México, 15/01/2007 – A imagem de liderança que o México teve na América Latina até meados dos anos 90 se tornou opaca e até conflitiva. Mas, agora, um novo governo conservador, que a oposição considera ilegítimo, tende retomar posições. Em sua primeira viagem ao exterior, o presidente Felipe Calderón participou, na quarta-feira, da cerimônia de retorno ao governo da Nicarágua do ex-guerrilheiro Daniel Ortega, e nesta semana visitará El Salvador. No contexto destas viagens, afirmou que “nossa essência e nossa substância, nossa história, nosso passado e nosso futuro, sabemos, está na América Latina”.
Calderón, que em 1º de dezembro substituiu seu correligionário Vicente Fox, em uma reunião com sua equipe de política externa, na terça-feira, exortou que sejam adotadas posições de liderança internacional e aproximação com ênfase aos países latino-americanos. A chanceler, Patricia Espinosa, por sua vez, declarou que o México trabalha para restabelecer seus vínculos com Cuba e Venezuela. O novo governo do Partido Ação Nacional pretende colocar este país novamente como um ator de iniciativas de cooperação e conciliação na região, disse à IPS Estela Tello, especialista em questões internacionais e catedrática universitária.
Segundo Tello, o México parece que abandonará “ a linha de fogo” em que se colocou nos últimos anos ao se envolver em choques e assumir posturas definidas frente às periódicas escaramuças que surgem entre governos latino-americanos e os Estados Unidos. O governo Fox (2000-2006) teve vários atritos com Havana e Caracas, a ponto de as relações bilaterais com esses governos serem manejadas há mais de um ano apenas em nível de encarregados de negócios. Também registrou atritos menores com Argentina e Chile e se distanciou do Brasil, todos governados por centro-esquerdistas.
Em sua visita à Nicarágua, Calderón trocou amáveis saudações com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o único da América Latina ter se negado a reconhecer seu governo com o argumento de que a esquerda mexicana o considerava produto de uma fraude eleitoral. Até agora, parte da coalizão de esquerda que apresentou como candidato à Presidêncai do México o ex-prefeito da capital, Andrés López Obrador, se nega a reconhecer Calderón como presidente. Entretanto, outro setor desta corrente aprova sua investidura desde que a autoridade eleitoral confirmou sua vitória por apenas 0,58% dos votos. Ao se referir à sua política externa, Calderón afirmou que não aceita para o México “nem humilhação, nem ofensas, mas, tampouco guardo rancores”.
Tais palavras foram uma referência aos duros intercâmbios que seu antecessor manteve com Chávez. O mandatário venezuelano acusou Fox, em 2005, de prestar-se “a ser um cachorro do império (EUA)”, depois que este defendeu as posições de livre comércio e criticou o freio que os países latino-americanos puseram ao projeto de criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), incentivado desde meados da década passada por Washington. Com Cuba também houve enfrentamentos. Em 2004, e depois de vários desencontros, o México acusou Havana de ingerências em seus assuntos internos e baixou ao nível mínimo sua relação diplomática, que contrastou com a histórica amizade com o governo de Fidel Castro.
Até meados dos anos 90, os governos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) que se sucederam no México durante quase todo o século passado mantiveram um perfil relativamente alto na América Latina e preferiram permanecer afastados dos conflitos internacionais e atuar como conciliador e independente, embora também tenha namorado com algumas causas da esquerda. Assim, nos anos 70 e 80 condenou as ditaduras militares nos países do Cone Sul da América e abriu suas portas para centenas de exilados dessa região que fugiram da feroz repressão em seus países.
No final da década de 80 e nos anos 90 incentivou e mediou nos processos de paz na América Central até conseguir que as guerrilhas esquerdistas de El Salvador e Guatemala assinassem acordos de paz com os governos desses países. Além disso, abriu seu território para várias rodadas de negociações entre autoridades da Colômbia e a insurgência. Em 1991, negociou com a Espanha iniciativas de cooperação em nível ibero-americano que derivaram na realização anual de cúpulas e na formação de um bloco de 22 países.
Mas, a importância do México na região foi diminuindo nos últimos anos. Fox e seu antecessor, Ernesto Zedillo (1994-2000) mudaram o estilo de seus governos e adotaram posições definidas contra as posturas da esquerda da região e dos grupos chamados altermundistas. “Creio que a aposta de Calderón é manter a neutralidade, não comprar conflitos com seus vizinhos e assumir posições de liderança sempre que estas não gerarem controvérsias”, afirmou Tello. Antes de assumir a Presidência, Calderón fez uma viagem por vários países da América Latina durante aos quais ofereceu maior cooperação e aproximação.
Os analistas consideram que o afastamento do México em relação à América Latina se cristalizou em 1994, quando entrou em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte, que integra junto com Estados Unidos e Canadá. Este instrumento aprofundou os vínculos comerciais do México com seus vizinhos do norte até concentrar neles mais de 90% de suas compras e vendas externas. Em maio de 2005, o México comprovou que seu apoio na região havia diminuído. Nessa ocasião, o então chanceler mexicano Ernesto Derbez retirou sua candidatura à Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos, que era apoiada por Washington, e deixou o caminho livre para o chileno Miguel Insulza.
A retirada de Derbez aconteceu depois de várias votações em que não conseguiu vencer seu adversário, e Washington, ao que aprece, deixou de apoiá-lo. A candidatura do chanceler mexicano à OEA semeou e aprofundou as tensões do México com vários países da região, entre eles Brasil, Chile e Cuba, outrora aliados próximos, mas, que aberta ou veladamente apoiaram Insulza. (IPS/Envolverde)

