiçam recursos naturais” e poderia se beneficiar da Índia. As companhias chinesas estão menos capacitadas do que as indianas para uma expansão no exterior, graças, entre outras coisas, a um melhor manejo do idioma inglês, acrescentou Etienne. (IPS/Envolverde)

Paranjoy Guha Thakurta

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