Arbil, Iraque, 22/12/2006 – Em meio à violência e à resistência à ocupação norte-americana, os esforços no Iraque para uma reconciliação entre as diferentes seitas e facções políticas desmoronaram. A Conferência para a Reconciliação Nacional, realizada no último fim de semana em Bagdá, teve o resultado contrário ao esperado: deixou mais evidente a falta de consenso entre os diversos grupos. O pedido do primeiro-ministro xiita, Nouri al-Maliki, para que regressassem ao país os membros do dissolvido exército do regime de Saddam Hussein (1979-2003) teve boa recepção durante a reunião, mas a ausência de importantes grupos armados sunitas foi um duro golpe para está iniciativa de paz.
Acredita-se que diversos elementos leais ao partido laico e secular Ba’ath, de Saddan Hussein, constituem uma parte importante da resistência contra a ocupação. Os líderes sunitas reclamam a revogação das leis que proíbem aos membros desse partido ocupar cargos oficiais. A posição de Maliki a respeito foi confusa e ambígua. “A reconciliação nacional compreende todos os iraquianos, salvo os seguidores de Saddan e takfiris (extremistas sunitas)”, disse o primeiro-ministro na reunião. Mas afirmou que “o governo iraquiano distingue entre os membros do partido Ba’ath que não cometeram crimes contra o povo e os que cometeram e ainda continuam derramando sangue e praticando atos terroristas e assassinatos”.
Importantes grupos de parlamentares boicotaram a conferência, incluindo a lista Al-Iraqia, do ex-primeiro-ministro interino Ayad Allawi; a sunita Frente Nacional pelo Diálogo, liderada por Salih al-Mutlak, e o bloco leal ao clérigo Muqtada al-Sadr. Isto, somado à permanente violência, gera dúvidas sobre a conferência ter resultados concretos. “Me parece que nem está em outras conferências similares poderão resolver facilmente os problemas atuais”, disse a IPS o especialista político Khasro Pirbal, de Arbil. “Quando participam pessoas que não se toleram, o que se pode esperar?”, afirmou.
Pirbal acrescentou que os “países vizinhos transformaram o Iraque em um terreno para saldar velhas contas” e que a tensão atual “faz parte de um problema histórico para o qual agora contribuem atores regionais e internacionais”. Os próprios líderes políticos admitem que suas diferentes visões de país são um obstáculo à paz. “Teos que reiterar que a reconciliação nacional não incluirá de forma alguma as figuras emblemáticas do Ba’ath e de seu regime, nem criminosos, assassinos, terroristas, takfiris e suas prolongações ideológicas’” disse na Conferência o presidente da Aliança do Curdistão, Fuad Massoum.
O líder curdo se mostrou a favor de uma solução federativa, à qual se opõem muitos dentro e fora do Iraque. Sob esse sistema, as regiões teriam maior autonomia em um Estado com estrutura flexível. Enquanto essa idéia é compartilhada pela maioria dos políticos curdos e xiitas, os sunitas propõem outra via de reconciliação. “Pedimos que seja reconsiderada a decisão de ignorar os militares do regime anterior; se lide com a resistência nacional, diferenciando-a dos terroristas, e que se preserve a unidade estatal”, disse Salim Abdullah, da Frente do Acordo Iraquiano, o maior grupo sunita.
O desacordo político se traduz em conflitos sangrentos que ameaçam desatar uma guerra civil declarada. Os sunitas acusam as milícias xiitas de seqüestros em massa contra membros de sua comunidade e de atacar seus bairros. Nos postos de controle, os xiitas podem deter uma pessoa cujo nome soe como sendo sunita. Neste momento, chamar-se Omar e Othman, nomes típicos desse ramo do Islã, pode custar a vida de alguém. Por sua vez, os xiitas respondem que extremistas sunitas explodem bombas em seus bairros, no mês passado, quase 200 pessoas morreram em um ataque suicida em Cidade Sadr, populoso bairro xiita de Bagdá.
Washington pressiona fortemente o governo do Iraque para que controle a situação. Analistas alertam que se a administração de Maliki não conseguir isso em curto prazo, o conflito se propagará a outras partes do Oriente Médio. “A crise no Iraque se aprofunda dia a dia, e o essencial da integridade do país está desmoronando”, disse à IPS Fattah Zakhoyi, do Partido dos Trabalhadores do Curdistão e integrante do parlamento curdo. “Os líderes políticos e religiosos do país têm de perceber que está guerra não pode mais continuar e que vai ofuscar os interesses de seus eleitores e os seus próprios”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

