Vancouver, 22/12/2006 – O exército do Canadá está em busca de mais recrutas, equipamento mais moderno e aumento de seu orçamento, mas, parte do público se preocupa com o fato de esta tendência colocar em perigo o tradicional papel mediador da nação. A trajetória pacificadora do Canadá começou depois da Segunda Guerra mundial (1939-1945) e se intensificou no final dos anos 50, quando o então primeiro-ministro Lester B. Pearson mediou com sucesso na crise de Suez, tendo por isso recebido o prêmio Nobel da Paz.
O Canadá continuou desenvolvendo esse papel sob o mandato dos governantes seguintes, especialmente do primeiro-ministro Pierre Trudeau (1968-2979 e 1980-1984). É uma missão que o público canadense parece apoiar firmemente. Uma pesquisa feita no ano passado pelo Centro de Pesquisa e Informação sobre o Canadá revelou que 60% dos entrevistados consideravam a manutenção da paz como “uma característica que define” o país. Mas, desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 que deixaram mais de três mil mortos em Nova York e Washington, pediu-se ao Canadá que apóie mais decisivamente a política externa dos Estados Unidos, e, assim, se sentiu obrigado a modernizar seu exército.
Este ano, o governo conservador do primeiro-ministro, Stephen Harper, destinou ao exército US$ 1,1 bilhão para o período de dois anos, como parte de um pacote orçamentário de US$ 5,3 bilhões nos próximos cinco anos. Também decidiu recrutar 13 mil efetivos adicionais para suas forças regulares e outros 10 mil para as de reserva. “O exército do Canadá tem o sétimo gasto em defesa mais elevado entre os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE)”, grupo de 30 países entre os quais figuram todos os do Norte industrializado, disse à IPS Steven Staples, diretor da organização antibélica canadense Ceasefire.ca e membro do Centro Canadense para as Alternativas Políticas.
Ceasefire.com informou que em 1991 o Canadá enviou 1.149 soldados em operações de paz da Organização das Nações Unidas em todo o mundo. No dia 31 de agosto passado, esse número havia caído para 56, embora quantidade de soldados da ONU de todas as nacionalidades tenha aumentado mais de seis vezes nesse mesmo período. “A questão real não são seus recursos, mas que papel queremos que tenham o nosso exército no cenário mundial”, disse Staples. “Foram assinados novos contratos para compra de equipamentos, as forças se expandem, mas, não houve uma discussão pública real sobre o rumo de nosso exército. Queremos que haja”, afirmou.
Para Stples, ao se expandir o exército canadense aumenta sua capacidade de apoiar a agenda de transformação e de alimentar o grupo de pressão formado por contratistas militares e outros “falcões” que têm uma agenda mais agressiva para as forças no futuro. “O orçamento das forças de defesa avança às custas de programas como os de cuidados médicos, infantil e de moradia social, que tradicionalmente refletiram os valores canadenses. Isto é o que realmente está acontecendo e precisamos enfrentar isso”, acrescentou.
“Haverá um aumento de aproximadamente 13 mil soldados e compra de novos equipamentos. O exército do Canadá parece estar ficando cada vez mais em sincronia com os Estados Unidos e movendo-se para uma integração mais profunda com esse país”, disse à IPS a legisladora Dawn Black, do Novo Partido Democrático. Atualmente, o Canadá tem 2.500 soldados na província afegã de Kandahar, ao lado de soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em uma nova ofensiva contra combatentes do movimento fundamentalista Talibã, que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001.
Desde fevereiro morreram nesse cenário bélico cerca de 36 soldados canadenses. Harper disse reiteradamente que não tem a intenção de se retirar do país no curto prazo. “É necessário que a missão em Kandahar mude seu foco, para abordar a necessidade de assistência e reconstrução”, afirmou Black. “Está área vive entre 25 e 30 anos de horror, e cada vez que morre um rebelde aparecem 10 dispostos a morrer. Os conservadores e os liberais tomam um caminho perigoso sem um debate real a respeito do que isto representa para nossa política externa”.
“Kandahar é o baluarte do Talibã, as montanhas próximas que limitam com o Paquistão fornecem refúgio à Al Qaeda (a rede terrorista do saudita Osama bin Laden) e as terras baixas agrícolas são dominadas por barões da droga”, concordou o professor universitário Michael Byers. “Os soldados do Canadá correm cada vez mais riscos, enquanto estas forças imitam suas contrapartes iraquianas usando explosivos e atentados suicidas em estradas e, ao mesmo tempo, se fundem em grupos organizados de guerrilheiros”, afirmou Byers, professor de Política Global e Direito Internacional da Universidade de Columbia Britãnica em Vancouver, ao jornal Tyee da Internet.
“Até certo ponto, os riscos foram exacerbados por táticas de mão-de-ferro dirigidas pelos Estados Unidos, especialmente o uso de poderio aéreo contra aldeias onde se acredita haver membros do Talibã ou da Al Qaeda”, acrescentou Byers. O professor argumentou que o Canadá chegou ao seu ponto de inflexão na missão em Kandahar e que deveria chamar de volta seus soldados. Um recente informe do Instituto Polaris intitulado “Boots on the Ground” (As botas no chão) diz que o Canadá gastou US$ 4,140 bilhões em sua missão no Afeganistão desde 11 de setembro de 2001.
O Afeganistão e suas missões relacionadas representam 68% dos custos da presença militar canadense no exterior entre 2001 e março de 2006. no mesmo período, esse país gastou somente US$ 214,2 milhões, ou 3% de seu orçamento no envio ao exterior de pessoal para missões de manutenção da paz. O Canadá, que já foi um dos 10 principais contribuintes com as operações de paz da ONU, agora está em 50º lugar nessa lista de 95 países. (IPS/Envolverde)

