Mulher: Maus-tratos e violações como estratégia de guerra na Colômbia

Bogotá, 18/01/2007 – “Os atores do conflito armado na Colômbia, em particular os grupos paramilitares e a guerrilha, usam a violência física, sexual e psicológica contra as mulheres como estratégia de guerra”, afirmou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Esta é uma conclusão da Relatoria sobre os Direitos das Mulheres, órgão da Comissão que integra o sistema da Organização de Estados Americanos, compartilhado na Colômbia através da organização não-governamental Corporação Sisma.

Cerca de 50 entidades da sociedade civil apresentam estatísticas atualizadas e ampliam testemunhos no contexto da visita que realiza ao país desde terça-feira, e até sábado próximo, Victor Abramovich, da Comissão, a fim de enriquecer a informação da Relatoria. O documento assinala que “através da violência contra as mulheres intimida-se e espalha terror nas comunidades, provocando deslocamentos de centenas de famílias” que abandonam suas casas. “Também são apontadas e perseguidas por supostas relações com combatentes e, ainda, intimidadas em busca de informação. Às agressões que sofrem por igual homens e mulheres, no caso delas se agravam pelos delitos de índole sexual”, destaca a Relatoria.

Em razão da violência política, segundo estatísticas da Comissão Colombiana de Juristas, “no período entre janeiro de 2002 a junho de 2006, uma mulher morreu, em média, por dia na Colômbia. São muitas as violações que à sombra do conflito se comete contra meninas, adolescentes e adultas colombianas e, entretanto, não se consegue conscientizar a sociedade nem os meios de comunicação de massa, que poderiam contribuir para sensibilizar a população”, disse à IPS Claudia Mejía, diretora da Sisma.

O documento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e da Sisma aborda a questão do recrutamento de meninas e moças por organizações armadas irregulares com as ultradireitistas Autodefesas Unidas da Colômbia e as insurgentes Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, de esquerda. “Meninas violentadas e forçadas a usar dispositivos intra-uterinos e, inclusive a praticar abortos (…). Os líderes paramilitares mandam buscar meninas com idades entre 12 e 14 anos para morar com eles a fim de lhes prestar serviços sexuais e assumir as tarefas domésticas”, afirma o documento. “A violência cotidiana contra as mulheres se multiplica em tempo de guerra”, ressaltou Mejía. Aumenta o delito, mas a desatenção permanece.

No informe, a Relatoria assegura que as vítimas não recebem tratamento adequado por parte do Poder Judiciário quando apresentam suas denúncias, o que promove a impunidade e perpetua o delito. Esta afirmação coincide com o informe do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos de 2004. Nesse trabalho afirma-se que “a maioria das violações dos direitos das mulheres e meninas ficam impunes devido à falta de investigação, à escassa porcentagem de denúncias em razão do pudor, à falta de credibilidade no sistema de justiça e ao sub-registro nos casos de morte ou violência sexual. Também existem programas de formação em gênero para operadores judiciais e exista a prática sexista especialmente na área penal”, acrescenta o documento.

Mesmo com os chamados no sentido de melhorar a atenção e a proteção das mulheres, o informe reconhece que os funcionários estatais sabem dos desafios por superar, como o avanço normativo e de políticas públicas a favor da população feminina, desenvolvidos na última década. Um dos esforços governamentais é sua preocupação em ter estatísticas confiáveis quanto aos crimes contra as mulheres através de programas realizados pelo Instituto Nacional de Medicina Legal, Departamento Nacional de Estatísticas e Programa Presidencial para a Igualdade da Mulher, entre outros.

Mas ainda há muito a ser feito, conforme recomendam a Relatoria da Comissão; o Alto Comissariado e, inclusive, o Programa Presidencial para a Igualdade da Mulher, que rege as políticas para a população feminina, que em seu informe de 2003 intitulado Mulheres, Construtoras de Paz e Desenvolvimento reconhece que se trata de um grupo populacional muito afetado pela desigualdade. A diretora do PPEM, Marta Lucía Vasquez, disse à IPS que “é preciso reconhecer os avanços de proteção conseguidos, mediante a aplicação de políticas governamentais como a de Segurança Democrática e a Reativação da Política Social do presidente Álvaro Uribe”.

