Iraque: Agricultores abandonados à própria sorte

Bagdá, 17/11/2006 – Enquanto o primeiro-ministro do Iraque, Nouri Al-Maliki, defende sua política agrária, os camponeses pedem desesperadamente ajuda em meio a uma profunda crise econômica e crescente insegurança. Na segunda-feira, o governante destacou diante de lideres políticos o esforço do governo para manter a alta dos preços das colheitas, e incentivou os agricultores a seguirem adiante com seus negócios. “O primeiro-ministro parece não estar consciente dos problemas reais que estamos enfrentando aqui”, disse à IPS Haji Jassim, um agricultor da região de Al-Jazeera, perto de Ramadi, cerca de 100 quilômetros a oeste de Bagdá. “O que ele disse seria bom se os preços fossem o único problema, mas, alguém deve explicar-lhe os outros obstáculos que enfrentamos”, acrescentou.

Jassim disse que um dos principais problemas é a falta de mão-de-obra, “porque a maioria dos homens jovens que não morreu pelas balas dos soldados norte-americanos ou iraquianos está presa ou desaparecida”. O agricultor acrescentou que os problemas de falta de eletricidade, combustível e segurança nos campos e “dezenas mais” deveriam ser conhecidos pelo primeiro-ministro. O regime de Saddam Hussein (1979-2003) costumava comprar colheitas para incentivar os produtores a continuarem plantando. Desta forma, o governo lhes garantia uma venda, independente das más condições do mercado. Inclusive, muitos camponeses gostariam que Saddam tivesse permanecido no poder, pois suas privações econômicas se agravaram durante a ocupação pelos Estados Unidos.

“O que os norte-americanos chamam de regime condenado costumava nos fornecer tudo o que precisávamos. Sementes, combustível, caminhões, colheitadeiras e tudo o que pudéssemos necessitar”, afirmou ali Abdul-Hussein, ex-produtor de arroz da fértil zona rural de Diwaniya, e que agora trabalha como operário na capital iraquiana. “Nos alegra estarmos livres de Saddam, mas agora desejamos ter ao menos a metade dos serviços que ele nos oferecia” acrescentou. A economia do Iraque em seu conjunto foi afetada pela ocupação. Algumas estimativas da taxa de desemprego chegam a 50%, superando de longe os índices do regime do ex-presidente.

“Metade da população está desempregada no Iraque, país habitado em 60% por mulheres”, segundo a Rede Integral Regional de Informação, agência da Organização das Nações Unidas de notícias e análises no âmbito humanitário para a África subsaariana, Oriente Médio e Ásia Central. No ano passado, o Ministério do Trabalho e de Assuntos Sociais do Iraque estimou em 48% a taxa de desemprego. Outro obstáculo para os agricultores é a alta inflação, que chegou a cerca de 70%, segundo o ministro do Planejamento, Ali Baban. Em setembro, Baban disse à imprensa que os preços ao consumidor subiram em todos os itens, incluindo alimentação, combustível, transporte, serviços médicos e remédios, roupa, moradia, móveis e outros artigos essenciais.

Em todo o país, o combustível e a eletricidade, recursos básicos para os agricultores, tiveram alta de 374% no ano passado. Alem disso, os preços do transporte subiram 218%. Assim, o custo de cultivar junto com o crescente aumento dos preços ao consumidor transforma em verdadeiro desafio a sobrevivência dos agricultores. A insegurança é outro grave problema para a produtividade no campo. “Como pode alguém levar sua produção aos armazéns de Maliki?”, perguntou à IPS o agricultor Latid Hameed. “As milícias estão tomando posições e, então, se você é sunita te matam e levam seu dinheiro. Mas, se é xiita, apenas tiram seu dinheiro e te libertam por conta de um resgate”, afirmou.

Um dos primeiros massacres sectários neste país depois da invasão dos Estados Unidos foi cometido por milícias xiitas no mercado de Jameela, na capital, quando morreram 14 agricultores sunitas. Desde então, o mercado está paralisado, porque a maioria dos produtores não se sente segura diante da atividade das milícias. Por outro lado, especialistas em agricultura dizem que a falta de infra-estrutura adequada é outro fator que impede o desenvolvimento rural. “A agricultura no Iraque não vai melhorar no futuro próximo, porque nossa terra está afetada pelo aumento do nível da água subterrânea, causado por uma falha nos sistemas de drenagem”, disse à IPS um professor universitário de agricultura, que preferiu não se identificar.

“A falta de fertilizantes e outros produtos para tratamento do solo também afetou a atividade agrícola. E, quando se consegue encontra-los, são muito caros ou de má qualidade”, acrescentou. Um estudo feito por um instituto econômico iraquiano independente, que será divulgado nas próximas semanas e ao qual a IPS teve acesso, revela que mais de 75% das verduras e frutas consumidas nesse país são importadas da Jordânia, do Irã e da Síria. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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