Itália: Não à base norte-americana

Vicenza, Itália, 23/01/2007 – A zona em torno do velho aeroporto Dal Molin constitui quase a única área verde que resta no distrito industrial de Vicenza, no norte da Itália. Em breve, esses 450 mil metros quadrados se converterão em uma base militar dos Estados Unidos. Porém, os moradores desse povoado que fica 530 quilômetros ao norte de Roma se opõem ao projeto. “Defendemos nossa terra e não queremos estar na primeira linha da guerra global contra o terrorismo”, disse Francesco Pavin, da “Não a Dal Molin”, uma coalizão de cidadãos, ativistas contra a guerra, organizações religiosas e ambientalistas.

Em Vicenza, localidade de 107 mil habitantes, já existe uma base militar norte-americana, Camp Ederle, estabelecida em 1965. Agora abriga 2.750 soldados da brigada aérea 173 e suas famílias. Essa brigada operou recentemente no Afeganistão e Iraque. Camp Ederle 2, cuja construção terminará em 2010 ao custo de US$ 500 milhões contará com oito blocos habitacionais para 4.500 soldados, dois restaurantes, um hospital e um centro de treinamento. O exército dos Estados Unidos prevê que o velho aeroporto em desuso volte e operar. Também é previsto que a população de cidadãos norte-americanos da zona aumente para 20 mil uma vez completada a expansão.

“É uma operação de loucos. O aeroporto fica a 1.400 metros da praça principal da cidade, em uma área muito povoada”, explicou Cinzia Bottene, porta-voz de uma rede de 12 organizações locais denominada “Comitês pelo Não”. “Não é ambientalmente sustentável. O volume da infra-estrutura equivalerá a 700 metros cúbicos de concreto. A nova base consumirá tanta água quando um terço da população de Vicenza, com risco de esgotamento” para as já pobres reservas hídricas, disse Botteri à IPS. “Isso produzirá contaminação. Os Estados Unidos retiraram sua assinatura do Protocolo de Kyoto (pela redução dos gases causadores do efeito estufa, responsável pelo aquecimento global). O governo italiano não pode controlar as emissões do incinerador de Camp Ederle”, destacou Pavin.

“Não protestamos somente porque eles constroem outra base militar em Vicenza. Dizemos não aqui e em qualquer outra parte”, disse à IPS Toni Pigatto, da associação escáuticalocal. “Rechaçamos a idéia de que a democracia possa ser difundida com armas. A natureza da nova base é puramente ofensiva. Com ela Vicenza se converterá no povoado mais militarizado da Itália e, provavelmente, de toda a Europa”, disse Giovanni Marangoni, da organização cristã Famílias pela Paz. Cerca de 30 mil pessoas fizeram uma marcha contra a base em dezembro, “para defender a terra para um futuro sem bases de guerra”. Um cartaz dizia “Não somos antinorte-americanos. Estamos com os milhões de norte-americanos que disseram basta à política de Bush”.

A organização Não a Dal Molin fez várias petições, debates públicos e marchas. Seus membros montaram uma grande barraca de campanha, branca, diante do aeroporto, onde os manifestantes se fazem presentes dia e noite para organizar debates, protestes e concertos. “Resistiremos até que cheguem os tratores. Eles terão de pagar um preço muito alto por esse acampamento”, disse Pavin à IPS. Segundo recente pesquisa feita pelo instituto Demos, 63% dos moradores de Vicenza são contra a construção da nova base. O projeto de Ederle 2 foi aprovado pela primeira vez em 2003 pelo então primeiro-ministro Silvio Berlusconi (1994-1996 e 2001-200¨), à frente de uma coalizão de governo de centro-direita. A municipalidade deu sua autorização em 2004, mas em segredo, afirmou Bottene à IPS.

“Ficamos sabendo deste projeto pela imprensa em maio de 2006”, acrescentou o ativista. “Depois, a prefeitura continuou dizendo durante meses que ainda havia espaço para a negociação, apesar de as decisões já terem sido tomadas e serem irreversíveis”. Uma vez que souberam que o atual governo de centro-esquerda liderado por Romano Prodi não se oporia aos planos dos Estados Unidos, cerca de 300 pessoas ocuparam a estação ferroviária local durante duas horas.

Os cidadãos estão pedindo “um referendo cujo resultado seja levado em conta pelo governo”, disse Bottene. Ederle 2 está se tornando um tema álgido para a coalizão de governo. legisladores do Partido Verde decidiram se abster de votar até que o governo encontre uma saída. Na Itália há 12 bases militares dos Estados Unidos, algumas com bombas nucleares e mísseis. La Maddalena, uma base naval na mediterrânea ilha de Certenha, será desmantelada no final deste ano, depois da forte oposição dos moradores ao plano de expansão. (IPS/Envolverde)

Stefania Milan

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