Iraque: Saída da Bechtel leva as últimas esperanças na reconstrução

Bagdá, 10/11/2006 – A decisão da companhia multinacional de engenharia Bechtel de sair do Iraque deixou a população com a sensação de ter sido traída, já que com sua partida parecem esgotar as esperanças de uma reconstrução. “É muito pior do que na época de Saddam Hussein (1979-2003). Muitos iraquianos querem que ele volte ao poder, agora que sofrem as penúrias da ocupação. Os norte-americanos nos fizeram mais do que roubar nosso petróleo e matar nossa gente”, disse à IPS Nayif Jassim, membro do Partido Comunista. A Bechtel, cuja digressão tem estreitos vínculos com o governo do presidente George W. Bush, anunciou na semana passada que deixará de operar neste país assolado pela guerra.

Essa empresa recebeu US$ 2,3 bilhões do fundo para a reconstrução do Iraque, bem como dinheiro dos contribuintes norte-americanos, mas deixa o país sem terminar a maior parte do trabalho que se propôs realizar. A situação da infra-estrutura iraquiana é mais grave agora do que durante o regime de Saddam, que incluiu 12 anos de sanções econômicas internacionais após a guerra do Golfo de 1991. O coordenador humanitário da Organização das Nações Unidas para o Iraque, Dennis Halliday, qualificou de “genocidas” essas sanções.

Hoje, um lar iraquiano tem, em média, apenas duas horas de eletricidade por dia. O desemprego alcança 70% da população ativa, enquanto 68% dos habitantes não têm acesso à água potável e somente 19% contam com saneamento. Nem mesmo a produção de petróleo atingiu os níveis registrados antes da invasão de março de 2003. A isto se acrescenta uma terrível situação de segurança. Um estudo divulgado pela famosa revista médica britânica Lancet estima que 655 mil pessoas morreram desde a ocupação. A também britânica organização humanitária Medact disse que 70% das crianças neste país morrem por doenças que podem ser curadas, como diarréia e problemas respiratórios leves, e que “das 180 clinicas medicas que os Estados Unidos iam construir até o final de 2005, apenas quatro ficaram prontas, e nenhuma funciona”.

Alem disso, um projeto de US$ 200 milhões para construir 142 centros de atenção primária de saúde ficou sem fundos depois de terem sido construídos apenas 20, desempenho que a Organização Mundial da Saúde qualificou de “vergonhoso”. Os iraquianos se queixam mais agora do que na época das sanções internacionais. A falta de eletricidade aumentou a demanda por gasolina para geradores caseiros. Agora, esse combustível é um dos produtos mais escassos neste país rico em petróleo. “Herdamos um sistema elétrico esgotado nas estações geradoras e redes de distribuição, mas, podemos atender 50% dos consumidores em períodos de muita demanda e uma porcentagem muito maior em dias comuns”, disse à IPS um engenheiro do Ministério de Eletricidade.

“A situação agora é muito pior e parece não melhorar, apesar dos gigantescos contratos com empresas norte-americanas. É estranho como os milhares de milhões de dólares gastos em eletricidade não implicaram nenhuma melhoria, mas, piorando a situação”, afirmou. “O ministério não recebeu equipamentos para suas estações mais velhas e os pequenos transformadores para as redes de distribuição eram de qualidade muito baixa”, acrescentou o engenheiro. O contrato da Bechtel prevê a construção de sistemas de tratamento de água, usinas elétricas, sistemas de saneamento, aeroportos e estradas. Dois ex-ministros iraquianos de Eletricidade foram acusados de corrupção pela Comissão de Integridade, formada sob a ocupação.

Os responsáveis por muitos departamentos de água do país revelaram que os únicos reparos que haviam feito foram por intermédio de escritórios da onu e de organizações humanitárias. O ministério lhes entregou pouco cloro para tratamento da água. Os novos projetos não foram mais do que simples trabalhos de manutenção que muito pouco ajudaram a evitar a deterioração da infra-estrutura. Bechtel foi uma das primeiras empresas, junto com a Halliburton – para a qual trabalhou o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney – em receber contratos por honorários fixos para, assim, garantirem seus lucros.

Ahmed al-Ani, que trabalha com uma grande companhia de construção iraquiana disse que o modelo adotado pela Bechtel estava destinado ao fracasso. Essas empresas “cobraram enormes somas de dinheiro por contratos que assinaram, depois, os venderam a outras companhias menores que, por sua vez, os repassaram a empresas iraquianas com pouca experiência”, disse Ani à IPS. “Essas firmas inexperientes fizeram mal seu trabalho pelo pouco que receberam e pela falta de capacidade”, afirmou. Mas, muitos analistas políticos iraquianos, mais otimistas, vêem a partida da Bechtel por outro ângulo. “Creio que é o início da retirada norte-americana do Iraque”, disse à IPS Maki al-Nazzal.

“Começou com a propaganda de Bechtel e da Halliburton e deveria terminar com sua fuga. Vieram com Paul Bremer (chefe da hoje extinta Autoridade Provisória da Coalizão) e se apresentaram com heróis e salvadores que iriam trazer prosperidade ao Iraque, mas, só o que fizeram foi propaganda norte-americana’. Bush disse a jornalistas durante uma visita ao Iraque, em junho: “Podem medir o progresso em megawatts de eletricidade oferecidos. Podem medir o progresso em termos do petróleo vendido no mercado em nome do povo iraquiano”. Seguindo seu próprio critério, conclui-se que a situação no Iraque está muito pior agora do que durante o regime de Saddam Hussein. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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