Nova York, 21/12/2006 – A “islamofobia” deixa um rastro de assédio, discriminação e acusações injustificadas contra milhões de confusos árabes e muçulmanos radicados nos Estados Unidos e no resto do Ocidente. As últimas pesquisas mostram que quase a metade dos cidadãos norte-americanos entrevistados tem uma percepção negativa do Islã, e que um em cada quatro assume posições antimuçulmanas “extremas”. Uma das pesquisas, feita pelo Conselho de Relações Islâmico-Norte-americanas (Cair), indica que a quarta parte dos entrevistados acredita com força em estereótipos segundo os quais “os muçulmanos apreciam menos a vida do que outras pessoas” e “a fé muçulmana prega a violência e o ódio”.
Entre 2004 e 2005, as queixas por agressões aos direitos civis contra os muçulmanos – hostilidades, violência e tratamento discriminatório – recebidas pelo Cair aumentaram 29,6%, passando de 1.522 para 1.972. É um recorde histórico desde que está organização tem seu registro. “Algumas vezes se sente asfixiado por estar hoje nos Estados Unidos”, disse à IPS um muçulmano que pediu para não ser identificado. “Não podemos assistir televisão à noite, nem ver a CNN, a MSNBC ou outros canais de notícias sem nos toparmos com apresentadores como Glenn Beck, que semeiam de maneira persistente o ódio, o disparate e a desinformação sobre o Islã e os árabes no horário nobre.
“E se tentamos assistir teleteatros ou comédias, nos bombardeiam com programas sobre o terrorismo árabe ou islâmico… programas como “24”, “Sleeper Cell” (Célula Adormecida), “The Agency”… é muito difícil ser árabe ou muçulmano nos tempos atuais”, lamentou. Depois dos atentados que ceifaram três mil vidas em 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, o Departamento de Justiça lançou uma campanha de detenções e vigilância contra árabes e muçulmanos, ou contra qualquer um que fosse parecido com eles, incluídos os sikhs da Ásia meridional.
Nos meses seguintes aos ataques, cerca de 500 homens foram detidos sem acusação, a maioria sem acesso a advogados ou familiares. O próprio inspetor-geral do Departamento de Justiça confirmou que muitíssimos deles foram mantidos em confinamento solitário e sofreram abusos físicos. Não houve acusações nem condenações contra nenhum dos detidos. Alguns, que residiam nos Estados Unidos com visto vencido ou que haviam cometido outras infrações às leis de imigração foram deportados. Desde então, somou-se uma agressão atrás de outra.
Ahmadi Al Halabi se formou no instituto de ensino médio de Dearbonr, no Estado de Michigan, centro da comunidade muçulmana norte-americana. Alistou-se na Força Aérea e trabalhou como intérprete dos suspeitos de pertencerem à rede terrorista Al Qaeda detidos na base naval de Guantânamo (Cuba). Mas foi acusado de espionagem e passou 10 meses numa solitária antes que as acusações fossem retiradas. Osama Baulhassan e Alí Houssaiky, ambos de 20 anos e naturais de Dearborn, foram acusados de terrorismo na cidade de Marietta, em Ohio. As suspeitas surgiram porque compraram grande quantidade de telefones celulares. Uma semana depois da prisão a acusação foi retirada.
Farroq Al-Fatlawi, que viajava de ônibus para Chicago, foi obrigado a descer com sua bagagem em Toledo (Ohio), depois de dizer ao motorista que havia nascido no Iraque. O ativista Raed Jarrar, natural de São Francisco, foi impedido de entrar em um avião por vestir uma camiseta onde estava escrito, em árabe e inglês, “não nos calaremos”. Seis clérigos muçulmanos foram retirados algemados de um avião da US Airways porque outro passageiro os acusou de agirem de maneira suspeita no aeroporto de Minneapolis, onde estiveram rezando.
As autoridades de segurança do aeroporto os interrogou e em seguida deixou-os em liberdade. A companhia aérea afirmou que sua tripulação agiu de maneira adequada e negou-se a entregar-lhes passagens para o dia seguinte. Os religiosos iniciaram uma demanda judicial contra a empresa. O caso mais notório é o do canadense Maher Arar, sequestrado por funcionários norte-americanos no aeroporto Kennedy, em Nova York, e levado para uma prisão na Síria, seu país de origem, onde permaneceu isolado por mais de 10 meses em uma cela que mais parecia um túmulo.
