Cochabamba, 11/12/2006 – Um novo modelo de integração que priorize as pessoas, o uso razoável dos recursos naturais e a redução das diferenças sócio-econômicas entre os países da região foram os objetivos traçados na II Cúpula da Comunidade Sul-americana de Nações, que concluiu no sábado. Temos a oportunidade de fechar “as veias abertas da América Latina”, disse o anfitrião do encontro, o presidente da Bolívia, Evo Morales, parafraseando o escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Durante três horas, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva; Michelle Bachetle, do Chile; Bharrat Jagdeo, da Guiana; Nicanor Duarte, do Paraguai; Alan García, do Peru; Tabaré Vázquez, do Uruguai, e Hugo Chávez, da Venezuela debateram o complicado cenário da integração. A eles somaram-se o vice-presidente da Argentina, Daniel Scioli; o vice-presidente do Equador, Alejandro Serrano, e a chanceler da Colômbia, Maria Consuelo Araújo.
Ao encerrar as sessões da Cúpula de dois dias, os presidentes assinalaram que o momento histórico que concedeu o poder político a governantes com grande apoio popular abre a possibilidade de vencer as barreiras burocráticas da própria diplomacia para colocar em marcha um processo amplo de integração. “Todos coincidimos que as pessoas, os povos, devem ser o centro da integração, e, ainda, que as grandes desigualdades de uma região tão rica é um problema a resolver”, diz um documento final. Mas, durante o encontro ficaram evidenciadas diferenças entre os mandatários.
Enquanto Morales defendia uma articulação dos dois mecanismos de integração regionais, o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a Comunidade Andina de Nações (CAN), Chávez rejeitava essa possibilidade. “Prefiro olhar para o futuro. Creio que a CAN, com todo o respeito, não serve. Sou obrigado a dizer, e creio que tampouco o Mercosul”, disse o presidente venezuelano. Está foi uma das divergências que saíram à luz durante o encontro dos líderes sul-americanos, entre os quais há alguns mais abertos do que outros a investimentos estrangeiros.
A presidente Bachelet, do Chile, falou das duas faces da globalização. Na parte negativa incluiu o desemprego e a destruição das formas de vida tradicionais, mas, destacou com maior ênfase as oportunidades do mercado para obter benefícios para a população. A globalização é “outra carta de oportunidade histórica aproveitável. Como comunidade permitirá que nos abramos e alcancemos grandes benefícios para as pessoas”, afirmou, sustentando que é possível atenuar os riscos dos efeitos negativos aplicando mecanismos que os neutralizem.
A questão dos investimentos levou o presidente Lula a revelar que setores da direita brasileira lhe pediram para declarar guerra à Bolívia, depois da nacionalização dos hidrocarbonetos decidida em maio pelo governo de Morales, incluindo as concessões da Petrobras. “Compreendi com orgulho o valor da soberania de um país para decidir sobre seus recursos naturais”, disse o presidente ao justificar sua decisão de se voltar ao diálogo e à negociação em lugar de uma confrontação bélica com seu principal fornecedor de gás natural, que diariamente exporta 26 milhões de metros cúbicos desse recurso.
Lula procurou apresentar-se como o construtor de uma nova era de integração e revelou que foi o artífice de uma aproximação entre Bolívia e Chile, países que mantêm uma histórica diferença limítrofe. O presidente marcou uma diferença com os processos de integração passados na região, nos quais, segundo ele, se competia por uma aproximação maior com os Estados Unidos. Hoje, Lula observa um cenário político onde seus principais atores são os presidentes eleitos pelo voto popular e com uma tendência de esquerda.
Entretanto, disse: “Não estamos fazendo o que devemos fazer, e não podemos negar nossa responsabilidade diante da possibilidade de concretizar a integração física, política, de saúde e educação da América do Sul. Não existe uma saída individual para os problemas da região. Ou conseguimos a integração econômica, política, comercial, industrial e cultural ou não teremos possibilidades de enfrentar o futuro”, alertou Lula. “Os presidentes que participam da Cúpula não podem falhar com os pobres”, ressaltou. Os mandatários aprovaram uma proposta do presidente brasileiro de eleger Cochabamba como futura sede do Parlamento Sul-americano.
Por sua vez, Alan García propôs o investimento de US$ 2 milhões em programas de integração educacional e sugeriu que todos os países unifiquem seus sistemas de ensino para que os estudantes da região possam continuar seus estudos secundários e acadêmicos em qualquer nação sul-americana. “Além da integração energética, da cooperação financeira, sobre migrações, identidade cultura e proteção ambiental, deve-se promover um espírito de fé estudantil na integração. Do contrário, tudo está perdido”, disse o presidente peruano. (IPS/Envolverde)

