EUA: Extremismo cristão contra os imigrantes

Oakland, EUA,, 31/01/2007 – A maioria das organizações religiosas dos Estados Unidos costuma apoiar a causa dos trabalhadores sem documentos. Mas existe uma, a First Families on Immigration, que se distingue pelo inverso. Esta instituição cristã dá mais atenção a assuntos como segurança na fronteira do que aos direitos humanos dos imigrantes, e defende a eliminação do direito à cidadania natural dos filhos de estrangeiros nascidos neste país. Segundo a 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, toda pessoa nascida em território norte-americano é cidadã do país, um direito contra o qual essa organização trava uma duríssima batalha.

Mas este é um fato incomum. A maioria das organizações religiosas promove uma perspectiva muito diferente. Isso ficou evidente em uma conferência proferida em abril por Joan Maruskin, diretora do Programa de Imigração do Serviço Mundial Eclesiástico, em um fórum do Conselho de Pesquisa da Família, grupo de pressão cristão e conservador com sede em Washington. Em resposta a uma pesquisa feita pelo Conselho, segundo a qual 90% dos norte-americanos entrevistados se inclinavam pela deportação de 11 a 12 milhões de imigrantes clandestinos, Maruskin alertou que a Bíblia é um “manual de imigração”. Além disso, disse preferir como solução ao problema uma ampla anistia do que formalizar o direito à radicação desses estrangeiros.

No outro extremo do debate está a First Families on Immigration. No começo do mês, esta organização enviou carta ao presidente George W. Bush e aos líderes do novo Congresso pedindo que se comprometam com urgência com “fortes medidas de segurança na fronteira” e com a aprovação de uma emenda constitucional que elimine o direito à cidadania natural de filhos de imigrantes ilegais. Entre suas propostas, a título de concessão, figurava uma anistia para os imigrantes ilegais com familiares que contaram com cidadania. A First Families, que assegura fundamentar suas posturas na reflexão sobre princípios religiosos, conta com figuras muito conhecidas nos Estados Unidos.

Entre essas personalidades figuram Gary Bauer, ex-aspirante à Presidência pelo Partido Republicano e líder da organização American Values; Deal Hudson, ex-assessor de Bush e membro do Instituto Morley para a Igreja e a Cultura, e Paul Weyrich, pioneiro do moderno conservadorismo norte-americano e diretor da Fundação Congresso Livre. “Não nos surpreende que líderes da direita religiosa finalmente entrem no jogo”, disse à IPS Devin Burghart, diretor do programa Iniciativa para a Construção da Democracia, do Centro para uma Nova Comunidade, com sede em Chicago.

“A organização reivindica uma postura mais moderada do que a da Minuteman e outras organizações extremistas contrárias à imigração, e usa um contexto religioso para atrair seus seguidores”, afirmou Burghart. “Eles afirmam que seguem os tradicionais ensinos religiosos, mas parecem ignorar grande parte da Bíblia, especialmente as passagens sobre hospitalidade com os estrangeiros”, ressaltou.

Por sua vez, Mark Potok, especialista do Southern Poverty Law Centre, afirmou que First Families on Immigration “tenta não parecer antilatina, de maneira nada ingênua, embora ao mesmo tempo reafirme sua base de direita. Seus dirigentes tentam desesperadamente manter com vida sua coalizão, mas com certeza não conseguirão”, acrescentou. A First Families on Immigration foi criada pelo ativista Manuel Miranda, conservador de longa data e ex-assessor do ex-líder republicano do Senado Bill Frist em matéria de designação de juízes.

Em novembro de 2004, Miranda foi acusado de roubar em memorandos que circulavam entre legisladores democratas de um computador do Comitê de Assuntos Judiciais do Senado, um escândalo que ficou conhecido como “Memogate”. O semanário The Hill informou em 2005 que o hoje líder religioso esteve “com um pé no túmulo político”. Mas conseguiu salvar sua imagem diante de figuras importantes do conservadorismo republicano em Washington com gestões tais como a que impediu a designação para a Suprema Corte de Justiça da juíza Harriet Miers, a qual consideravam liberal, apesar de ter sido nomeada por Bush.

Quanto ao seu novo papel, Miranda disse à IPS: “Pedimos ao presidente que reabra o debate. Divulgamos um informe político para comentar e analisar, intitulado ‘Bons vigilantes, bons vizinhos’. Esse documento acrescentará elementos ao debate”, afirmou, mas lamentou que o Congresso controlado pelos democratas não pareça muito disposto a analisar o problema da imigração. Miranda disse que a organização Minuteman, que patrulha a fronteira com o México, não “integra a coalizão”. Mas “se concordam com nossos princípios fundamentais, podem unir-se”, acrescentou.

A parte que causa mais aborrecimento da agenda da First Families on Immigrations é tratar de suprimir o direito à cidadania natural de filhos de estrangeiros, afirmou Devin Surghart. “É um ataque aos direitos civis em geral e, em especial, à 14ª Emenda, pedra angular de nossa democracia”, acrescentou. Trata-se de uma organização “sedenta de novos membros e espera receber novos financiamentos”, inspirados pelo “êxito que teve o Comitê de Ação Política da Minuteman” nesse sentido, disse Burghart. A organização parece tentar estender uma ponte que “encurte a distancia entre o mais duro do movimento contrário à imigração e a direita religiosa”, acrescentou.

Quanto aos assuntos que propõe, Mark Potek considera pouco provável que a organização tenha alguma “oportunidade em um Congresso controlado pelos democratas”. Mas embora não tenha um impacto imediato na legislação, sem dúvida tentará “colocar o assunto no centro da campanha presidencial de 2008. Se conseguir, será considerado um êxito”, afirmou Burghart. (IPS/Envolverde)

(*) Bill Berkowitz é um famoso observador do movimento conservador norte-americano. Pública periodicamente a coluna Conservative Watch, na revista eletrônica WorkingforChange.org.

Bill Berkowitz

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