Desenvolvimento: A chave da globalização está na América Latina e na Europa

Madri, 14/12/2006 – A América Latina e a Europa podem e devem desempenhar um papel-chave para que a globalização adquira um caráter positivo, segundo o ex-presidente de Portugal, Mario Soares, e o ex-diretor-Geral da Unesco, Federico Mayor Zaragoza. Soares, também presidente do Conselho Diretor da IPS, ex-primeiro-ministro português (1986-1996), e Zaragoza, membro do Conselho Internacional Consultivo desta agência de notícias e presidente da Fundação para uma Cultura de Paz, são os autores do livro “Um diálogo ibérico no contexto europeu e mundial”.

A obra foi apresentada na cidade espanhola de Barcellona pelos ex-presidentes da Comunidade Autônoma da Catalunha, Jordi Pujol e Pasqual Maragall, e pelo escritor português, José Saramago, prêmio Nobel de Literatura. Soares disse à IPS que a intenção de fazer este livro dialogando é que Espanha e Portugal, como membros da União Européia, demonstrem aos seus sócios que “a América Latina é um aliado natural e de extrema importância para a Europa”. Nesse plano, “portugueses e espanhóis, com longa relação com a América Latina, devem ter uma estratégia convergente para conduzir a UE a se ocupar dessa região e ser solidária com ela”, acrescentou.

Zaragoza destaca no livro que a Europa pode chegar a ser um grande avalista dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e que para isso deve recuperar os princípios democráticos de seu passado. E a esse respeito adverte que “o grande poeta Antonio Machado disse que é coisa de tontos confundir valor e preço”. Os ODM foram adotados pela comunidade internacional em 2000 com a declarada intenção de abater definitivamente, a fome, a pobreza e a desigualdade em todo o mundo, melhorar substancialmente a saúde infantil e materna e a educação, acabar com as injustiças de gênero e conseguir um compromisso global com o desenvolvimento sustentável e o comércio justo.

“Não se deve continuar olhando para o lado enquanto continuam sendo quebradas as recomendações, avalizadas pela comunidade científica, em relação ao meio ambiente, à saúde do mar e da terra, à atuação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial dos bancos regionais”, acrescenta Soares. Essas instituições “estão a serviço dos países mais prósperos, enquanto a existência de paraísos fiscais continua amparando os tráficos de armas, drogas e pessoas e as atividades das grandes corporações multinacionais em meio à maior impunidade”, prossegue. Soares destaca no livro que não basta denunciar o mau, mas é preciso indicar caminhos. Assim, “os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são excelentes, mas, não sendo cumpridos, representam uma piedosa intenção”.

Zaragoza, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) entre 1987 e 1999, diz que “somente a Europa pode, agora, liderar uma transformação urgente das Nações Unidas, desde a hegemonia e a plutocracia para a democracia. Ativar o multilateralismo e dotar o mundo do contexto supranacional que a ONU representa. Só assim os Objetivos do Milênio podem ser cumpridos”.

O ex-presidente de Portugal assinala que “o neoliberalismo é responsável por estas sociedades sem valores onde florescem o egoísmo, o culto à violência e o princípio do salve-se quem puder: o dinheiro é o que mais conta”. E pergunta: “Será possível impor regras éticas capazes de regulamentar a globalização?”. A resposta e terminante: “A consciência de que a situação atual é insustentável está aumentando. E dois atores, que podem ser decisivos, a sociedade civil e um efetivo sistema das Nações Unidas, vão se perfilando como a solução mais adequada e verossímil”. A está solução, “talvez, mais rápido do que imaginam, deverão recorrer os países que hoje ostentam lideranças mundiais de alguma dimensão”.

Soares insiste que os paraísos fiscais devem ser combatidos, “lugares onde passa muito dinheiro procedente da corrupção, inclusive de respeitáveis multinacionais com sede em países ricos e por onde se integra o chamado dinheiro sujo nos circuitos financeiros que dominam o planeta”. Também se referiu à “vergonha que representa a existência da Política Agrícola Comum da UE e as subvenções concedidas a certos produtores agrários para defende-los da competição dos países da América Latina”.

Zaragoza insiste que a Europa deve atuar para reduzir a desigualdade, pois “fazemos parte dos 20% da humanidade que desfrutam de 80% dos recursos de todo tipo, incluído o conhecimento. Isso significa que os 80% restantes devem viver com 20% dos recursos”. Entre os gastos absurdos destaca o dedicado às armas. “É um macabro disparate e uma irresponsabilidade incrível que o mundo continue vivendo sob a ameaça de 10 mil ogivas nucleares, que é a quantidade que se calcula que existe neste momento”, afirmou.

Sobre está questão, Soraes disse que “o problema do próspero comércio ilegal de armas e a proliferação de armamento nuclear, que constituem um risco imenso para a humanidade, junto à incapacidade que a ONU e as grandes potências demonstram para acabar com esse flagelo, são sintomas terríveis dos imensos perigos que pesam sobre nosso futuro coletivo”. Diante disso tudo, os dois autores concordam que haverá uma revolução mundial para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Zaragoza destaca que “haverá uma revolução que não será armada, as pessoas dirão NÃO”. E citou Saramago, presente ao ato, que afirmou que “não está longe o momento em que ninguém cumprirá as leis, para que o século XXI seja o século das pessoas que, pela primeira vez, podem ter um papel ativo de rejeição ou adaptação”.

Para isso, “devemos convencer todos, em um autêntico movimento mundial, hoje possível graças aos meios de telecomunicações, de que a resignação e a submissão acabaram e que cabe a cada um cuidar do futuro de seus filhos. Passar repentinamente a cidadão depende de cada um que, devidamente motivado, passa de espectador passivo a ator. Graças aos ibéricos foi possível o grande encontro com a América. Agora, os ibéricos devem, graças à sua relação histórica, e, sobretudo à mesma maneira de olhar para o amanhã, facilitar os encontros que levem a um mundo novo”, acrescentou Zaragoza.

O livro termina com duas citações. A do poeta português Fernando Pessoa: “uns governam o mundo… outros são o mundo”, e a do espanhol Miguel Martí i Pol: “tudo está por ser feito e tudo é possível… Quem, senão TODOS?”. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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