Buenos Aires, 05/12/2006 – Os países da América Latina estão se unindo contra a caça de baleias, golfinhos e outros mamíferos marinhos. Está se formando um acordo de 12 países da região pela preservação destes animais, em oposição ao bloco liderado pelo Japão, que defende a captura dos mamíferos. Organizações da sociedade civil que lutam em favor dos cetáceos trabalham “de mãos dadas” com representantes governamentais para “superar a derrota” sofrida pelo bloco conservacionista na última reunião da Comissão Baleeira Internacional (CBI), realizada em junho em San Cristóbal e Nevis, explicou à IPS a ativista Roxanaq Schteinbarg.
Embora nessa oportunidade tivessem sido mantidas as restrições mundiais à captura de baleias com fins comerciais, decididas em meados da década de 80, o Japão conseguiu captar a vontade de 50% mais um dos países com voto nessa comissão para uma declaração a favor da ampliação da caça. Schteinbarg denunciou que o Japão “recruta pequenos países pobres do Caribe para que votem a favor da caça comercial em troca de subsídios pesqueiros”, por isso há o temor de que na próxima reunião da CBI, em maio, no Alasca, Tóquio consiga dois terços dos votos para por fim às restrições.
A possibilidade de um acordo regional surgiu do Encontro Latino-americano para a Conservação dos Cetáceos, que de maneira inédita reuniu na sexta-feira, em Buenos Aires, delegados perante a CBI de Brasil, Argentina, Chile, Guatemala, México, Panamá e Peru, junto a observadores da Colômbia, Equador, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. “Foi uma reunião sem precedentes que consolida a América Latina como bloco a favor do uso não letal dos cetáceos”, disse Schteinbarg, coordenadora do Instituto de Conservação de Baleias (ICB).
Os participantes expressaram sua rejeição à captura com fins comerciais e para pesquisa científica letal, e concordaram quanto à necessidade de incentivar o desenvolvimento da indústria de avistamento que, para os especialistas, supera amplamente os benefícios econômicos e ambientais proporcionados pela prática questionada. O embaixador Jorge Berguño, representante do Chile na CBI, alertou que a caça indiscriminada de baleias “colocou esse animal à beira da extinção”. Já o delegado do México, Lorenzo Roja, explicou que “não se trata de defendê-las por serem bonitas, mas por seu papel no ecossistema mundial”.
Nunca antes um bloco regional conservacionista havia se reunido para fazer frente à pressão de países que defendem a caça de baleias, principalmente Japão, Islândia e Noruega. Além disso, em linha com a necessidade de comprometer a América Latina nesta campanha promove-se a incorporação de países da região à CBI. “Trabalha-se para conseguir que Costa Rica e Uruguai voltem à Comissão e, também, que se somem como membros plenos Colômbia, Equador e Venezuela, que hoje participam como observadores”, insistiu a coordenadora. “Assim, na América Latina teremos os votos necessários para obter maioria na CBI”, acrescentou.
Após o encontro na capital argentina, os delegados latino-americanos apresentaram suas conclusões a representantes do IBC, da Fundação Cethus, da Organização para a Conservação de Cetáceos do Uruguai, e da Sociedade Mundial para a Proteção Animal do Brasil. “Os países conservacionistas estabeleceram iniciar conversações para um acordo regional de uso não letal desses animais, e para seguir adiante com a idéia de criar um santuário para as baleias no sul do oceano Atlântico”, afirmou depois da reunião o embaixador argentino, Eduardo Iglesias, comissionado junto à CBI. Iglesias, que foi presidente da comissão em 1983, considerou que um acordo entre os países da região “reforçará sua posição” conjunta nesse organismo.
A CBI é o órgão internacional que regulamenta a caça de baleias desde 1946 e conta com 71 países-membros. Entre as medidas que pode tomar está a proteção total de espécies, a demarcação de santuários onde a caça fica proibida, e, ainda, incentivar a pesquisa científica. Embora tenha sido criada a instâncias de países dedicados à caça, a Comissão logo incorporou Estados que defendem a proibição dessa prática e o aproveitamento sustentável desses mamíferos para a pesquisa não invasiva e a atividade turística de avistamento, que mostrou ser muito lucrativa para as nações em desenvolvimento.
As incorporações forçaram o organismo a sancionar restrições à caça de baleias em todo o mundo, somente permitidas para fins científicos. As nações que defendem esta prática reclamam o fim da proibição, mas, no entanto, continuam caçando sob o pretexto de “fins científicos”. Os países conservacionistas alertam que desde o século XVII até hoje o número de exemplares de baleia franca austral caiu de 200 mil para 6.500, e acrescentam que, por outro lado, o avistamento mobiliza recursos no valor de US$ 1,5 bilhão em 90 países, além de permitir a recuperação das espécies e a biodiversidade. Na Argentina, o número de visitantes que chegam ao austral Puerto Madryn para a prática de avistamento de baleias aumentou de 17 mil , em 1991, para cerca de 100 mil, hoje em dia.
Em novembro de 2005, coincidindo com a partida de uma frota japonesa para caçar baleias com fins científicos na Antártica, 13 países do hemisfério Sul mais a Espanha assinaram a “Declaração de Buenos Aires”, na qual insistiram na continuidade da suspensão e reafirmaram o uso não letal dos cetáceos. O grupo, integrado pelos países latino-americanos, além de Austrália, Espanha, Nova Zelândia e África do Sul, também decidiu criar uma instância de negociação regional para coordenar políticas de proteção nos próximos encontros da CBI. A reunião de Buenos Aires é produto dessa instância. (IPS/Envolverde)