Ele apanhou, foi torturado e obrigado a confessar inexistentes ligações suas com a Al Qaeda. Uma comissão oficial canadense investigou o caso durante dois anos e concluiu que todas as acusações eram infundadas. Mas o governo norte-americano bloqueou uma demanda judicial de Arar ao assegurar que a realização de um julgamento derivaria na divulgação de segredos de Estado. Com a intenção de bloquear o financiamento de organizações radicais islâmicas, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos apelou para a Lei Patriótica para qualificar instituições humanitárias de terroristas.
Uma vez que essas entidades recebem tal selo de desaprovação, todas suas propriedades podem ser tomadas e suas contas bancárias congeladas. Até agora, as autoridades fecharam cinco organizações humanitárias. Mas não houve nem um processo, nem um julgamento, nem uma condenação. A única acusação formal apresentada até agora ainda não se transformou em processo. Há três meses, agentes federais invadiram os escritórios de uma das instituições de caridade islâmicas mais importantes do país, Life for Relief and Development. Foram apreendidos computadores e registros de doadores. Mas não houve acusações e a organização continua funcionando.
Muitos muçulmanos estão nas filas das forças armadas norte-americanas, mas é difícil algum obter trabalho em agências civis do sistema de segurança nacional. Quando o FBI (Escritório Federal de Investigações), a CIA (Agência Central de Inteligência) e o Departamento de Segurança Interior solicitaram novos analistas, tradutores e intérpretes, muitos árabes e muçulmanos atenderam ao chamado. Mas tiveram pouco sucesso, pois lhes negam o certificado de segurança porque têm amizades e familiares no Oriente Médio e no mundo islâmico.
Entretanto, a histeria desatada pelo 11 de setembro não se restringe aos Estados Unidos. Na Grã-Bretanha, o parlamentar do governante Partido Trabalhista e ex-chanceler, Jack Straw, sugeriu às suas eleitoras muçulmanos tirar o véu islâmico para poder interagir melhor com elas. Depois da bomba contra o metrô de Londres, no dia 7 de julho de 2005, as tentativas do governo do primeiro-ministro Tony Blair para aliar-se com a comunidade muçulmana não tiveram sucesso. “Em lugar de isolar os elementos extremistas, as iniciativas do governo tenderam a por uma cunha entre a população muçulmana e a população em geral”, segundo a organização de investigações Demos.
Na Holanda, outrora considerada a sociedade mais aberta e tolerante da Europa, o governo de centro-direita se propõe proibir por lei o véu islâmico na maioria dos lugares públicos, incluindo tribunais, escolas, trens e até nas ruas. Já a França, afetada no ano passado por revoltas em zonas nos arredores de Paris onde vive grande quantidade de imigrantes do Oriente Médio e do Magreb, proibiu o véu nas escolas públicas.
O ministro Nicolas Sarkozy, que aspira a Presidência francesa, tomou medidas duras tanto contra a imigração quanto contra a enorme comunidade muçulmana. Nesse sentido, disse que se opõe ao “Islã na França”, pois pretende um “Islã da França”. O diretor da Divisão de Direitos Civis do Departamento de Segurança Interna dos eu, Daniel Sutherland, admitiu que o combate ao terrorismo implica “desafios difíceis” no que diz respeito aos princípios defendidos por seu departamento.
Por outro lado, Samer Shehata, professor de política árabe da Universidade de Gerogetown, diz que a situação é “muito simples” de compreender. “A islamofobia bate de frente com os fundamentos nacionais dos Estados Unidos, com o valor de tratar todos com justiça e não discriminar por causa da cor da pele, raça, religião, gênero etc”, disse Shehata à IPS. “Isto é prejudicial para todos os norte-americanos, e também para a reputação dos Estados Unidos no exterior. Uma das perguntas que mais me fazem quando viajo ao Egito e a outros países do Oriente Médio é: Como é para um árabe viver hoje nos Estados Unidos? Você é vítima de discriminação ou abuso?” (IPS/Envolverde)

