Desafios 2006-2007: América Latina e o enigma da esquerda

Rio de Janeiro, 27/12/2006 – A onda de governos que se dizem de esquerda na América Latina, consagrados em 12 eleições realizadas nos últimos 13 meses, não chega a constituir um movimento regional nem a indicar um rumo homogêneo. Trata-se de processos e lideranças muito diferentes, sendo que alguns analistas nem chegam a classificar de esquerdistas.

 - Governo de Bolívia

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“A nova esquerda não se chama esquerda, mas social-democracia”, disse Marta Lagos, diretora-executiva do Latinobarômetro, em uma tentativa de precisar uma definição.

A ênfase dos governos está na “construção de redes sociais de apoio aos mais necessitados da sociedade”, mas sem rupturas e, em sua maioria, assumindo orientações econômicas conservadoras, observou Lagos. “A denominação de esquerda confunde a opinião pública”, porque é um conceito que vem da Guerra Fria dos anos 60, associado a “movimentos revolucionários de Che Guevara; ao governo de Salvador Allende, no Chile, e à própria Revolução Cubana”, explicou à IPS.

São social-democratas, em sua avaliação, os governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva; Néstor Kirchner, na Argentina; Michelle Bachelet, no Chile, e Tabaré Vázquez, no Uruguai. “O único governo mais à esquerda seria o boliviano, do presidente Evo Morales, por promover “a refundação” nacional, embora “a partir do sistema democrático”, o que o afasta da esquerda dos anos 60”. Quanto ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, “não o qualifico de extrema-esquerda nem de social-democrata, porque é um populista”, disse a economista que dirige o Latinobarômetro, organização não-governamental chilena que anualmente pesquisa em 18 países latino-americanos a opinião e o comportamento do público.

O populismo “é a característica dominante” em sua liderança e em suas políticas, afirmou Lagos, dando como exemplo o programa de educação pelo qual “se entrega um diploma do ensino secundário completo a qualquer pessoa” que se inscreve no programa e que pode, inclusive, ser analfabeta. Isso causa confusão e distorce o mercado de trabalho, ressaltou. Para Tullo Vigévani, cientista político e professor de relações internacionais na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), “cada caso é um caso”.

Os governos que a imprensa qualifica “genericamente de esquerda” têm origens e características distintas, por isso não são comparáveis, acrescentou Vigévani. Nem mesmo se assemelham aos governos apontados como próximos. O de Evo Morales tem um caráter étnico e promove o “o acesso ao Estado de indígenas marginalizados há 500 anos”, enquanto Chávez procede de “um grupo militar que estabeleceu fortes laços com grande parte dos pobres”, destacou o especialista. Tampouco se pode falar de esquerda “em uma análise rigorosa, acadêmica”, já que esses governos não respondem a um movimento nem a projetos socialistas, “de igualdade social e coletivização dos meios de produção”, acrescentou Vigévani, que também é pesquisador do não-governamental Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec).

Há governos de origem esquerdista, como é evidente no caso da Frente Ampla no Uruguai, formado por comunistas e socialistas, mas cuja “política não é de esquerda”. Também no Brasil, o Partido dos Trabalhadores tem uma maioria de esquerda, inclusive marxista, que não consegue hegemonia no governo, lembrou Vigévani. É o “paradoxo da história contemporânea”, tempos em que inclusive o fato de haver países governados por partidos comunistas, como China e Vietnã, não permitem dizer que a Ásia tende à esquerda, mas muito ao contrário.

“A força do liberalismo, a organização produtiva e o sistema internacional tiram visibilidade da aplicação do ideário esquerdista” nesses países, acrescentou Vigévani. Os governos eleitos recentemente não apontam para “uma situação estabilizada” e “são processos muito ligados a personalidades”, que podem mudar nas próximas eleições, lembrou o especialista. De todo modo, identificou uma tendência comum “de populações marginalizadas conseguindo acesso ao Estado e voz própria na política, com maior capacidade de pressionar”.

Porém, Marcos Novaro, sociólogo e professor da Universidade de Buenos Aires, identifica, “pelo menos, dois modelos de esquerda em ascensão” na América Latina, um “populista, anti-imperialista, anti-Estados Unidos e anti-neoliberal”, e outro “social-democrata moderado”. No primeiro estão Chávez, Morales e López Obrador, o candidato mexicano que questiona sua derrota nas eleições presidenciais por pequena margem. Sua expressão mais evidente, o “chavismo”, compreende “riscos para a estabilidade institucional”. Mas o modelo moderado também enfrenta problemas, como o de se diferenciar de governos de centro ou de centro-direita “que fizeram administrações econômicas eficazes”, como no Brasil e no Chile, acrescentou Novaro. “A longo prazo, este segundo modelo é mais eficaz”, acrescentou.

Segundo Novaro, Kirchner cultiva a ambigüidade, pois “joga na versão social-democrata e no anti-imperialismo chavista”, dependendo de seu interlocutor. Nesse sentido, o presidente argentino ataca os investimentos estrangeiros e as companhias internacionais junto com seus vizinhos, mas convoca investidores e promete colaborar na luta de Washington contra o terror, observou o especialista. Dessa forma, “tira proveito dos dois modelos, sem pagar os custos de um e outro”, evitando críticas, até que surjam contradições e a prática deixe de ser confiável, pois, então, “pagará os custos juntos”, previu Novaro.

Apesar da heterogeneidade e de insuficiências, é “positiva” a existência de muitos governos com “preocupação social”, que pretendem “distribuir renda dentro do capitalismo”, depois de 30 anos de ditaduras e neoliberalismo”, disse Dulce Pandolfi, historiadora e diretora do não-governamental Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase). Nestes governos convergem as idéias social-democratas e a doutrina social da Igreja Católica, cujo movimento tem bases espalhadas em muitos países, onde apareceram novos atores, como os povos indígenas, e se destacam diferenças. Por exemplo, seria inimaginável um Chávez no Cone Sul, onde os militares se desgastaram no exercício da ditadura, observou Pandolfi.

A onda social-democrata na América Latina se deve ao fato de suas bandeiras coincidirem com os problemas da região: pobreza, desigualdade e desemprego, explicou Marta Lagos. Isso permitiu vitórias por maiorias sólidas que asseguram a democracia. É um processo que vem da década de 60, com suas “revoluções” e “autoritarismos”. Os atuais governos resultam de uma transição para a instalação de estruturas, regras, partidos e “um profundo processo de democratização, de alternância de elites”, que se reflete no triunfo dos atuais presidentes, especialmente na América do Sul, resumiu a diretora do Latinobarômetro.

Tal como a palavra esquerda, também a América Latina fomenta o “engano”, fazendo crer que “existem mais semelhanças do que há realmente, porque a cada dia há mais diferenças entre os países ou grupos de países da região, desde o fim do autoritarismo”, ressaltou Lagos, recomendando “distinguir fenômenos que correm em dois, em três países”. Além das especificidades, “a integração política da América Latina é um sonho que está muito distante”. A democratização “produziu a introspecção dos países”, concentrados na solução de seus problemas internos. Por isso, uma integração efetiva terá de “esperar pela consolidação desses processos em alguns países”, concluiu Lagos. (IPS/Envolverde)

* Com as colaborações de Marcela Valente (Argentina) e Daniela Estrada (Chile).

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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