Santiago, 17/01/2007 – As investidas presidenciais do ex-guerrilheiro Daniel Ortega na Nicarágua e do esquerdista Rafael Correa no Equador são, às vésperas do 7º Fórum Social Mundial uma ilustração de profundas mudanças políticas em uma América Latina que quer apostar no altermundismo. Atualmente, esta é a região que mais assume o lema do FSM, de “outro mundo é possível”, à luz da onda de pronunciamentos eleitorais que em 2006 puseram em xeque a chamada globalização neoliberal e a hegemonia norte-americana.
Entretanto, na hora de projetar estas transformações em termos de maior protagonismo político por parte dos movimentos sociais, as análises se movem em um vasto campo onde tomam a palavra tanto os céticos quanto os entusiastas, que freqüentemente se colocam interesseiramente em uma ou outra posição. As delegações latino-americanas serão, provavelmente, as menores entre os 150 mil ativistas procedentes de mais de uma centena de países esperados em Nairóbi entre os dias 20 e 25 deste mês, na que será a primeira versão do FSM em uma sede africana.
A distância e o custo para se chegar à capital do Quênia impedirão que organizações não-governamentais e outros grupos representativos da sociedade civil latino-americana participem com um número grande de delegados deste sétimo FSM, que surgiu como alternativa ao Fórum de Davos, que anualmente reúne os poderosos empresários e políticos nessa localidade suíça. Na há dúvidas, no entanto, de que a América Latina será citada com freqüência em Nairóbi como exemplo concreto de uma resistência popular ao modelo unipolar que seu abriu para o mundo no começo dos anos 90, depois da Guerra Fria, baseado no livre comércio e nos equilíbrios fiscais como fórmula magia da gestão econômica.
Entre os eventos políticos do último ano, a reeleição do direitista Álvaro Uribe, na Colômbia, e o controvertido triunfo no México do conservador Felipe Calderón, representaram vitórias de candidatos afins com o governo norte-americano do presidente George W. Bush. Washington também pode alegrar-se pela derrota do nacionalista Ollanta Humala no Peru diante do social-democrata Alan García, que, entretanto, pode reclamar um lugar no amplo mapa regional da centro-esquerda.
Correa e Ortega encerraram um ano que também viu, além das reeleições de Hugo Chávez, na Venezuela, e Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, as vitórias da socialista Michelle Bachelet no Chile diante do empresário direitista Sebastián Piñera, bem como a instalação do governo do líder indígena Evo Morales na Bolívia. Também no Haiti, o país mais pobre da região, a vitória do início do ano de René Préval nas eleições presidenciais foi uma derrota para Bush, cujo governo propiciou em fevereiro de 2004 o golpe que derrubou o presidente constitucional haitiano Jean-Bertrand Aristide.
Marcadamente centro-esquerda, o mapa sul-americano inclui desde 2005 o governo de Tabaré Vázquez no Uruguai desde 2004 o de Nestor Kirchner na Argentina, enquanto no Paraguai o ex-bispo Fernando Lugo, admirador de Chávez, se apresenta como candidato com chances de ser eleito presidente em 2008. convertido em líder de um movimento para o “socialismo do século XXI”, o presidente venezuelano somou-se a Ortega e Correa em sua proposta de uma Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), réplica da Iniciativa para as Américas, lançada em 1990 pelo então presidente dos Estados Unidos, George Bush, pai do atual mandatário.
A Alba também conta com as adesões dos presidentes Fidel Castro, de Cuba, e Morales, da Bolívia, enquanto representantes da chamada “esquerda pragmática”, como Lula, contribuíram para enterrar a Alça (Área de Livre Comércio das Américas), projeto símbolo da política de Washington para a região desde os anos 90. Além dos esquemas que situam Lula, Bachelet e Vázquez com expressões de uma “esquerda pragmática” contra a “esquerda radical” personificada em Chávez, Morales e agora Correa, predomina em quase todos os governos o confronto com o Fundo Monetário Internacional, com atestam os presidentes do Brasil e da Argentina.
Tornou-se corrente, por outro lado, citar Chávez, Morales e Kirchner como porta-bandeiras de um “neopopulismo”,mas, segundo o especialista político e historiador francês Eric Toussaint, é o Presidente Lula que aplica políticas assistencialistas para os pobres, o que o torna mais populista do que seu colega venezuelano. O crescente giro à esquerda da América Latina está transformando novamente a região em um rico laboratório de experiências sociais e políticas, onde as análises dos especialistas, sobretudo europeus, se abrem em um amplo leque que não esclarece o papel que os movimentos da sociedade civil estão desempenhando.
O caso de Chávez é o protótipo destas múltiplas versões. Há os que o chamam de “caudilho igualitário” e elogiam o oficialista Movimento 13 de Abril como motor de iniciativas de participação popular mediante experiências locais de controle da água potável, autoconstrução de moradias, dotação de serviços básicos e incentivo à reforma agrária. Mas, do mesmo modo, o líder venezuelano é visto como um “caudilho personalista” que, enquanto radicaliza a revolução bolivariana com a estatização de empresas estratégicas, cai na tentação da “reeleição indefinida” e do partido único, o que o aproxima mais do fracassado burocratismo do “comunismo do século XX” do que do “socialismo do século XXI”.
Às vésperas da reeleição do Presidente Lula, os italianos Toni Negri e Giuseppe Cocco, teóricos dos “movimentos sociais alternativistas”, criticavam, em declarações ao jornal argentino Página 12, as “cores exageradamente nacionais” dos governos de Chávez e Morales. Por outro lado, elogiavam os governos do Brasil e da Argentina por assumirem uma postura responsável de confronto com o FMI e o Clube de Paris, órgão que coordena os sistemas governamentais de endividamento externo, e por propiciarem desenvolvimentos do movimento social nas áreas do sindicalismo e dos direitos humanos.
Para Negri e Cocco, é preferível uma convergência dos dois maiores países sul-americanos, especialmente do Brasil, rumo à Alba, onde Lula “se nutre das iniciativas bolivarianas”, do que “as cores exageradamente nacionais de uma grande experiência como a de Chávez e, talvez, a de Evo Morales”. A interlocução dos novos governos de esquerda com os movimentos sociais não é fácil, como demonstram as tendências regionais e locais dos conflitos que Morales enfrenta na Bolívia ou o persistente movimento pela democratização do ensino que desafia permanentemente Bachelet no Chile.
No momento, cabe concluir que a globalização neoliberal enfrenta oposições firmes na América Latina em questões de macroeconomia, que recolhem demandas do movimento altermundista, como o questionamento do livre comércio e a revisão do endividamento externo. Com bem disse Correa em sua posse como presidente do Equador, na segunda-feira, “A noite neoliberal começou a ficar para trás”, resta agora, como desafio, que o amanhecer pertença aos movimentos sociais. (IPS/Envolverde)

