Iraque: A indústria é outra perdedora

Bagdá, 04/12/2006 – “O Iraque adotou as regras para investimento estrangeiro como queriam as corporações norte-americanas”, disse à IPS a analista Antonioa Juhasz, do Instituto para Estudos Políticos de Washington. A especialista é autora do livro “The Bush Agenda: Invading the World, One Economy at a Time” (A agenda de Bush: Invadindo o mundo, uma economia por vez). Juhasz disse que essas novas leis, que foram parte das denominadas “cem ordens Bremer”, estabelecidas pelo ex-chefe da Autoridade da Coalizão Provisória Paul Bremer, no primeiro ano de ocupação, asseguraram uma grande quantidade de benefícios às empresas dos Estados Unidos.

Estas estabeleciam a “repatriação de 100% dos ganhos obtidos no Iraque por parte das empresas estrangeiras; a propriedade estrangeira de 100% dos negócios no Iraque, incluindo bancos; a privatização das empresas estatais iraquianas, e 100% de imunidade para os contratados e soldados norte-americanos perante as leis iraquianas”. O que se seguiu foi “uma invasão corporativa norte-americana do Iraque”. Muitas empresas voltaram sua atenção para a privatização, também possível graças a Bremer. “Isso ajuda a compreender seu interesse em grandes obras, maior do que em organizar sistemas e fazê-los funcionar”, disse Juhasz.

Em contraste, no regime de Saddam Hussein (1979-2003) houve um grande apoio estatal aos negócios particulares, que facilitava aos iraquianos abrir seus próprios estabelecimentos. Os empresários tinham créditos a juros baixos e permissão para transferir divisas. Também podiam receber terras do Estado para construir nelas. As leis administrativas facilitavam os empreendimentos, e graças a isso a pequena indústria teve seu auge nos anos 70 e 80. As grandes indústrias iraquianas de produtos petrolíferos, fosfato e cimento, bem como a militar, eram, em sua maioria, administradas pelo Estado. As empresas estrangeiras também tinham permissão para instalar fábricas, mas, sob supervisão do governo.

Esse crescimento industrial se reverteu nos anos 90, sobe as sanções econômicas internacionais avalizadas pela Organização das Nações Unidas. As sanções paralisaram o dinar (moeda iraquiana) e diminuíram a capacidade da população de adquirir bens e serviços. A situação dos negócios piorou ainda mais depois da invasão norte-americana em 2003, quando a maioria das fábricas deixou de funcionar. Muitas foram bombardeadas e outras ficaram sem funcionários. Várias também foram saqueadas e nunca puderam voltar a funcionar.

Alguns negócios privados permaneceram, mas os problemas de segurança, a falta de eletricidade e combustível, inflação de 70% e falta de transporte seguro levaram muitos à ruína. O desemprego agora afeta mais de 50% da população economicamente ativa. Milhares de proprietários de negócios e fábricas venderam o que puderam e fugiram para países vizinhos. Os que não o fizeram, agora lamentam. “Costumava ter mais de 30 empregados em minha fábrica de produtos plásticos, já que os negócios eram bons antes da ocupação”, disse à IPS Abbas Ali, de Bagdá. Este ex-empresário afirma que “agora he impossível trabalhar, e tive de voltar ao meu velho emprego de professor. Chegaram a me oferecer US$ 20 mil pelo meu negócio, que agora não vale nada. Culpo a mim mesmo por não ter vendido para fugir, como fizeram muitos de meus colegas que agora vivem em segurança na Síria”.

Entretanto, ainda há fábricas de aço e têxteis que produzem o que podem. O empresário Kais al-Nazzal construiu uma série de fábricas de aço cerca de 60 quilômetros a oeste de Bagdá, perto da cidade de Faluja, e luta para mantê-las funcionando. “Importamos os equipamentos para a produção de aço da melhor qualidade e gastamos milhões de dólares em modernos prédios para atingir os padrões internacionais. Fomos capazes de trabalhar no período da ocupação, mas, temos de admitir que as dificuldades internas nos causam perdas consideráveis”, afirmou.

Muitos dos que trabalham o fazem em poucas fábricas do Estado que podem pagar o salário mesmo quando não produzem nada. “Procuramos trabalhar, mas, a situação geral não estimula. Parece que teremos de esperar por um milagre”, disse à IPS o gerente de uma fábrica estatal de cimento na periferia de Bagdá. A paralisia econômica em que está o Iraque é evidente nos mercados da capital. Cerca de 80% dos bens manufaturados no Iraque eram distribuídos antes da ocupação no mercado de Shorja, no centro de Bagdá. “Agora não existe marcas iraquianas”, disse à IPS o distribuidor de produtos plásticos Johar Aziz.

“Os produtos iraquianos floresceram antes da ocupação, agora, somente são vendidos importados de qualidade inferior, e as pessoas têm de compra-los porque não existe alternativa”, acrescentou Aziz. Os principais centros de compras como as ruas Saadoon e Rasheed, bem com a exclusiva zona comercial de Mansour e o distrito de Karrada, são fantasmas diante do que eram antes. “Costumávamos abrir nossos negócios por, pelo menos, 16 horas por dia, mas, agora abrimos algumas poucas horas por ameaças de segurança”, disse à IPS Duraid Abdullah, dono de uma loja de eletrodomésticos em Karrada. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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