Além disso, indicou que a proporção de mortes entre homens e mulheres é de três para um, e que a Colômbia está acima de muitos países onde a violência contra as mulheres é mais alta. Ainda assim, e segundo estatísticas oficiais, as mulheres constituem a metade da população que abandona seus lares por causa da guerra civil e quatro em cada 10 famílias são chefiadas por mulheres. O informe da Comissão Interamericana de Direitos Humanos assegura que “sobre os ombros da mulher recaem a organização, o cuidado e as tarefas de higiene diária da família. Os homens sentem-se incapazes de resolver problemas e não encontram possibilidades de desenvolver trabalho de campo, o que em certas ocasiões acaba em conflitos familiares”.

“Quando o assentamento acontece em abrigos, a intimidade da mulher se vê afetada (…), as necessidades de saúde em torno da menstruação e o planejamento familiar não são levados em conta”, conforme o documento “Chocó, território de riquezas e sobrevivência”, entregue à relatora durante sua visita a Quibdó, capital do departamento no litoral do Pacífico.

Se os números oficiais são altos, a não-ONG Consultoria para os Direitos Humanos e o Deslocamento na Colômbia (Codhes), assegura que a população deslocada chega a mais que o dobro das cifras divulgadas pelo Estado. A Codhes estima que desde 1985 até dezembro de 2004 tiveram que abandonar seus lares devido ao confronto armado interno cerca de 3,5 milhões de pessoas, 51% das quais são mulheres.

“Sou negra refugiada de Choco há 10 anos. Perdi meu irmão, desaparecido nas mãos de paramilitares por participar de uma marcha de camponeses. Nos obrigaram a abandonar nossas terras, meu marido foi levado e ficou desaparecido por três meses. Com a ajuda de um sacerdote cheguei até Barranquilla (Costa do Caribe) com meus seis filhos. Tive muita dificuldade para mantê-los”, diz um testemunho incluído pela Relatoria. A comissária Susana Villarán visitou a Colômbia em junho de 2005, fez entrevistas com autoridades governamentais, vítimas, familiares de vítimas, organizações da sociedade civil, incluídas as indígenas e afro-colombianas, e agências defensoras dos direitos das mulheres. Em Bogotá, em Quibdó, onde a maioria da população é negra, e Valledupar, capital do departamento de César.

A Relatoria ouviu populações indígenas em Sierra Nevada de Santa Marta, e ao final concluiu que dentro das porcentagens de violência contra as mulheres as raças negra e indígena sofrem ainda mais devido à sua condição de vulnerabilidade por pertencerem a minorias assentadas em territórios de especial riqueza natural.

A perseguição também alcança diretrizes de organizações não-governamentais dedicadas à defesa dos direitos das mulheres. “As mulheres sindicalizadas foram vítimas de 15 feminicídios, 102 ameaças de morte, 10 detenções arbitrárias, 15 hostilidades e perseguições por sua atividade sindical, dois atentados de morte, sete deslocamentos forçados e um seqüestro” em 2005, segundo a Escola Nacional Sindical. A idéia é continuar cumprindo seus esforços. “Para isso necessitamos da divulgação em massa de uma situação que através das mulheres afeta a família e, por extensão, o país”, concluiu Mejía. (IPS/Envolverde)

Helda Martínez

Helda Martínez escribe para IPS desde Colombia, en especial sobre desarrollo y sociedad. Se graduó en 1981 como comunicadora social y periodista. Ese mismo año obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar en la categoría Mejor Trabajo Social, modalidad radio. Trabajó para medios de comunicación masivos de su país, como el periódico El Espectador y la radio Todelar. También se desempeñó como investigadora y redactora de varias publicaciones. Entre ellas se destacan "La guerra: Una amenaza para la libertad de información", editado por Medios para la Paz en 2002; "Prensa, conflicto armado y región. Aprendizajes del diplomado - Periodismo responsable en el conflicto armado" - Medios para la Paz, 2006; "Colombia y las Sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos" - IIDH, 2010.

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