Nairóbi, 26/01/2007 – O comitê organizador do Fórum Social Mundial, encerrado ontem na capital do Quênia, deverá decidir o futuro deste encontro da sociedade civil, tanto em relação à sua forma de organização quanto à sua próxima sede.
Criado em oposição a este encontro anual na localidade suíça de Davos, que reúne governos e a elite financeira e empresarial internacional, o FSM reúne quase simultaneamente organizações e ativistas da sociedade civil que, entre outras coisas, se opõem à dominação global por parte do capital. As três primeiras edições aconteceram em Porto Alegre, em 2004 foi na cidade indiana de Mumbai, no ano seguinte voltou à capital gaúcha e em 2006 aconteceu simultaneamente em Bamako, Caracas e Carachi, no que foi chamado de “fórum policêntrico”.
O ativista queniano Edward Oyugi, representante da Rede de Desenvolvimento Social e membro do comitê organizador do FSM, disse que o fórum está destinado a voltar à América Latina em 2009. “É provável que regresse ao seu lugar de origem, o Brasil, e que saia novamente da América Latina no ano seguinte”, afirmou. Oyugi qualificou de positivo o encontro deste ano e disse que foram aprendidas muitas lições, mas, não considerou prudente retornar logo à África. “A África precisa de um ou dois anos para refletir sobre o FSM e avalia-lo antes que possamos pedir que volte. Quando outro país africano quiser ser a sede, poderemos nos beneficiar da experiência em Nairóbi”, ressaltou.
Taoufik Bem Abdallah, de Tunis, afirmou que o forum de 2009 não será tão importante quanto o que ocorrer antes dele. “O importante não é 2009, mas que até lá seja iniciado um novo processo. Devemos consolidar o espírito de inovação. Este ano tivemos uma quarta jornada e reunimos diferentes coalizões e novas ações coletivas. Espero que isto cresça nos próximos anos”, afirmou. Abdallah reclamou mais ações nos próximos dois anos para responder rapidamente às mudanças mundiais. “A idéia por trás disto é transformar o FSM em um processo permanente e fazer com que as pessoas sejam mais ativas entre uma reunião e outra. No passado, nos ocupamos em ampliar o movimento através de diferentes fóruns. Agora, é o momento de nos aproximarmos da realidade”, ressaltou o ativista.
Por sua vez, Flavio Lotti, também membro do comitê organizador, discordou de seus colegas e considerou importante que o próximo FSM acontece novamente no continente africano. “Creio que devemos voltar à África, ou permanecermos na África. este é o continente mais abandonado. Aqui o FSM nos permitiu não só uma aproximação com os pobres mas, também, trabalhar junto com eles. O espírito do Fórum começou com uma marcha pela paz em um assentamento marginalizado e terminou com uma maratona em outro. Isto foi organizado pelos moradores desses locais, não pelo comitê organizador”, disse. “Está nas mãos da África decidir em qual região do continente poderia ser realizado o próximo FSM. Faze-lo em um país de língua francesa seria bom, ou talvez de língua portuguesa. É a África que deve decidir”, concluiu Lotti.
Por outro lado, os organizadores do sétimo Fórum Social Mundial afirmaram estar descontentes com as ações de alguns manifestantes durante o encontro. Bem Abdallah se mostrou contrário à atitude agressiva de “uma pequena minoria” que exigir entrada livre na sede do FSM, bem como água e alimentos mais baratos durante o evento. O ativista disse ao TerraViva que alguns manifestantes foram “muito agressivos. Vieram três deles e disseram ser representantes do movimento social. Isso é democrático?”, perguntou. “Devem respeitar nossa soberania como organizadores. Subsidiamos mais de quatro mil moradores dos assentamentos precários”, acrescentou.
No primeiro dia do encontro, os organizadores decidiram cobrar um valor simbólico de 50 chelines (US$ 0,7) pela entrada, mas, a partir do segundo dia a tornaram totalmente gratuita. “Os vendedores de água são pobres. Não podem dar a água gratuitamente, e como organizadores não podemos pagar três garrafas de água por dia para todos. O governo deveria ter fornecido a água, e a luta dos manifestantes deveria ser contra o governo”, disse Ben Abdallah. Além disso, o ativista acusou alguns “atores europeus” de terem uma agenda oculta e incitar as pessoas a protestarem, e anunciou que o assunto será apresentado ao comitê internacional.
Por outro lado, Oyugi destacou que os organizadores tentaram conseguir a maior participação possível de quenianos e considerou “injustas” as críticas dos manifestantes. “Alguns dos que exigem entrada gratuita portavam crachás que foram financiados pelo comitê organizador. Muitas dessas pessoas usam a imprensa apenas para expressarem queixas que nada têm a ver com o FSM. É algo político”, afirmou. Para Oyugi, a situação ideal seria contar com um fundo especial para que os pobres tivessem acesso a alimentos e água a baixo custo. Entretanto, explicou, a água era mais barata no Estádio Moi do que em outras partes de Nairóbi. José Chacón, outro integrante do comitê organizador, negou terem sido manifestantes que obrigaram a abrir os portões do FSM, na terça-feira. “Já havíamos aberto”, disse, acrescentando que os que protestavam não eram mais do que cem pessoas, sendo que a metade delas não pertencia aos assentamentos precários. (IPS/Envolverde)


